Quem é o deputado flagrado com uma mala de dinheiro que "ameaça" Temer?

Janaina Garcia e Mirthyani Bezerra

Do UOL, em São Paulo

  • Brizza Cavalcante/Câmara dos Deputados

    O deputado federal Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) em foto de 2010

    O deputado federal Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) em foto de 2010

De "percevejo de gabinete" de nomes como Roberto Requião e Michel Temer (PMDB) a "candidato a homem-bomba" do presidente da República, caso decida e tenha o que delatar. É assim que parlamentares paranaenses que convivem ou conviveram com o deputado federal afastado Rodrigo Rocha Loures o classificam em meio a um escândalo político deflagrado com as delações da JBS. O turbilhão pode custar a queda de Temer, o mandato do paranaense e o do senador mineiro Aécio Neves (PSDB).

Loures aparece no epicentro da crise não apenas como deputado -- cujo mandato foi suspenso pelo STF (Supremo Tribunal Federal) --, mas como ex-assessor especial de Temer que acabou flagrado recebendo uma mala com R$ 500 mil oriundos de propina.

Sob a condição de anonimato, parlamentares conversaram com a reportagem do UOL sobre a trajetória de Rocha Loures –alçado de empresário do ramo alimentício, em 2002, a chefe da assessoria parlamentar de Temer, em 2015, e deputado federal em 2017 com a nomeação de Osmar Serraglio (de quem era suplente) ao Ministério da Justiça.

Filho do empresário e ex-presidente da Fiep (Federação das Indústrias do Paraná) Rodrigo Costa da Rocha Loures, 74, Rodrigo Santos Rocha Loures, 50, se formou administrador de empresas pela FGV (Fundação Getúlio Vargas), em São Paulo. Ele está no segundo casamento, tem dois filhos e sua mulher está grávida. Chegou à política ao se aproximar de um Roberto Requião ainda candidato ao governo do Paraná, em 2002.

Foi tão ativo na campanha vitoriosa, que o peemedebista viu nele perfil para integrar a futura equipe de governo. Loures atuou como chefe de gabinete de janeiro de 2003 a julho de 2004. No ano seguinte, filiou-se ao PMDB e, com o apoio do padrinho político, lançou-se em uma campanha à Câmara Federal em 2006, saindo vitorioso dela e mantendo-se no cargo até 2011.

Ainda no governo do Paraná, ele assumiu em janeiro de 2005 a direção do então chamado IDP (Instituto Paraná Desenvolvimento), onde ficou até junho de 2006.

Segundo um dos parlamentares, mais próximo de Requião, "Rodrigo tinha um perfil legal para ser chefe de gabinete, mas é o contrário do Requião –tanto que não gostou do estilo centralizador do governador e começou a se preparar para a campanha", relata.

"Mas na realidade, sempre foi um puxa-saco – ainda que um rapaz educado, supercordial e polido, com boa formação, extremamente agradável, mas puxa-saco. É quase impossível brigar com ele", observa.

Vídeo mostra deputado ligado a Temer recebendo propina

De aliado de Requião a assessor especial de Temer

A aproximação com Temer começaria no mandato em Brasília (2007 a 2010) e ganharia corpo em 2010, quando o agora presidente, então deputado federal e presidente nacional do PMDB, apostava na aliança com o PT para a sucessão daquele ano -- Dilma Rousseff seria eleita, por sinal, com Temer de vice. Favorável à candidatura própria do PMDB à Presidência, Requião, eleito senador em 2006, foi voto vencido.

Outra distância cavada entre padrinho e afilhado viria ainda em 2010, mas para a disputa ao governo paranaense – com o PMDB coligado com o PDT pela candidatura de Osmar Dias. Requião e boa parte do PMDB estadual queriam o deputado estadual Caíto Quintana (PMDB) como vice. Mais influente na sigla, no entanto, Temer conseguiu emplacar Rocha Loures na chapa que acabou derrotada por Beto Richa (PSDB).

"Temer estava mais acostumado a lidar com gente que ia para cima, gente que batia de frente. Ele gostou do jeito do Rodrigo, que não trazia problemas, mas solução. Ainda mais que ele tinha dificuldade de penetração no PMDB do Paraná com a ideia de apoiar o PT para a Presidência", diz um dos entrevistados.

Já atuando como assessor do vice-presidente Temer, no primeiro mandato de Dilma, Rocha Loures foi alçado a membro da Executiva nacional, pelo peemedebista, e nomeado interventor do PMDB do Paraná em 2014, quando o partido rachou em relação a lançar nome ao governo paranaense ou apoiar Richa na tentativa de reeleição.

Então presidente da Executiva e favorável à coligação com os tucanos, Osmar Serraglio foi deposto da função, e o partido lançou Requião –que sequer avançou ao segundo turno. No ano seguinte, entretanto, o senador seria oficializado presidente eleito do partido, posto que ainda ocupa.

