Operação Lava Jato

Quem é quem na 'Farra dos Guardanapos': 8 estão presos pela Lava Jato

Marina Lang

Colaboração para o UOL, no Rio

Três dos sete alvos da etapa desta quinta-feira (23) da Operação Lava Jato no Rio de Janeiro estavam presentes no episódio que ficou conhecido como "farra dos guardanapos", jantar ocorrido em 2009 no Hotel Ritz, em Paris. Batizada de "C'Est Fini" ("É o fim", na tradução livre do francês), a operação de hoje faz alusão ao evento, que reuniu o ex-governador Sérgio Cabral (PMDB), ex-secretários do Estado e do Município, além de empresários hoje investigados na Lava Jato.

Ao menos oito dos convidados da festa com o ex-governador fluminense se encontram presos pela Lava Jato.

Estavam presentes no jantar o ex-chefe da Casa Civil do Rio de Janeiro, Régis Fichtner, o empresário Georges Sadala --ambos presos hoje-- e o empresário Fernando Cavendish, alvo de condução coercitiva nesta quinta e que atualmente cumpre prisão domiciliar. O empresário Alexandre Accioly, dono da rede de academias "Bodytech", foi intimado a prestar depoimento na sede da PF.

O esquema criminoso, de acordo com o MPF (Ministério Público Federal), movimentou entre 2007 e 2016 cerca de R$ 21 milhões somente em propina. Segundo a Procuradoria, esta fase é um desdobramento das investigações das operações Calicute e Eficiência.

Em entrevista na manhã desta quinta, o MPF informou também que foram coletadas anotações de contabilidade paralela que apontam para os alvos das prisões de hoje, e que foram feitas por Luiz Carlos Bezerra –apontado pelos investigadores como operador financeiro do esquema.

Segundo o MPF, o jantar pode ter sido uma comemoração antecipada devido à escolha da capital fluminense como cidade-sede da Olimpíada 2016. Fotos e provas coletadas mostram o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman, presente no evento. Ele foi preso em outubro e solto 15 dias depois. 

Veja quem compareceu à "farra dos guardanapos":

Sérgio Cabral

Preso desde novembro do ano passado, o ex-governador Sérgio Cabral (PMDB), apontado na Operação Lava Jato como chefe do maior esquema de corrupção já existente no Estado, completou um ano de cadeia na semana passada. Cabral é acusado de crimes de corrupção passiva, lavagem de ativos e organização criminosa.

O político já foi condenado, no total, a 72 anos e quatro meses de reclusão, sendo duas sentenças aplicadas pelo juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal do Rio, e uma por Sergio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba. Uma delas, de 45 anos, é a maior sentença da Lava Jato.

Ele ainda pode ser punido em outros 12 processos nos quais é réu. Foi alvo de 16 denúncias, cujas propinas são estimadas em R$ 400 milhões.

Mesmo detido na Cadeia Pública José Frederico Marques, em Benfica, na zona norte carioca, Cabral mantém relações de poder, conforme apontam investigações da Polícia Federal e do Ministério Público do Estado.

De acordo com a PF, um grupo ligado a Cabral passou a montar dossiês contra o juiz Marcelo Bretas, sua família e investigadores da força-tarefa da Operação Lava Jato no Rio. Documentos obtidos pela "TV Globo" mostram que o ex-governador teria um "fundo milionário" para financiar uma devassa na vida dos alvos em questão.

À época, a defesa de Cabral refutou as informações, e o ex-governador, na audiência marcada pelo reencontro com Bretas, afirmou se tratar de "um factoide", "um terrorismo". Na mesma ocasião, Cabral pediu desculpas ao juiz Marcelo Bretas por ter discutido com ele no interrogatório anterior (veja a seguir).

Cabral discute com juiz da Lava Jato

A defesa de Cabral vem negando as acusações da Lava Jato e, em interrogatórios na 7ª Vara Criminal Federal, o ex-governador admitiu a existência de caixa dois.

