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Pai de Weintraub foi perseguido na ditadura e abordou descriminalizar droga

Abraham Weintraub, ministro da Educação - Adriano Machado/Reuters
Abraham Weintraub, ministro da Educação Imagem: Adriano Machado/Reuters

Vinicius Konchinski

Colaboração para o UOL, em Curitiba

10/04/2019 13h04

O novo ministro da Educação, Abraham Weintraub, considera que seu pai, o psiquiatra Mauro Weintraub, foi perseguido pela ditadura militar instalada no Brasil após o golpe de 1964. O novo ministro escreveu sobre o assunto em 2014, em email enviado a grupo de alunos e professores da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), na qual ele é professor.

"Nosso pai médico foi professor da USP durante o regime militar. Ele nunca foi militante, porém, após 'sumirem' alguns de seus alunos, fez comentários depreciativos à ditadura", relatou na mensagem. "Na semana seguinte havia um jipe da Aeronáutica em frente à nossa casa procurando-o. Nosso pai teve que se esconder por um bom tempo na casa de um amigo com imunidade diplomática. Vários livros em casa sumiram e eu cresci com medo em comentar aspectos negativos dos 'donos' do poder."

A mensagem é uma resposta a uma acusação de nepotismo enviada no grupo de email da universidade em outubro de 2014.

Remetida por "Marina Unifesp", a mensagem original chamava atenção para o fato do atual ministro, e também seu irmão Arthur Weintraub e sua mulher, Daniela, trabalharem na mesma faculdade. A mensagem falava em fraude em concurso.

O Ministério da Educação foi procurado ontem e hoje, por email e telefone, pela reportagem do UOL. Ainda não respondeu. Abraham Weintraub já havia negado qualquer irregularidade. Disse ter sido aprovado no concurso pois "outros candidatos não apareceram no dia". Segue atualmente, como seus familiares, ligado à Unifesp.

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"Contrarrevolução" de 1964

O atual ministro trabalha agora para o governo que celebrou o golpe militar de 1964. No último dia 31, o Palácio do Planalto distribuiu um vídeo no qual um ator afirma que o Exército "salvou" o país.

O antecessor de Weintraub, Ricardo Vélez, declarou, antes de ser demitido, em uma entrevista ao jornal Valor Econômico, que o governo alteraria os livros didáticos pois o golpe militar não existiu e o Brasil não viveu uma ditadura após 1964. "A História brasileira mostra que o 31 de março de 1964 foi uma decisão soberana da sociedade brasileira", disse ele.

Em entrevista publicada no jornal "O Estado de S.Paulo", o novo ministro chamou o golpe de "contrarrevolução". "Evidentemente que houve ruptura em 1964. Mas essa ruptura foi dentro de regras. Houve excessos? Houve. Pessoas que morreram? Sim. É errado? É e infelizmente ocorreu. Mas num dia de protesto na Venezuela morreu mais gente do que em todo o período de regime."

Pai escreveu sobre descriminalização da maconha

O pai de Abraham Weintraub, além de professor da USP e psiquiatra, escreveu um livro sobre maconha: "Sonhos e Sombras: a Realidade da Maconha". O livro foi lançado em 1983, pela editora Harper Now.

A publicação é citada em diversos artigos científicos sobre drogas. Em um deles, Antônio Augusto Machado de Campos Neto, ex-aluno e ex-funcionário da Faculdade de Direito da USP, diz que Mauro Weintraub trata da maconha com propriedade em sua obra.

Em trecho citado por Campos Neto em seu artigo, publicado em 2005 na Revista da Faculdade de Direito da USP, Weintraub pai fala até na descriminalização da droga. Diz ainda que "está cada vez mais difícil defender a posição de que a maconha e crimes são indissoluvelmente ligados", mas discorda de propostas de legalização da maconha.

"Se a ligação entre uma coisa e outra [maconha e crime] não desapareceu por completo do pensamento das pessoas, ao menos se tornou mais distante, possibilitando, inclusive, o surgimento de movimentos em prol da descriminalização da maconha, acompanhando o que acontece em muitos países em que a droga se tornou endêmica entre a juventude", escreveu Mauro.

"É uma posição bem progressista, principalmente quando é considerado o contexto da época. Ele falou sobre descriminalização nos anos 80", disse Rodrigo Mesquita, advogado, membro da Rede Jurídica pela Reforma da Política de Drogas, sobre a obra de Mauro Weintraub.

Mesquita também comentou a polêmica frase do ministro Weintraub ao O Estado de S.Paulo, em agosto de 2018: "O crack foi introduzido no Brasil de caso pensado. Vejam os arquivos, está na internet!", disse o hoje chefe do MEC (Ministério da Educação).

"Eu vejo esta declaração com perplexidade porque essa afirmação não encontra suporte em nada da literatura sobre o tema, que é vasta no Brasil", comentou Mesquita.

Irmãos tentaram interditar o pai

O ministro Weintraub e seu irmão Arthur ainda tentaram interditar o pai, Mauro. Um processo aberto em 2011, na Justiça de São Paulo, trata do assunto. A interdição é uma medida judicial na qual uma pessoa é declarada incapaz de exercer certos atos como zelar por sua saúde ou finanças.

Em 2014, o pedido dos irmãos Weintraub foi julgado pelo juiz Rui Porto Dias, da 3ª Vara da Família e Sucessões. Ele negou a interdição alegando que não havia elementos suficientes para declarar o Mauro Weintraub incapaz. "Os requerentes não lograram êxito quanto à comprovação da incapacidade de seu pai para os atos da vida civil e nem apresentaram qualquer evidência da patologia que alegaram acometê-lo", sentenciou o juiz.

Abraham e Arthur recorreram. O Tribunal de Justiça negou a apelação em março de 2016.

Mauro Weintraub foi contatado por telefone duas vezes ontem e uma vez hoje para comentar seu livro, sua relação com a ditadura e seu pedido de interdição. Não quis conceder entrevista ao UOL.

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