"Era o sujeito que carregava a mala e oferecia o café"

"Rodrigo cresceu nesse vácuo do puxa-saquismo, sem opinião de nada –valia a opinião do Temer. Em Brasília ele se aproximou de vários grupos e pessoas, mas colou no Temer com o jeito 'entrão' e muito afável de sempre, especialmente com os poderosos. Era o sujeito que literalmente carregava a mala e oferecia o café, sempre em atitude de serviçal, mas nunca passou muito disso, tanto que Temer nunca o nomeou a um cargo de relevância", aponta outro político. "Como ele não tentou a reeleição à Câmara, em 2010, e como só conseguiu a suplência, em 2014, Temer acabou arrumando uma sala para ele", ironizou.

"No partido, acabou repetindo a pecha de 'percevejo de gabinete' que doutor Ulysses [Guimarães, um dos principais fundadores do PMDB] usava para se referir a Geddel Vieira [Lima, ex-ministro]", complementa. "Mas acabou que o Rodrigo vendia muita proximidade, era muito deslumbrado", alfinetou o outro.

O UOL quis saber de ambos os entrevistados de que maneira a notícia sobre a mala com os R$ 500 mil com suposta propina foi avaliada por peemedebistas e ex-peemedebistas paranaenses. "Ele está na lama; não podia ter deixado transbordar uma bobagem dessas, uma armação dessas, e de um empresário ligado a uma cadeia produtiva onde tem tanta gente ruim", afirmou um deles.

"Acabou para ele. Certeza que haverá processos de cassação e de expulsão. Mas o fato é que a delação do Rodrigo, todo mundo no partido sabe, se resume a uma frase --basta ele dizer de quem era, de fato, a mala com os R$ 500 mil. É um homem-bomba, e principalmente porque não tem estrutura emocional, nem a família, para aguentar isso", respondeu a fonte mais próxima do próprio Rocha Loures.

Na campanha, doações de investigados na Lava Jato e "homenagem" de Temer

Empresas investigadas pela operação Lava Jato foram responsáveis por quase 20% das doações de campanha de Rocha Loures em 2014. Segundo registro de doações no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), foram R$ 590 mil, se somados os valores doados pela Brasken, BTG Pactual e Galvão Engenharia -- desse valor, R$ 400 mil foram doados apenas pelo BTG Pactual. Não há no TSE registros sobre doações da JBS ou da J&F para o parlamentar afastado. 

Loures também recebeu R$ 200.650,30 do comitê de campanha de Temer, à época candidato a vice de Dilma, e R$ 50 mil do atual prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB). O valor total de receita da campanha declarado à Justiça Eleitoral em 2014 foi R$ 3.041.552,55. Todos os valores das empresas e dos apoiadores políticos foram doados de maneira legal, com registro no TSE. 

Como vice-presidente, Temer chegou a gravar um vídeo apoiando o paranaense. Nele, se referiu a Rocha Loures como "belíssima figura da vida pública brasileira".

Após o estouro das delações da JBS, Temer manteve o apoio público ao deputado, dizendo, em entrevista à Folha de S. Paulo, que ele tem "muito boa índole". Sobre o fato de Loures ser flagrado carregando uma mala com dinheiro oriundo de propina, o presidente se limitou a dizer que o comportamento de seu assessor não era "aprovável.

"Belíssima figura da vida pública", diz Temer para campanha de Loures em 2014

Propina da JBS era quase um terço do valor de bens declarados 

Rocha Loures é suspeito de ter recebido propina da JBS para viabilizar nomeações e operações de interesse da empresa. Seria, segundo denúncias, o interlocutor entre Temer e a JBS. Em uma ação controlada organizada pela PGR (Procuradoria-Geral da República), foi filmado recebendo uma mala com R$ 500 mil entregue pelo diretor de Relações Institucionais da JBS, Ricardo Saud.

Joesley Batista, um dos donos da JBS, e Saud teriam acordado com Rocha Loures o pagamento de uma propina de R$ 500 mil semanais por 20 anos --o que totalizaria quase meio bilhão de reais.

A quantia da "primeira parcela" recebida durante a ação controlada é quase um terço do valor de bens declarados pelo deputado afastado na campanha de 2014, que era de R$1.187.771,22. 

Outro lado

O UOL procurou as assessorias dos senadores Roberto Requião e Romero Jucá, respectivamente, presidentes das executivas estadual e nacional do PMDB, mas eles não retornaram os pedidos de entrevista sobre a situação de Rocha Loures no partido. A assessoria de Requião informou que ele está em viagem oficial à Itália e que já se manifestara sobre Rocha Loures em seu perfil no Twitter --Requião o chamou de "idealista,meu amigo" e indagou, sem mais mais detalhes: "O que fizeram de você, Rodrigo Rocha Loures? Vejo tudo com indignação e muita tristeza. CANALHAS", escreveu.

O advogado do deputado afastado, José Luís Oliveira Lima, não quis comentar as informações sobre o perfil político do cliente. A defesa não tem comentado as acusações contra ele e, em nota divulgada na semana passada, afirmou que Loures está "à disposição das autoridades para prestar todos os esclarecimentos devidos".

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