Áudio mostra que Temer sabia que J&F havia infiltrado procurador em investigação

Leandro Prazeres e Daniela Garcia

Do UOL, em Brasília e em São Paulo

Joesley fala a Temer que 'está bem' com Cunha e diz 'segurar' procurador

O presidente Michel Temer (PMDB) sabia que o grupo J&F havia infiltrado um procurador da República nas investigações contra o grupo que tramitam na Justiça Federal. Em áudio divulgado pelo STF (Supremo Tribunal Federal) nesta quinta-feira (18), o empresário Joesley Batista, dono do grupo, contou ao presidente que ele havia colocado um procurador para atuar em favor do grupo junto às investigações.

Ouça na íntegra a conversa entre Temer e Joesley

Na manhã desta quinta, a PF (Polícia Federal) prendeu o procurador Ângelo Goulart Vilella, que atuava nos casos envolvendo o grupo J&F por repassar informações sigilosas ao grupo empresarial.

No áudio divulgado, Joesley fala sobre o procurador ao detalhar sua estratégia de defesa em relação às investigações das operações Sepsis e Greenfield.

"Consegui um procurador dentro da força-tarefa que está me dando informação e que eu estou pra dar conta de trocar o procurador que está atrás de mim", disse Joesley ao presidente.

"Eu consegui colar um no grupo e agora estou tentando trocar [o procurador titular] (...) então eu estou me defendendo", repetiu Joesley ao presidente, que responde assentindo. "É", disse Temer.

Em nota, o Palácio do Planalto afirma que Temer "não acreditou" nas declarações do empresário. "O presidente Michel Temer não acreditou na veracidade das declarações. O empresário estava sendo objeto de inquérito e por isso parecia contar vantagem. O presidente não poderia crer que um juiz e um membro do Ministério Público estivessem sendo cooptados", diz o texto enviado pela assessoria de imprensa da Presidência.

Joesley também detalha a Temer os detalhes sobre o quanto estaria pagando ao procurador infiltrado. "Consegui. Tô fazendo um [inaudível] 50 mil por mês do rapaz e tal, pra ele me dar informação, pelo menos me dar informação. "Ah, teve reunião, falou isso, falou daquilo". O bravo é [inaudível] Enfim, mas vamos lá. Eu queria falar sobre isso e falar como é que é que... pra mim falar contigo, qual é a melhor maneira, porque eu falava com o Geddel... Eu não vou lhe incomodar, evidente..."


[Presidente Temer]:   [inaudível]

[Joesley]: Tô no meio também, e tô segurando as pontas, tô indo. Nesses processos eu tô meio enrolado aqui, né, no processo assim...

[Presidente Temer]: Você está sendo investigado.

[Josley]: Isso, é, investigado, eu não tenho ainda denúncia. E eu dei conta de um lado do juiz, dá uma segurada, do outro lado o juiz substituto, que é um cara que fica...

[Presidente Temer]: Está segurando os dois.

[Joesley]: Segurando os dois. E eu consegui, dentro da força tarefa, que está também me dando informação, e eu lá que eu tô pra dar conta de trocar o procurador que está atrás de mim. Se eu der conta, tem o lado bom e o lado ruim. O lado bom é que dá uma esfriada até o outro chegar e tal, e o lado ruim é que se vem um cara com raiva ou com não sei o quê...

[Presidente Temer]: Está te ajudando?

[Joesley]: O que tá me ajudando, tá bom, beleza. Mas o principal é o que está me investigando. Eu consegui colar um no grupo. Agora eu estou tentando trocar...

[Presidente Temer]: O que está [inaudível]?

[Joesley]: Isso... tô nessa aí. Então tá meio assim, ele saiu de férias, até essa semana eu fiquei preocupado que saiu um burburinho que iam trocar ele e não sei o quê. Eu tô com medo, eu tô só contando essa história para dizer assim: Eu tô me defendendo aí, tô me segurando e tal, os dois lá tô bancando, tudo bem. Mas... o Geddel estava aqui com aquele negócio da anistia e quase não veio.

[Presidente Temer]: Quase... [inaudível] empresariais que vão dizer que você [inaudível] são nossos. Se todos se reunirem e fizerem isso [inaudível], mas se todos fizerem isso.

