Operação Lava Jato

O que pensam bairros "paneleiros" e a periferia de Curitiba sobre depoimento de Lula?

Janaina Garcia

Do UOL, em Curitiba

  • Janaina Garcia/UOL

    Outdoor dá "boas vindas" a Lula no Bigorrilho, bairro de classe média alta em Curitiba

    Outdoor dá "boas vindas" a Lula no Bigorrilho, bairro de classe média alta em Curitiba

Nem mesmo bairros de Curitiba que viveram o silêncio ou uma "orquestra" de panelaços ano passado, em meio ao processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT), veem agora um consenso formado sobre a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na cidade, nesta semana, para ser interrogado pelo juiz da 13ª Vara Federal do Paraná, Sergio Moro. O encontro está marcado para as 14h de quarta (10) e já tem um esquema de segurança previamente marcado que tentará evitar grupos antagônicos no mesmo espaço.

A reportagem do UOL conversou com moradores de Curitiba de áreas nobres, como o bairro do Bigorrilho, e de regiões da periferia, como a CIC (Cidade Industrial). Em ambos os casos, a ida do petista à cidade encontra divergências. Pela segurança definida pelas autoridades policiais, no entanto, a previsão é que a militância petista fique restrita à Boca Maldita, no centro histórico, enquanto a antilulista e pró-Moro deve ficar no Centro Cívico --ainda que outdoors com mensagens sarcásticas de "boas vindas" ao petista já estejam espalhados por vários pontos da capital paranaense.

No Bigorrilho, boa parte dos prédios de alto padrão –vários deles, com a bandeira do Brasil nas sacadas, no gesto que passou a simbolizar o apoio à Lava Jato –aderiu em massa aos panelaços do ano passado contra Dilma. Moradora do bairro, a autônoma Juliana Laux, 39, contou que não participou da ação "por causa das minhas cachorras, que se assustam com o barulho". O motivo, no entanto, ela apoia –tanto que não concorda com militantes petistas que querem vir à cidade em apoio a Lula.

"Tudo o que vi sobre esse depoimento foi pela internet; e muita coisa a favor de Lula. Sinceramente, acho um saco que [militantes petistas] venham até aqui por isso e incomodem a rotina dos moradores. É impressionante que meia dúzia ainda idolatrem esse sujeito –só pode ser lavagem cerebral, não tem outra explicação", observou. Sobre a Lava Jato, foi taxativa: "Acho uma operação maravilhosa, corretíssima. Todo político que agiu errado tinha mais é que ser preso", defendeu.

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A autônoma Juliana Laux mora no Bigorrilho, área nobre de Curitiba

Também morador do bairro, o advogado Elivelton Ferreira, 35, acredita que o depoimento de Lula a Moro --"é parte de qualquer processo contra qualquer um, independentemente de quem seja", resumiu –vai gerar um "cabo de guerra" na cidade.

"Acho que a intenção de quem vem para cá defendê-lo é a de fazer baderna, quebradeira, porque é gente que não quer que ele responda processo. E quem faz isso quer mais é tocar o terror, mesmo", opinou. Sobre a operação em que Lula é um entre dezenas de políticos e empresários investigados, Ferreira concluiu: "A Lava Jato está cumprindo o papel dela, mas é uma pena que, em Brasília, tenha gente até do Supremo [Tribunal Federal] agindo contra a operação", lamentou.

Uma das críticas dos militantes é sobre a soltura do ex-ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, na última quarta-feira (3), por decisão do STF. O episódio rendeu até briga entre ativistas de grupos distintos em frente à Justiça Federal do Paraná, aonde Dirceu havia sido levado para colocar a tornozeleira eletrônica.

Bancária critica "preconceito velado"; marido vê juiz "moleque"

Ainda no Bigorrilho, o casal Francisco Rocha, 70, e Ana Paula Lima, 37, se mostrou pasmo com a reação dos vizinhos, e mesmo de outras partes de Curitiba, sobre o depoimento do petista. Nordestina de Mossoró (RN), a bancária afirma ter receio da violência de alguns discursos que, na avaliação dela, vêm carregados de preconceitos.

"Eu, até pela minha religião [evangélica], busco me manter neutra no aspecto político. Mas já vi gente aqui perto ser hostilizada só por colocar roupa vermelha em criança, por exemplo, e não é raro você ouvir aquele preconceito velado, aparentemente não violento, associado ao nordestino ou a políticos que ganharam voto de nordestino –em uma associação clara com pobreza, como se nordestino fosse só isso", conta. "Em Curitiba, por exemplo, em algumas escolas, o que a gente vê é uma espécie de doutrinação contra a esquerda travestida daquele de discurso de se 'lutar por um Brasil melhor' no qual, necessariamente, a esquerda seja um câncer, um estorvo. Talvez, por ser de fora, eu tenha essa percepção", constata a bancária. "Foi uma orquestra de panelas aqui ano passado. Contra a Dilma, bem entendido: contra Eduardo Cunha [preso em outubro], só teve silêncio", completa.

