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Segurança dá "ordem" à imprensa para que não fotografe Bolsonaro no GSI

3.jan.2018 - Jornalistas setoristas do Palácio do Planalto ficam em mezanino à espera de Jair Bolsonaro, que fez visita ao GSI - Gustavo Maia/UOL
3.jan.2018 - Jornalistas setoristas do Palácio do Planalto ficam em mezanino à espera de Jair Bolsonaro, que fez visita ao GSI Imagem: Gustavo Maia/UOL

Gustavo Maia

Do UOL, em Brasília

03/01/2019 15h54Atualizada em 03/01/2019 17h12

Jornalistas que foram cobrir uma visita do presidente Jair Bolsonaro (PSL) a um órgão do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), em Brasília, foram impedidos de segurar os próprios celulares e registrar o momento em que ele entrou no prédio, na tarde desta quinta-feira (3).

Bolsonaro chegou à Secretaria de Segurança e Coordenação Presidencial do GSI por volta das 15h10, acompanhado do ministro da pasta, general Augusto Heleno. Mais de de meia hora antes, fotógrafos e cinegrafistas foram posicionados em um "cercadinho" ao lado da porta de entrada do prédio, e repórteres, levados ao mezanino, de onde podiam observar de cima o presidente.

No local, seguranças subordinados ao GSI determinaram que os jornalistas não fizessem nenhuma foto ou vídeo do presidente. Inicialmente, alegaram motivos de segurança. Quando a reportagem do UOL insistiu no questionamento sobre a medida, foi informada por um deles que o problema era "o ângulo". Em seguida, disse se tratar de "uma ordem do major", negando-se a informar o nome do oficial.

Na hora da chegada de Bolsonaro ao prédio, todos os jornalistas que estavam no mezanino foram orientados a ficar "com as mãos livres, sem copos, sem celular".

Uma repórter que bebia água em um copo plástico foi repreendida por um agente.

General nega "excessos"

Durante a entrevista, Heleno disse que a medida seguiu um "protocolo de procedimento", que segundo jornalistas que cobriram governos anteriores nunca foram seguidos diante de presidentes. Ele afirmou ainda que "no mundo inteiro é assim".

"Já imaginou se o celular cai da sua mão e cai na cabeça do presidente? Eu vou dizer para ele o quê?", sugeriu o ministro, que negou qualquer excesso na segurança. "Ou se tem segurança ou não tem segurança", declarou.

Ao ser lembrado de que os jornalistas foram credenciados para estar no local, ele perguntou se uma repórter já havia visto a demonstração de segurança nos aviões.

"Ninguém vê [...] eu não assisto àquilo de jeito nenhum, acho chatíssimo. Mas é protocolo. No dia que faltar pressurização eu vou ter que me lembrar, tem que pegar a máscara, só bota do lado se a sua funcionar", comentou.

Em um momento mais descontraído da entrevista coletiva, chamado de "guru" do governo Bolsonaro pelo ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, nesta quarta-feira (2), Heleno refutou o título e brincou com o caso do médium João Teixeira de Faria, 76, conhecido como João de Deus, que está preso desde o mês passado.

"Apague esse negócio de guru. O último guru já foi até em cana, o João de Deus", disse o ministro, provocando risadas entre os presentes.

Os membros da imprensa que participam da cobertura da Presidência da República têm que se submeter a um credenciamento da Secom (Secretaria de Comunicação) do Palácio do Planalto.

Durante a visita, que constava na agenda oficial do presidente, ele não falou com os repórteres.

As restrições ao trabalho dos jornalistas motivaram críticas ao longo do dia da posse de Bolsonaro, na terça-feira (1º).

Ao contrário do que ocorreu em outras posses, o acesso dos jornalistas aos locais por onde o presidente passou foi terceirizado --todos os profissionais tiveram que ir primeiro ao CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), onde entraram em ônibus que os levaram aos locais onde ocorrem os eventos.

O cerimonial orientou que os jornalistas trouxessem comida acondicionada em sacos plásticos transparentes, já que dentro do Congresso as lanchonetes e restaurantes não funcionaram, e, do lado de fora, a presença de vendedores ambulantes foi proibida. Havia pouca água e banheiros disponíveis para a imprensa tanto dentro quanto fora do Congresso.

Alguns profissionais tiveram itens de alimentação barrados. No CCBB, um repórter foi impedido prosseguir com uma maçã que levava na mochila --os seguranças justificaram que só poderia seguir com a fruta se ela estivesse fatiada. Um outro profissional teve um garfo confiscado.

As restrições motivaram críticas de entidades como a ABI (Associação Brasileira e Imprensa) e Abraji.

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