Com flores de Maduro, corpo de fundador do PT é velado em SP

Mirthyani Bezerra

Do UOL, em São Paulo

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    21.jul.2017 - Lula e Dilma prestam a última homenagem a Marco Aurélio Garcia

    21.jul.2017 - Lula e Dilma prestam a última homenagem a Marco Aurélio Garcia

Com lágrima nos olhos, Bejamin, 10, se aproximou do corpo do avô, o professor Marco Aurélio Garcia, assessor especial da Presidência da República nos governos do PT e um dos fundadores do partido, e estendeu sobre ele as bandeiras do Brasil e do PT. A criança foi consolada pelo pai, Leon Garcia, filho único do petista. O corpo de Garcia está sendo velado na Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo) na manhã desta sexta-feira (21).

Garcia morreu nessa quinta-feira (21) após sofrer um infarto fulminante no apartamento onde morava sozinho, no centro de São Paulo. 

Alan Marques - 18.out.2013/Folhapress
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) chegaram à Alesp por volta das 13h30. Lula chegou acompanhado do vereador Eduardo Suplicy (PT) e do ex-ministro de Relações Internacionais Celso Amorim. O ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT) e outros ex-ministros dos governos petistas Alexandre Padilha e Aldo Rebelo foram prestar as últimas homenagens a Marco Aurélio Garcia.                        

A cerimônia é aberta ao público e devem comparecer ao longo do dia lideranças do partido que Garcia ajudou a fundar após voltar do exílio na ditadura militar.

O corpo será cremado na manhã deste sábado na Vila Alpina, na zona leste de São Paulo.

Durante o velório, a presidente nacional do PT, senadora Gleisi Hoffmann (PR), contou que Marco Aurélio Garcia seria, junto de Lula, um dos coordenadores da formulação do novo programa de governo do partido para 2018.

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Lula chega a velório acompanhado de Eduardo Suplicy
"Ele participava muito dos debates da Fundação Perseu Abramo e era uma das pessoas que estariam junto com a fundação e com o presidente Lula na coordenação da formulação no novo programa de governo do PT para a disputa da Presidência, do presidente Lula", disse Gleisi.

A senadora ainda relatou que recebeu com muita surpresa a notícia sobre a morte do companheiro de partido: "Para nós foi um choque. Ele não estava doente, não tinha problema nenhum".

Entre as várias coroas de flores em homenagem a Garcia está a do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia chegou a ser responsabilizado pelo silêncio da então presidente Dilma Rousseff diante da escalada de violência do governo de Maduro ante protestos de opositores.

A proximidade com governos latino-americanos de esquerda motivava de críticas recorrentes à política externa do Brasil nos anos Lula e DilmaEm entrevista à revista "Piauí" publicada em março de 2009, Garcia disse que a aproximação era produto da necessidade, e não da ideologia: "Essa é uma visão pragmática. Temos superávits comerciais com todos eles", afirmou.

Ele também foi personalidade influente na exclusão do Paraguai do Mercosul, em 2012, após o impeachment-relâmpago do presidente Fernando Lugo.

Mirthyani Bezerra/UOL
Coroa de flores enviada pelo presidente Nicolas Maduro

Garcia dividiu a formulação da política externa dos governos petistas com o Itamaraty, comandado por Celso Amorim. Era entusiasta da cooperação Sul-Sul, principalmente com países da América Latina, e dos Brics, o bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Após o impeachment de Dilma, perdeu o cargo

Gaúcho, era professor aposentado do departamento de história da Unicamp. Deixa o filho, o neto e mãe de 100 anos, que vive em Porto Alegre com a sua única irmã.

Lula e Dilma lamentam morte

A ex-presidente Dilma lamentou na tarde desta quinta a morte de Marco Aurélio, a quem chamou de "meu querido amigo".

"A morte do professor Marco Aurélio Garcia, meu amigo querido, é extremamente dolorosa. Desfrutei pela última vez de sua companhia há três semanas. Conversamos sobre a vida e os momentos terríveis que o país atravessa", escreveu a ex-presidente em nota oficial. "É muito duro saber que não terei mais sua companhia, nem o prazer de ouvir sua poderosa gargalhada".

"Hoje é um dia de dor para todos nós, que compartilhamos com ele seus muitos sonhos, histórias e lutas. Era um amigo querido, de humor fino e contagiante, sempre generoso e cheio de ideias, dono de uma mente arguta e brilhante", continuou Dilma. "Um dia terrível para quem luta por um mundo melhor, com justiça social. Um dia muito, muito triste".

Também em nota, o Instituto Lula classificou Marco Aurélio como "um intelectual brilhante e um militante incansável". O texto destacou o trabalho do político como entusiasta pela integração da América Latina.

"Foi interlocutor assíduo e qualificado das diversas forças democráticas do continente. A credibilidade política e pessoal por ele alcançada permitiu que Marco Aurélio Garcia desempenhasse, em sintonia com o Itamaraty, relevante papel na construção e execução de uma nova política externa, ativa e altiva, soberana e fraterna, com um legado que é reconhecido internacionalmente e hoje faz falta para o Brasil", destacou o Instituto.

Amigos de Garcia, políticos e militantes lamentaram o falecimento em publicações em redes sociais. Entre os nomes que se manifestaram estão o ex-ministro e ex-governador gaúcho Tarso Genro (PT) e os deputados federais Maria do Rosário (PT-RS), Paulo Teixeira (PT-SP), José Guimarães (PT-CE) e Roberto Requião (PMDB-PR).

Em nota, o senador Jorge Viana (PT-AC) afirmou que Marco Aurélio "era um  intelectual e militante apaixonado pela política, um perseverante sonhador que lutou pela justiça social desde a juventude".

"Sempre foi uma referência dentro do PT e um gigante no campo das ideias. Um democrata respeitado  em todo o mundo. Ele sempre foi um homem do diálogo, defensor intransigente de um mundo e um Brasil mais justo. Foi um privilégio ter convivido com ele. É muito triste para todos nós, do PT, esta quinta-feira. Lamento muito a sua morte", completou.

Marco Aurélio também era professor aposentado do Departamento de História da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Ele deixa um filho.

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