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"Golden shower": vídeo agitou militância ou fez Bolsonaro perder apoio?

AFP
Imagem: AFP

Ana Carla Bermúdez*

Do UOL, em São Paulo

08/03/2019 04h00

"O que é golden shower?". A pergunta, feita nesta quarta-feira (6) por Jair Bolsonaro (PSL) em sua conta no Twitter, manteve em alta uma polêmica iniciada pelo próprio presidente no dia anterior --quando ele publicou um vídeo em que um homem urina no outro, associando a prática ao Carnaval.

Críticos e apoiadores do presidente se mobilizaram nas redes sociais. No Google, as buscas por "golden shower", termo em inglês que se refere à prática do vídeo, cresceram 4.000%, considerando o espaço de tempo de uma semana. 

Mas a repercussão da publicação pode gerar impacto na agenda e nos interesses do governo? Há um propósito político na divulgação de um vídeo como esse pelo presidente da República?

"A primeira coisa [a que pode servir o vídeo] é para dar audiência", diz Sylvia Iasulaitis, professora da Ufscar (Universidade Federal de São Carlos) e pesquisadora das relações entre política, internet e novas mídias sociais.

Segundo ela, com a publicação, Bolsonaro procurou continuar dialogando com seu eleitorado, mantendo em pauta um assunto que corrobora um ponto de vista ideológico defendido por ele.

"[Bolsonaro pôde] mostrar para esse eleitorado que ele vem se empenhando em cumprir com os aspectos de conteúdo moral e conservador que já foram apontados na campanha", afirma.

Popularidade x apoio político

"Você vê que, desde então, só se fala nisso", destaca Maria do Socorro Braga, professora do departamento de ciências sociais da Ufscar.

Ela não descarta que a ação possa estar relacionada com uma tentativa de "tirar da frente" outras questões em que o governo pode atuar, como a reforma da Previdência e outras mudanças que podem ser vistas como "impopulares".

Braga concorda que, como aspecto positivo, o episódio aumenta a popularidade de Bolsonaro entre parte do eleitorado. "Mas, para o restante, que não o elegeu, cai muito mal". A repercussão negativa, ela analisa, "vai afetar a classe política também".

Quanto mais negativo o reflexo de uma declaração do presidente, menor vai ser a adesão da classe política aos projetos que ele apoia

Maria do Socorro Braga, professora da Ufscar

Ação planejada

Para a professora Iasulaitis, Bolsonaro fez uso de uma tática comum, que vem sendo utilizada no mundo todo. Ao selecionar aspectos "específicos" da realidade para "generalizá-los", explica, o presidente seguiu a cartilha da prática conhecida como "exemplar saliente".

A ação, ela analisa, foi proposital: "Tanto foi uma estratégia planejada que foi justamente depois que o presidente recebeu críticas [no Carnaval] que ocorreu a postagem".

Ao longo dos quatro dias de folia, Bolsonaro foi alvo de protestos em blocos de Carnaval espalhados por todo o país. Em São Paulo, por exemplo, marchinhas associaram o nome do presidente à milícia. Em Olinda, bonecos gigantes representando Bolsonaro e a primeira-dama Michelle Bolsonaro foram hostilizados.

"Acho que ele quis atingir os cidadãos que se manifestaram contra ele no Carnaval. Ele quis mostrar que o Carnaval é uma baderna, algo que deve ser combatido porque não é saudável, é pornográfico", diz Vera Chaia, professora do departamento de política da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

"Só que ele esqueceu que, na verdade, foi uma demonstração única, não pode generalizar. Isso pegou mal", completa.

* Colaborou Bernardo Barbosa, em São Paulo

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