Operação Lava Jato

Empresário que ficou 'de luto' com prisão de Cabral faturou R$ 32 mi; amizade não é crime, diz defesa

Bernardo Barbosa

Do UOL, em São Paulo

  • Fábio Motta/Estadão Conteúdo

    Georges Sadala (de boné) chega à sede da PF, no Rio

    Georges Sadala (de boné) chega à sede da PF, no Rio

O empresário Georges Sadala, detido nesta quinta-feira (23) em nova fase da Operação Lava Jato no Rio, deu uma prova do tipo de relação que mantinha com o ex-governador Sérgio Cabral (PMDB) quando este foi preso no ano passado. Segundo os investigadores, ele faturou ao menos R$ 32 milhões em contratos com o Estado no governo Cabral (2007-2014) e seu patrimônio se multiplicou por 25 no período.

"Galera hoje o Rio está de LUTO!!!!! Acho inoportuno confraternizarmos num clima desse!!! Vamos remarcar em breve!!! Ab a todos!!", escreveu Sadala em e-mail para os integrantes de uma "confraria" na manhã do dia 17 de novembro de 2016, horas após a prisão de Cabral.

Reprodução/MPF-RJ
Em e-mail, Sadala suspende confraternização após prisão de Cabral

O e-mail de Sadala integra pedido de prisão preventiva contra ele feito pelo MPF-RJ (Ministério Público Federal no Rio de Janeiro).

No pedido dos procuradores, não é possível saber se Cabral fazia parte da "confraria" e se iria ao evento no dia em que acabou preso, mas essa não seria a primeira confraternização de Sadala com o ex-governador.

O empresário foi um dos participantes da "Farra do Guardanapos", quando foi fotografado durante animada confraternização em Paris, em 2009. Secretários do governo Cabral e outros empresários amigos, como Fernando Cavendish, ex-dono da construtora Delta, também participaram da festa.

Também é possível que Sadala tenha confraternizado com Cabral quando ambos eram vizinhos no condomínio de luxo Portobello, em Mangaratiba, cidade da Costa Verde do Rio a cerca de 100 km da capital.

Reprodução/Blog do Garotinho
Sadala é o 2º da esquerda para a direita, ao lado de Cavendish (centro)

"Grande corruptor"

Além de vizinhos e companheiros de festa, Sadala e Cabral integravam, segundo o MPF, a mesma organização criminosa. Conhecido pelos pelos codinomes "G", "Salada" e "Saladino", o empresário é apontado pelo MPF como "o grande corruptor da iniciativa privada na área de prestação de serviços especializados relacionados ao programa Rio Poupa Tempo".

Em troca de facilidades na contratação de suas empresas junto ao Estado, ele é suspeito de ter pagado ao menos R$ 1,3 milhão em propina para a organização criminosa encabeçada por Cabral, de acordo com os procuradores.

O MPF afirma que Sadala teve "evolução patrimonial exponencial" a partir do governo Cabral. A Gelpar, uma de suas empresas, recebeu R$ 32,4 milhões da Junta Comercial do Estado do Rio entre 2009 e 2013. No período, a Junta --uma autarquia do Estado-- era a responsável pelo Rio Poupa Tempo.

Em 2007, os rendimentos declarados de Sadala eram de R$ 386 mil; em 2012, chegaram a quase R$ 10 milhões. Quatro anos depois, caíram drasticamente para R$ 186 mil.

"Não bastasse, em 2016, é observada a maior discrepância do período: a movimentação financeira de Georges Sadala é mais de 67 vezes maior do que os rendimentos declarados pelo investigado, a denotar que tenha recebido recursos de origem desconhecida", aponta o MPF, com base em dados da Receita Federal.

Já os bens e direitos de Sadala foram de R$ 1,4 milhão em 2007, primeiro ano do governo Cabral, para R$ 35,6 milhões em 2016 --o valor do patrimônio se multiplicou por 25 no período.

O que diz a defesa do empresário

A defesa de Sadala criticou a prisão preventiva sem que o empresário tivesse sido ouvido pelo MPF ou PF. Por meio de nota, a defesa diz que o empresário "sempre esteve à disposição das autoridades tendo viajado ao exterior e retornado ao país algumas vezes nos últimos anos, inexistindo indicativo de que pretendesse se furtar à oportunidade de prestar qualquer esclarecimento à Justiça".

No comunicado enviado à imprensa, o advogado informou que todas as perguntas foram respondidas e que a prisão "atende propósito meramente simbólico de alcançar último personagem do enredo dos guardanapos, o que se evidencia pelo próprio nome dado à operação policial: 'C'est fini'".

O comunicado negou ainda a acusação de repasses indevidos, o que a defesa diz que pode ser demonstrado pela movimentação das contas bancárias. "O único fato concreto apurado e comprovado --e não negado pelo empresário-- é sua amizade com o ex-governador Sérgio Cabral, o que, por si só, não remete à prática de crime, nem à necessidade da prisão cautelar, de modo que confia que essa medida extrema será revista pelo próprio Poder Judiciário", encerra a nota.

Operação prendeu mais quatro

Além de Sadala, foram presos hoje Régis Fichtner, ex-secretário estadual da Casa Civil; Henrique Ribeiro, ex-presidente da Funderj (Fundação Departamento de Estradas de Rodagem do Rio de Janeiro); Lineu Castilho Martins (suposto operador de Henrique Ribeiro); e Maciste Granha de Mello Filho (sócio e presidente da construtora Macadame).

O empresário Alexandre Accioly foi intimado a prestar depoimento. Também foi cumprida condução coercitiva de Fernando Cavendish, ex-dono da Delta, que está em prisão domiciliar desde o ano passado.

Boa parte das investigações tem como base as anotações de Luiz Carlos Bezerra, tido como o operador do "caixa" da quadrilha que operava no poder público do Estado do Rio. Segundo o MPF, a organização criminosa se beneficiava da cobrança de propinas de 5% de todos os contratos administrativos assinados pelo governo, desviando e lavando uma "imensa quantia ainda não totalmente mensurada".

A reportagem do UOL procurou a defesa dos investigados.

A defesa de Cavendish informou que não se manifestaria.

O empresário Alexandre Accioly informou, por meio de nota, que prestou esclarecimentos a respeito da venda de um imóvel, aquisição de um automóvel e operação de crédito, cujo empréstimo foi integralmente quitado, firmados com Georges Sadala. 

De acordo com a nota, "todas as transações se deram em moeda corrente nacional, amparadas por  documentação comprobatória --tais como escritura, documentos de compra e venda de bens e respectivas transferências bancárias (TEDs)--, e devidamente reportadas nas declarações de bens de Accioly referentes a cada exercício fiscal em que se verificaram".

De acordo ainda com ele, as informações prestadas referem-se "a relacionamento de caráter estritamente pessoal, e não se comunicam com as empresas nas quais Alexandre Accioly detém participação".

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