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Cármen Lúcia aproveita palestra em Minas para contar "causos"

Fábio Motta/AE
Imagem: Fábio Motta/AE

Carlos Eduardo Cherem

Colaboração para o UOL, em Belo Horizonte

08/07/2017 04h00

Mineira de Montes Claros, distante 418 Km de Belo Horizonte, no norte do Estado, região célebre por “contadores de causos”, a presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), ministra Carmen Lúcia, é uma exímia adepta da arte de contar histórias.

Na sexta-feira (7), durante palestra para desembargadores, corregedores e ouvidores de Justiça, no 3º Encontro do Colégio Nacional de Ouvidores Judiciais, no Palácio da Justiça, sede do TJ-MG (Tribunal de Justiça de Minas Gerais), em Belo Horizonte, Carmen Lúcia contou quatro casos para ilustrar as dificuldades de comunicação entre o Judiciário e a sociedade brasileira.

Painel de propaganda quase faz ministra desistir de ir ao Supremo

"Na semana passada, no sábado, tomando um táxi, eu li no centro de Belo Horizonte um painel de um edifício, bem próximo daqui [Palácio da Justiça, no centro de Belo Horizonte].

Eu olhei de longe e falei: - Nossa Senhora. Falei alto no táxi. Pra mim, estava escrito assim: 'fora, hoje é dia do Supremo'. Então eu interpretei então: uai, então hoje é dia de pegar o Supremo.

Como eu estava dentro do táxi, quase o mandei de volta pra casa. Mas depois, eu vi outra placa: 'oba, hoje é dia do Supremo'. E Supremo era uma marca que estava anunciando ali. [a ministra deu a entender que leu de maneira errada a primeira placa]

Aí, o taxista que tinha me reconhecido logo na minha entrada, falou assim: 'Nossa, ministra, a senhora está meio receosa'.

Aí, eu falei: 'Estou igual mulher que apanha. Na hora que a pessoa pega um chicote para bater no cachorro, ela já sai correndo'."

"Mecaniquês" x “juridiquês”

"Há pouco tempo atrás, eu precisei levar meu carro numa oficina. Eu não entendo nada de carro, a não ser para dirigir. E há um preconceito enorme na sociedade brasileira. Mulher então, que dirige e leva o carro à oficina, a pessoa mal olha.

E ele (o mecânico) me descreveu lá: olha, o carro está com barulho, acho que na parte traseira, perto da roda de trás, do lado direito.

Ele nem olhou pra mim e continuou: - olha isso aí deve ser a rebimboca da parafuseta que engatou com não sei o quê.

Não entendi nada do que ele falou e, como ele nem olhou pra mim, eu disse:

- Ah, engraçado. Eu pensei que fossem os embargos infringentes que tinham sido providos com efeitos devolutivos.

Aí, ele olhou e disse:

- Como é que é, dona? Eu não entendi nada.

Aí eu falei:

- Nem eu. O senhor vê que somos todos iguais, homens e mulheres, em qualquer função, na incapacidade para entender o outro.

Após decisão, vereador quer saber se ganhou ou perdeu

"Na madrugada, 1h30 da manhã, depois de sessões que terminavam nesse horário no período eleitoral [no TSE, onde a ministra já foi presidente], alguém diz: 'ministra, um vereador de não sei onde quer falar'.

'Como assim, quer falar? Nós já decidimos o que tinha de ser decidido pelo colegiado.'

Então, quando atendi ao telefone, o vereador diz: 'ministra, eu só queria entender: eu ganhei ou perdi?'"

Taxista confunde Supremo com Ministério da Previdência

"Um taxista no Rio me disse um dia: 'os senhores não entenderam a Constituição sobre a Previdência.'

Aí, ele me explicou e, no final da corrida, não me deixava sair do carro, tentando saber se eu tinha entendido o que a Constituição tinha dito sobre a Previdência. Disse que a mãe dele ganhava 700 e poucos reais, achava que tinha direito a mil e tanto e que a culpa era do Supremo.

Por mais que eu dissesse que esse ministério é outro, ele dizia não: 'se o ministério não serve nem pra isso, então não sei para quê vocês são supremo.'"

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