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O casal Francisco e Ana Paula, moradores do Bigorrilho, em Curitiba

Procurador aposentado pelo Ministério Público do Paraná, o marido de Ana Paula se mostrou contrariado pelo que chama de "arbitrariedades desse juiz" contra Lula.

"Não sou político, mas acho esse papel da Justiça ridículo. Esse juiz é sério, mas, às vezes, parece se portar como moleque. Foi ele quem montou esse circo que virou o depoimento de Lula –se ele tratasse a todos da mesma forma, não teria esse clima hoje. Moro em um reduto antilulista que não vê esse tipo de arbitrariedade", declara Rocha.

Em um vídeo divulgado em uma página do Facebook administrada por sua mulher, Rosangela Wolff Moro, o juiz federal, coordenador dos processos da Lava Jato na primeira instância, pediu aos simpatizantes da operação que evitassem se envolver em situações de conflito e classificou o interrogatório do ex-presidente como "ato normal do processo" e disse que não terá "nada de diferente ou anormal".

Depoimento não afeta a rotina, dizem moradores da periferia

Na Cidade Industrial, em situação socioeconômica e de segurança pública oposta à do Bigorrilho –várias moradias nasceram como ocupações, e tráfico de drogas e homicídios, relata quem vive ali, são parte comum da rotina do bairro --, moradores também se mostraram divididos em relação à figura do petista. Mesmo assim, é como se, para eles, o impacto da ida de Lula e da militância lulista a Curitiba pouco afetasse a realidade de cada um.

"Tenho certeza que vai ter confusão na cidade por causa do Lula, mas na minha casa, e em boa parte da minha vizinhança, e do meu trabalho, o pessoal todo é a favor dele. Conseguimos melhorar muito de vida nos dois governos dele –quem pisou na bola foi a Dilma", diz o pintor José dos Santos, 52. "A classe trabalhadora o apoia –ainda que confesso, eu não tenha coragem de usar uma camisa afirmando esse apoio. Em Curitiba, seria uma atitude muito perigosa", pondera.

Mulher de Santos, a manicure Marli Brizola, 50, também acredita que o tumulto deve ser grande na quarta-feira. "Para a gente, aqui, o depoimento do Lula não afeta em nada –nem panelaço, praticamente, houve ano passado aqui. Eu gosto do ex-presidente, mas tenho muito medo da reação das pessoas, de um modo geral", define.

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O casal Marli Brizola e José dos Santos mora na Cidade Industrial, em Curitiba

"Muita bagunça e baderna por pouco"

Também na CIC, o balconista Jeová Nunes Correia, 51, acha que "vai ser muita bagunça e  muita baderna por pouco": "Todo político é ladrão. E brigar por eles, na minha opinião, só dá mais ibope ao sujeito –eu mesmo torço para que Lula nunca mais seja eleito", sugere. Se a atenção do curitibano com problemas da própria cidade é páreo para a dispensada a Lula? "Imagina. Tanto que nunca teríamos o aparato policial que esse evento vai ter mesmo quando precisássemos", avalia o balconista. 

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O balconista Jeová Nunes Correia, morador da Cidade Industrial, em Curitiba

Perto dali, ainda no bairro, o casal Ana Paula Flauzino, 32, e Carlos Eduardo Estefano, 34, reforçam a opinião do vizinho. "Para a gente, não faz diferença nenhuma o Lula estar em Curitiba. Acho uma babaquice ter gente disposta a brigar por isso, mas me preocupa mesmo é a gente saber que o que há de ruim hoje no país não tem só a mão dele", afirma Ana Paula, que é auxiliar administrativa.

"O Lula é responsável direto por muita coisa de ruim que acontece hoje, só que se enfrentar na rua por isso é algo completamente sem cabimento, uma idiotice. Por que as pessoas não usam uma energia dessas para cobrar postos de saúde e segurança, por exemplo? A gente, aqui, é diretamente afetado por isso todo dia e não vejo cidadão nenhum cobrando que seja melhor", completou Estefano, que opera caldeiras industriais. "Uma coisa é certa: eu jamais iria à rua por quem quer que fosse. Zelaria pela minha vida, acima de tudo", sugere Ana Paula.

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O casal Carlos Eduardo e Ana Paula, da Cidade Industrial, em Curitiba

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