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Posse de Bolsonaro tem banheiros escassos, falta d'água e desmaios

Falta de água causou aglomeração no ponto de distribuição durante a posse - Felipe Pereira/UOL
Falta de água causou aglomeração no ponto de distribuição durante a posse Imagem: Felipe Pereira/UOL

Felipe Pereira, Taís Vilela e Hanrrikson de Andrade

Do UOL, em Brasília

01/01/2019 23h28

O combinado na posse de Jair Bolsonaro era que não se levassem bebidas e que a organização forneceria água. O público fez sua parte. A organização, não.

No meio da tarde, as torneiras secaram nos postos espalhados pela Esplanada dos Ministérios. Até os copos plásticos acabaram. 

O GSI (Gabinete de Segurança Institucional) estima que ao menos 115 mil pessoas acompanharam a posse de Bolsonaro. 

"No momento em que o povo vai prestigiar o político que elegeu com seu voto é desrespeitado. Água é o mínimo", reclamou Sonia Maria Ramalho, 53, que viajou a Brasília em uma caravana de Londrina (PR).

Além da falha no fornecimento de água, não havia banheiros em número suficiente. Também não houve preocupação com cadeirantes --uma mulher contou à reportagem que precisou ser carregada. A infraestrutura precária resultou em vários desmaios.

Sonia Ramalho acrescentou que não havia guichês de atendimento prioritário para gestantes, idosos e pais com crianças pequenas para pegar água ou ir ao banheiro.

Quando os postos de distribuição de bebidas foram reabastecidos, houve aglomeração. Pessoas suadas e com sede cercaram o local sem formar fila e valeu a lei do mais forte por alguns minutos. 

"Focaram somente no presidente. Fizeram tudo para a segurança de Bolsonaro e esqueceram de providenciar o mínimo para o povo", afirmou a integrante da caravana.

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Nádia Vieira Soares, 45, moradora de Poté (MG) acompanhou a posse ao lado de Sonia e estava descontente com a situação dos banheiros. Protestou que o mau cheiro era percebido a metros de distância. Thalia Kieslla, 19, e moradora de São Luis (MA), desistiu de ir ao banheiro e tomar água por causa da situação.

"O banheiro estava nojento, a fila era muito demorada. Coisa de meia hora. Também queria água, mas, se tomasse água, não conseguiria me segurar, seria obrigada a ir ao banheiro", afirmou.

Emily Cristina Santos, 27, estava na mesma caravana que Thalia e foi direta sobre como lidou com a falta de infraestrutura. "Passei o dia segurando o xixi. Já são 18h, estou indo embora e não fui ao banheiro desde que cheguei aqui."

Falta de acessibilidade obrigou cadeirante a ser carregada - Felipe Pereira/UOL
Falta de acessibilidade obrigou cadeirante a ser carregada
Imagem: Felipe Pereira/UOL

Cadeirante precisou ser carregada

Ana Lúcia Moraes, 48, foi preparada para sofrer. Cadeirante, disse que tinha certeza de que passaria por momentos vexatórios durante a posse. Contou ter acertado na previsão.

"Chegar [à frente do Congresso] foi difícil. Precisei vir pelo gramado porque era proibido ir por outro lugar. Quando tinha calçada, o desnível era alto. Precisava ficar no colo de alguém para colocarem minha cadeira [elétrica e pesada] sobre o piso."

A servidora pública também ficou chateada porque não reservaram nenhum espaço para portadores de deficiência assistirem à passagem do presidente em carro aberto. Como é paraplégica, ficou em um nível abaixo de outras pessoas que se enfiaram na frente dela e não viu nada.

"Já estou acostumada com estas coisas e a ser carregada. Mas é sempre péssimo. Ninguém gosta."

Mulher passa mal durante cerimônia de posse de Bolsonaro - Hanrrikson de Andrade/UOL
Mulher passa mal durante cerimônia de posse de Bolsonaro
Imagem: Hanrrikson de Andrade/UOL

"Era melhor ter visto na televisão"

Por um lado, o esquema de segurança da posse de Jair Bolsonaro (PSL) garantiu a integridade do presidente e a blindagem de autoridades e chefes de Estado. Mas também levou à exaustão o público que compareceu à praça dos Três Poderes nesta terça-feira (1º), em Brasília.

O esgotamento era visível sobretudo ao fim da solenidade, quando uma multidão se retirou ao mesmo tempo e teve que caminhar sob sol escaldante em um espaço delimitado por grades e cordões de isolamento. A cada cem metros, era comum ver pessoas, sobretudo mulheres e idosos, passando mal ou até mesmo desmaiando.

A falta de condições adequadas de alimentação e hidratação contribuiu para que os postos de socorro do Corpo de Bombeiros ficassem cheios.

Chão com pedras soltas na praça dos Três Poderes - Hanrrikson de Andrade/UOL
Chão com pedras soltas na praça dos Três Poderes
Imagem: Hanrrikson de Andrade/UOL

Responsável por organizar a festa, o GSI impôs regras rígidas ao público e vetou o ingresso com bolsas, mochilas, garrafas e outros itens. Dessa forma, muitas pessoas acabaram não levando suprimentos necessários para encarar a maratona da posse.

Além disso, houve casos de pessoas que não conseguiram passar pela revista com frutas, ainda que acondicionadas em sacos plásticos transparentes, como determinou o GSI.

O argumento era que elas poderiam virar armas na mão de possíveis manifestantes e serem lançadas em direção ao Planalto. Os organizadores não notaram, no entanto, que havia várias pedras portuguesas soltas pelo chão da praça dos Três Poderes.

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"A gente comprou sanduíche e biscoito, mas chegamos aqui muito cedo [por volta das 9h] e ficamos várias horas no sol. Acho que tinha que ter trazido mais comida, mas ficaria complicado porque não pode entrar de mochila", afirmou Renata Barbosa, 27, que precisou levar a amiga para atendimento. Ela havia se sentido mal pouco depois do primeiro pronunciamento de Bolsonaro.

"Se a próxima posse for assim, e espero que seja o Bolsonaro de novo, eu não venho. O evento já acabou, eles podiam ter retirado as grades para melhorar o fluxo. Isso que aconteceu aqui é até perigoso para essas pessoas", reclamou Marcelo Fernandes, que caminhou com a multidão no final da solenidade. "Era melhor ter visto na televisão", completou.

O trecho mais sofrível para os espectadores da posse se deu entre a praça dos Três Poderes e o Palácio do Itamaraty. Os apoiadores de Bolsonaro subiram em marcha lenta a ladeira que margeia o Congresso Nacional, e o sol era forte mesmo às 18h30. Durante o trajeto, a reportagem observou pelo menos dois casos de mulheres que passaram mal.

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