Régis Fichtner

Um dos homens de confiança da gestão Cabral (2007-2014), o ex-secretário de Estado da Casa Civil do Rio de Janeiro Régis Fichtner recebeu voz de prisão por volta das 6h desta quinta, em sua casa, na Barra da Tijuca, na zona oeste carioca.

De acordo com a Lava Jato, Fichtner é suspeito de ter recebido propina avaliada em R$ 1,5 milhão. O inquérito foi instaurado a partir de informações sobre a existência de uma organização criminosa que atuava no setor de prestação de serviços ao Estado. Além disso, há indícios de fraudes a precatórios (requisições de pagamento expedidas pela Justiça para quitação de dívidas de entes públicos) durante o governo Cabral.

A PF informou que, no decorrer das investigações, constatou-se que empresários costumavam procurar Fichtner para obter vantagens em relação a contratos com o Executivo mediante pagamento de propina.

Natural de Porto Alegre, Fichtner é advogado. Sua vida política sempre girou em torno do ex-governador. Foi suplente de Cabral no Senado e chegou a assumir a cadeira na ausência do peemedebista. Exerceu ainda a função de tesoureiro da campanha na qual o ex-chefe se elegeu pela primeira vez para a chefia do Executivo fluminense, em 2006.

Sempre foi um aliado estratégico para Cabral, assim como Wilson Carlos, apontado como braço direito e segundo homem na hierarquia do grupo criminoso que, de acordo com a Lava Jato, era chefiado pelo ex-governador.

No governo do Estado, ficou diretamente responsável por conduzir processos licitatórios e acompanhar o andamento de grandes obras realizadas no período investigado, tais como a construção da linha 4 do metrô.

A defesa de Fichtner ainda não se manifestou sobre as acusações.

OBRA DA LINHA 4 FICOU SOB SUPERVISÃO DE FICHTNER

Georges Sadala

É um dos empresários que esteve em Paris, convidado pelo ex-governador Sérgio Cabral. Junto a secretários da alta cúpula do governo, Sadala foi fotografado usando um guardanapo na cabeça.

Segundo o MPF, além de vizinho de Cabral no condomínio Portobello, em Mangaratiba (RJ), Sadala "era o grande corruptor da iniciativa privada na área de prestação de serviços especializados relacionados ao programa Rio Poupa Tempo.

Sadala teve evolução patrimonial exponencial desde o início do governo Cabral. Segundo os investigadores, ele faturou ao menos R$ 32 milhões em contratos com o Estado no governo Cabral e seu patrimônio se multiplicou por 25 no período.

Em troca de facilidades na contratação de suas empresas junto ao Estado do Rio, ele garantiu o pagamento de propina, com o aporte de, ao menos, R$ 1,3 milhão em favor da organização criminosa, segundo o MPF.

A prisão ocorreu, segundo o MPF, por uma movimentação atípica nas suas contas bancárias e os indícios de uma possível mudança para Portugal. De acordo com informações do jornal "Valor Econômico", ele também foi citado em delação feita pelo doleiro Lucio Funaro: foi um dos favorecidos com o rombo milionário na Prece, o fundo de pensão dos funcionários da Cedae, na gestão de Cabral.

Sadala chegou a lamentar com amigos a prisão do ex-governador Sérgio Cabral no ano passado: "O Rio está de luto", disse, em e-mail enviado no dia da Operação Calculite.

O empresário preso hoje teve o senador Aécio Neves (PSDB-MG) e o empresário Alexandre Accioly (que também prestou depoimento hoje) como padrinhos de seu casamento. Cabral e a mulher, Adriana Ancelmo (também ré na Operação Lava Jato), estiveram presentes na celebração.

A defesa de Sadala criticou a prisão preventiva sem que o empresário tivesse sido ouvido pelo MPF ou PF. Por meio de nota, a defesa diz que o empresário "sempre esteve à disposição das autoridades tendo viajado ao exterior e retornado ao país algumas vezes nos últimos anos, inexistindo indicativo de que pretendesse se furtar à oportunidade de prestar qualquer esclarecimento à Justiça".

No comunicado enviado à imprensa, o advogado informou que todas as perguntas foram respondidas e que a prisão "atende propósito meramente simbólico de alcançar último personagem do enredo dos guardanapos, o que se evidencia pelo próprio nome dado à operação policial: 'C'est fini'".