[Joesley]: Sabe que eu estive até com o presidente Lula, na época, lá no dia, que o PT, parte do PT... "ah, Paulo Pedro não sei o quê..." – "pô, presidente, mas..." "ô, eu quero uma aguinha, um...". "Água que você quer?" Todo mundo...

[Presidente Temer]: [inaudível]

[Josley]: Então, isso foi um negócio que... o negócio da autoridade também era outra, né? A autoridade.

Em outro trecho, Joesley conta a Temer que evitou uma investigação contra a JBS na Lava Jato ao pagar propina ao procurador infiltrado.

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  • http://noticias.uol.com.br/enquetes/2017/05/18/na-sua-opiniao-o-que-vai-acontecer-com-o-governo-temer.js

Durante a conversa, Temer concorda com as críticas de Joesley contra  o processo de delação adotado pelo MPF (Ministério Público Federal).

O dono da JBS afirma que a empresa já foi alvo de "quatro ou cinco" delatores. Ele afirma que o MPF recusou delatores que não falavam do grupo empresarial.

Joesley imita a postura de um procurador: "fala, se não [você vai ficar preso]". Temer responde: "para se livrar, fala".

Há mais críticas ao MP por parte do empresário: "Eu falo lá pro procurador: doutor procurador, o senhor quer me investigar, não tem problema. Mas não fica dando solavanco, não. E fazendo medidas destemperadas, e divulgando pra imprensa... Doutor, eu posso estar certinho, mas eu vou chegar lá morto. De tanto solavanco que o senhor vai me dar, se eu tiver 100% certo, eu morro. Para com isso", declara Joesley.

Temer pediu acesso a áudios

A gravação divulgada pelo STF também foi entregue a Temer, que pediu ao Supremo acesso aos áudios.

Mais cedo, o STF havia autorizado a abertura de inquérito contra o presidente. A decisão de abrir uma investigação contra Temer foi tomada pelo ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo. O pedido foi feito pela PGR (Procuradoria-Geral da República). A partir de agora, o presidente passa a ser formalmente investigado.

No meio da tarde, Temer fez um pronunciamento no Palácio do Planalto e negou que vá renunciar após o escândalo. "Não renunciarei. Repito, não renunciarei. Sei o que fiz e sei a correção dos meus atos. Exijo investigação plena e muito rápida para os esclarecimentos ao povo brasileiro. Essa situação de dubiedade ou de dúvida não pode persistir por muito tempo", disse o presidente.

Em sua fala, Temer não cita a questão do procurador, mas diz que "em nenhum momento autorizei que pagassem a quem quer que seja para ficar calado. Não comprei o silêncio de ninguém, por uma razão singelíssima: exata e precisamente porque não temo nenhuma delação".

"Não preciso de cargo público nem de foro especial, nada tenho a esconder, sempre honrei meu nome: na universidade, na vida pública, na vida profissional, nos meus escritos, nos meus trabalhos, e nunca autorizei, por isso mesmo, que usassem meu nome indevidamente. E por isso quero registrar enfaticamente que a investigação pedida pelo STF será território onde surgirão todas as explicações, e, no Supremo, demonstrarei não ter nenhum envolvimento com esses fatos", completou Temer.

Veja a íntegra do pronunciamento de Temer no Planalto

Entenda as acusações

Joesley Batista, um dos donos da JBS, encontrou Temer no dia 7 de março no Palácio do Planalto. O empresário registrou a conversa com um gravador escondido. Em um trecho, Joesley inicia um diálogo sobre o ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Após perguntar qual era a atual relação entre Temer e o ex-deputado, o empresário diz que zerou "tudo o que tinha de pendência" com Cunha. Mais para frente, no diálogo, Joesley afirmou: "eu tô bem com o Eduardo". Ao que Temer respondeu: "e tem que manter isso, viu".

Na quarta-feira (17), ao divulgar em primeira mão a delação de Joesley Batista, o jornal O Globo relatou que a resposta "tem que manter isso" seria a um aviso de Joesley de que estaria pagando uma mesada para manter o silêncio de Eduardo Cunha na cadeia. O diálogo, porém, tem trechos inaudíveis, tornando inconclusiva uma possível referência a um aval de Temer aos pagamentos mensais.

Em nota publicada ontem, Temer confirmou o encontro, mas disse que "jamais solicitou pagamentos para obter o silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha" e negou ter participado ou autorizado "qualquer movimento com o objetivo de evitar delação ou colaboração com a Justiça pelo ex-parlamentar".

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