Operação Lava Jato

Empreiteiras eram definidas no governo Cabral antes das licitações, dizem delatores

Paula Bianchi

Do UOL, no Rio

  • Fabio Motta/Estadão Conteúdo

    Sérgio Cabral está preso preventivamente desde novembro passado

    Sérgio Cabral está preso preventivamente desde novembro passado

Empresas que participaram de obras realizadas no Rio de Janeiro durante o governo de Sérgio Cabral (PMDB) eram decididas por acordo antes de serem abertas as licitações, segundo executivos das empreiteiras Andrade Gutierrez e Carioca Engenharia, ouvidos nesta segunda-feira (4) pelo juiz federal Marcelo Bretas. As ações penais são desdobramentos da Operação Lava Jato.

Foram ouvidas sete testemunhas das duas empresas que assinaram acordo de colaboração com a Justiça em dois processos no âmbito da operação Lava Jato no Rio envolvendo Cabral, secretários e empreiteiros acusados pelo Ministério Público Federal de desvios em obras públicas como o PAC Favelas e a remodelação do Estádio do Maracanã.

O ex-diretor da Andrade Gutierrez Clóvis Primo afirmou que o acerto sobre que empresas iriam entrar na obra do Maracanã foi feito antes de ser lançada a licitação para o projeto. "Sabíamos antes da licitação", disse Primo. "Como a Andrade queria participar [das obras] do Maracanã e a gente sabia que seria feito pela Odebrecht e pela Delta, Rogério [Nora] foi ao governador para dizer que a Andrade tinha interesse de participar."

Segundo o ex-presidente da Andrade Gutierrez Rogério Nora, a Odebrecht e a Delta já estavam acertadas informalmente para disputarem o consórcio. Em reunião com Cabral, em que pediu para participar do consórcio, o então governador teria concordado com a entrada da Andrade Gutierrez, mas não abria mão da presença Delta no negócio.

"Procurei o governador para que pudéssemos ser inseridos no contrato. Ele não falou em propina, mas em colaboração, e falou que nós e as outras empresas iríamos contribuir com 5%", afirmou Nora. A obra do estádio, que inicialmente fora orçada em R$ 720 milhões, se encerrou com um custo superior a R$ 1,2 bilhão.

Dono da Carioca, Ricardo Pernambuco Junior relatou que a empresa pagou propinas ao governo de "R$ 200 mil, R$ 500 mil" na expectativa de participar de alguma licitação, o que acabou acontecendo quando a empreiteira entrou no consórcio responsável pelas obras do PAC na Rocinha. "As empresas se reuniam antes e acertavam o edital", afirmou.

Cabral cobrava, de acordo com o Ministério Público Federal, propina de 5% para si sobre valor das obras contratadas pelo governo do Rio junto a empreiteiras e 1% para colaboradores do esquema --informação ratificada pelos delatores.

Prejuízo suspendeu propina, diz ex-executivo

De acordo com o ex-executivo da Andrade Gutierrez Alberto Quintaes, os pagamentos de propina da Andrade Gutierez relativos ao Maracanã foram encerrados a pedido de Nora depois que a obra passou a dar prejuízo. "Quando vislumbrou-se que estava com muitos problemas foi mandado parar de pagar", afirmou,

Segundo a defesa de Cabral, o ex-governador manteve apenas relações institucionais com os executivos. Em interrogatório no dia 10 de julho, Cabral reagiu à acusação de recolhimento de 5% de propina. "Nunca houve 5%. Que 5% é esse? Que maluquice é essa?", respondeu o réu ao ser questionado pelo juiz da 7ª Vara.

O peemedebista foi governador do Rio de Janeiro entre 2007 e 2014. Na última eleição, elegeu seu sucessor Luiz Fernando Pezão, também do PMDB.

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