O comunicado negou ainda a acusação de repasses indevidos, o que a defesa diz que pode ser demonstrado pela movimentação das contas bancárias. "O único fato concreto apurado e comprovado --e não negado pelo empresário-- é sua amizade com o ex-governador Sérgio Cabral, o que, por si só, não remete à prática de crime, nem à necessidade da prisão cautelar, de modo que confia que essa medida extrema será revista pelo próprio Poder Judiciário", encerra a nota.

Sérgio Côrtes

Ex-secretário de Saúde de Cabral, Sérgio Côrtes foi preso no dia 11 de abril. Criador das UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) e cotado para ser ministro, o médico foi diretor do Into (Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia), na região portuária do Rio.

Juntamente com integrantes do governo Cabral e empresários do setor de equipamentos hospitalares, Côrtes é acusado de ter desviado ao menos R$ 300 milhões dos cofres públicos por meio de fraude em licitações. Segundo a Operação Fatura Exposta da Polícia Federal, os desvios começaram no Into e se estenderam para a Secretaria Estadual de Saúde.

Ao efetuar a compra de equipamentos hospitalares, o secretário repassava a fornecedores o preço de custo somado ao valor de tributos de importação. No entanto, por se tratar de órgãos públicos, tanto a secretaria de Saúde como o Into são isentos desses impostos. Os valores desviados envolviam a compra de próteses e equipamentos hospitalares como aparelhos de raio-x e tomógrafos.

Côrtes foi denunciado por corrupção ativa e passiva, organização criminosa e obstrução de Justiça devido a tentativa de atrapalhar as investigações.

À época da prisão, a defesa de Côrtes disse, por meio de nota, que o ex-secretário "tem todo interesse em elucidar os fatos atribuídos a ele e que, no momento oportuno, provará sua inocência".

O ex-secretário devolveu à Justiça Federal cerca de US$ 4,3 milhões, que teriam sido obtidos como propina depositada em contas no exterior. O valor, contudo, é inferior à soma supostamente desviada por Côrtes.

Em depoimento ao juiz federal Marcelo Bretas em setembro, o político afirmou que assumiria seus erros. Ele é acusado pelo delator César Romero, ex-subsecretário de Saúde, de tê-lo procurado para combinar como seria feita a delação premiada --a conversa foi gravada por Romero.

Por ocasião desta reportagem, o UOL entrou em contato com a defesa de Côrtes, que ainda não se manifestou.

Fernando Cavendish

Dono da empresa Delta, Fernando Cavendish foi preso em junho do ano passado durante a Operação Saqueador, que investiga desvio de recursos pela empresa de engenharia. Hoje, o empresário foi conduzido coercitivamente para depor --sua defesa disse que não se manifestaria.

Segundo as investigações, entre 2007 e 2012, a Delta teve 96,3% do seu faturamento oriundo de verbas públicas em um montante de quase R$ 11 bilhões. Desse total, R$ 370 milhões teriam sido lavados por meio de 18 "empresas" localizadas em endereços onde funcionam consultório de dentista, loja de gesso e onde existe um matagal na beira de estrada. Ou seja, segundo investigadores, contratos fictícios foram firmados com empresas de fachada.

Em julho de 2016, Cavendish foi beneficiado pela prisão domiciliar. O empresário teve o passaporte recolhido e ainda foi afastado da empresa por determinação da Justiça.

A defesa de Cavendish nega que ele tenha cometido os crimes que resultaram na Operação Saqueador. Ainda de acordo com seus advogados, o trabalho dele à frente da Delta Construções foi "responsável por uma economia milionária aos cofres públicos".

Wilson Carlos

Amigo próximo de Cabral desde os tempos de estudante, Wilson Carlos foi seu secretário de Governo. Recentemente, ele foi condenado a 34 anos de prisão por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e associação criminosa.

A condenação se originou de uma ação penal sobre propina de R$ 2,7 milhões da Andrade Gutierrez a Cabral sobre obras do Comperj, executadas pela Andrade Gutierrez ao preço de R$ 1,1 bilhão.

Cabral e Wilson Carlos teriam participado diretamente dos acertos dos valores e de como eles seriam pagos. Segundo a denúncia do Ministério Público Federal, Wilson Carlos era um dos controladores da "conta-corrente de propina de Cabral".

Por ocasião desta reportagem, o UOL entrou em contato com a defesa de Wilson Carlos, que ainda não se manifestou.

Adriana Ancelmo

Ancelmo é ex-primeira dama do Estado e também foi condenada a 18 anos e três meses de prisão por lavagem de dinheiro e associação criminosa. Nesta quinta, o Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2) decidiu que ela retornará para a cadeia. Desde de 31 março, Ancelmo cumpria prisão domiciliar em seu apartamento no Leblon, zona sul do Rio.

A compra de joias por Adriana e Cabral é apontada como uma das formas de lavagem de dinheiro. Segundo as investigações, ela tinha participação ativa no suposto esquema de propina. O escritório da advogada também seria usado para lavar o dinheiro recebido de empreiteiras.

Na sentença em que condenou Ancelmo e seu marido, o juiz Bretas apontou que a ex-primeira-dama do Rio era "mentora", ao lado do marido, dos crimes pelos quais eles foram acusados.

"A condenada Adriana Ancelmo era, ao lado de seu marido, mentora de esquemas ilícitos perscrutados nestes autos", escreveu Brêtas. "Adriana Ancelmo, companheira de Sérgio Cabral, integrou o núcleo financeiro-operacional da organização e atuou, essencialmente, na lavagem do dinheiro espúrio angariado pela organização, seja através da aquisição dissimulada de joias de alto valor, amplamente comprovada nos autos, seja através de seu escritório, Ancelmo Advogados, valendo-se clássica modalidade de celebração de contratos fictícios."

A advogada está presa desde o dia 6 de dezembro, quando Bretas decretou sua prisão preventiva. Inicialmente, ela ficou presa também no complexo de Gericinó em Bangu, zona oeste do Rio. Em 17 de março, Bretas determinou que ela fosse transferida para prisão domiciliar, aceitando os argumentos da defesa de que ela precisava retornar à própria casa para cuidar dos filhos, de 11 e 14 anos. A ex-primeira dama voltou para casa, sob gritos de "safada" e panelaço.

Ancelmo prestou depoimento ao juiz Sergio Moro em abril passado. Na ocasião, Cabral isentou a mulher de envolvimento nas supostas irregularidades, e Ancelmo negou os crimes.

Por ocasião desta reportagem, o UOL entrou em contato com a defesa de Adriana, que ainda não se manifestou.

Marco Antonio de Luca

Preso em junho pela Operação Ratatouille, o "empresário das quentinhas" é suspeito de pagar propina em troca de favorecimento na assinatura de contratos com o governo do Rio por meio das empresas Comercial Milano e Masan Serviços Especializados.

Segundo a Lava Jato, as companhias ligadas a De Luca --elas negam vínculo com o empresário-- têm R$ 7 bilhões em contratos para serviços como fornecimento de merendas a escolas e quentinhas para presídios.

Segundo o MPF, o empresário pagava uma mesada ao grupo de Cabral no valor de R$ 200 mil. Foram pagos R$ 12,5 milhões em propina para que De Luca obtivesse vantagens ilícitas, de acordo com os investigadores.

A Justiça autorizou o sequestro de bens do empresário em valor similar à época, entre obras de arte, veículos e joias. Ele foi indiciado por corrupção ativa, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Em agosto, a Justiça manteve a prisão preventiva do empresário. Dias antes, a defesa de De Luca solicitou que o caso fosse retirado das mãos do juiz Marcelo Bretas, uma vez que o empresário teria citado o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) como destinatário da propina, o que tornaria o caso de competência do STJ (Superior Tribunal de Justiça).

Por ocasião desta reportagem, o UOL entrou em contato com a defesa de De Luca, que ainda não se manifestou.

(Com Hanrrikson de Andrade, Marcela Lemos e Estadão Conteúdo)

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