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Governo Bolsonaro começou mal e envelheceu rapidamente, diz Renan

Eduardo Militão/UOL
Planalto "não faz nada, segundo o próprio presidente", critica senador Imagem: Eduardo Militão/UOL

Eduardo Militão

Do UOL, em Brasília

2019-05-22T14:09:21

2019-05-22T15:51:32

22/05/2019 14h09Atualizada em 22/05/2019 15h51

Resumo da notícia

  • Senador afirma estar preocupado com crises, segundo ele, criadas pelo governo
  • Para Renan, alternativas ao impeachment diminuem e Planalto segue imobilizado
  • O senador fala ainda sobre o pacote de Moro e sobre a atuação da Lava Jato

O senador Renan Calheiros (MDB-AL) está contente e preocupado. De sua parte, se livrou do 13º processo judicial a que responde desde que explodiu o caso Mônica Veloso e a Operação Lava Jato. Ainda faltam 12 procedimentos criminais e cíveis, que ele acredita que serão todos arquivados por falta de provas. De outro lado, está preocupado com instabilidade política e prejuízos à economia e ao emprego que marcam a gestão de Jair Bolsonaro (PSL)

"O governo começou mal, envelheceu rapidamente", disse Renan ao UOL, em seu gabinete, no final da tarde de terça-feira (21), antes de ir ao plenário. "E não faz nada, segundo a carta postada pelo próprio presidente."

O senador fala pausadamente, como que medindo as palavras, com uma caneta de marca "Bic" na mão, a exemplo de Bolsonaro, e rascunhando uma folha de papel sobre o braço de uma sofá negro. Renan foi líder do governo de Fernando Collor (ex-PRN, 1990-1992), que caiu após impeachment e crise na relação com o Congresso. "O que preocupa é exatamente isso", completa o senador.

Para Renan, as frases do presidente de extrema-direita que chamam estudantes de "idiotas" e a classe política de "o principal" problema do país têm uma causa. Seria a "necessidade de gerar crises todos os dias, tornando desnecessário o próprio papel da oposição". E, em sua visão, esse "avassalador desgaste" do governo deve atrapalhar a aprovação da reforma da Previdência.

Veja os principais trechos da entrevista:

UOL - Como avalia os cinco meses de governo de Jair Bolsonaro?
Renan Calheiros - "Tenho muita preocupação com o desdobramento das tensões. O governo recorrentemente chama de volta esse debate. Cria crises, divide a sociedade. O governo começou mal, envelheceu rapidamente. E não faz nada, né?, segundo a própria carta postada pelo presidente.

Qual o destino de um governo desses?
Isso preocupa sobremaneira esse ato convocado por aliados, com apoio do governo, emparelhando as instituições. É preocupante do ponto de vista democrático. É um valor que precisa ser defendido. [Depois da entrevista, Renan foi ao plenário do Senado e criticou os protestos dizendo que "não existem, no mundo, manifestações a favor de governos". Afirmou ainda que o líder da oposição na Venezuela, Juan Guaidó, "fracassou", assim como o presidente do país vizinho, Nicolás Maduro.]

Essa preocupação é com o quê?
É preocupação com agravamento, com radicalização, dificuldades para a democracia.

Eduardo Militão/UOL
Imagem: Eduardo Militão/UOL
O senhor foi líder do governo de Fernando Collor, que caiu com impeachment. O senhor antevê um impeachment?
O que preocupa é exatamente isso. As alternativas diminuem. E o governo não consegue andar, diminuir a paralisia, retomar a geração de emprego. Isso é muito difícil. Caminha para uma depressão. A gente vê nesta semana a 12ª redução da projeção do Produto Interno Bruto (PIB). Desemprego superlativo.

Qual a melhor solução para isso?
Seria recompor o papel dos Poderes, conversar à exaustão, prática a que o presidente não parece afeito. Eu vou falar algumas coisas nesse contexto no horário da liderança [para fazer discursos no plenário]. [Depois da entrevista, Renan subiu à tribuna e afirmou que "o presidente, num cacoete golpista, culpou a política como sendo o 'grande problema do Brasil'. Também disse que Bolsonaro deveria fazer "um apelo para moderação, equilíbrio e diálogo"]

Como o senhor tem visto os cortes no orçamento da educação?
O componente ideológico dos cortes acirra a paralisia e dificulta o cumprimento de seus relevantes papeis pela universidade. Achei que a resposta foi uma resposta expressiva das ruas, da juventude, dos professores.

O presidente chamou os estudantes de "idiotas" e disse que a classe política era "o principal" problema do país.
Isso foi consequência da necessidade de gerar crises todos os dias, tornando meio que desnecessário o próprio papel da oposição.

O senhor acha que, de caso pensado, o presidente acha uma "necessidade" criar crises todos os dias? Ou é uma ironia?
Não... Acho que essa demonstração diária que faz o seu governo se colocar aquém da nação.

O pacote anticrime do ministro da Justiça, Sergio Moro, e a reforma da Previdência vão ser aprovados?
O Brasil foi o país que mais fez leis para combate aos crimes, inclusive corrupção. Entendo que tudo o que puder ser feito na contribuição para a continuidade desse processo devemos estimular, salvo se suplantar garantias individuais e coletivas.

O senhor está falando da chamada "licença" para policial matar do pacote?
É. E que parece ser o caso de muitos itens do pacote do Moro.

Eduardo Militão/UOL
Imagem: Eduardo Militão/UOL

E a Previdência passa?
[Risos] Estamos aguardando que chegue no Senado. A cada dia sou mais descrente no resultado favorável desta reforma pelo avassalador desgaste a que o governo tem se submetido.

Vai ter pouca gente então defendendo a reforma da Previdência no protesto do dia 26?
Não. Tem que ter muita gente defendendo. Eu defendo que a reforma da Previdência se faça, sim, mas jamais contra os trabalhadores, os mais pobres.

O senhor respondia a 25 procedimentos criminais e cíveis. Já foram arquivados 13. Como o senhor vê isso, passados cinco anos da Operação Lava Jato e do caso Mônica Veloso, que começou em 2007?
Havia um objetivo, que era a criminalização da política. Circunstancialmente, eu exercia a Presidência do Senado. Passei a ser um alvo dessas pessoas que depois se expuseram na utilização do Ministério Público Federal politicamente. É o caso do [ex-procurador-geral da República Rodrigo] Janot, do [coordenador da força-tarefa da Lava Jato no Paraná] Deltan Dallagnol, do [ex-procurador da Lava Jato que se tornou alvo da própria operação por ter saído da equipe e passado a advogar para delatores] Marcelo Miller. Em muitos casos, agiram corretamente. Em outros, politicamente. Então, prenderam para investigar, condenaram sem provas, vazaram informações.

Para prender e condenar, só juiz. Quem são os juízes que prenderam e condenaram sem provas?
Não, mas eles que pediram. Os juízes concederam. Outros não. Fizeram parâmetros. Não há um fato para ser investigado contra mim com materialidade, com prova. Eu fui investigado até porque defendi a Constituinte. Então, o Supremo Tribunal Federal já arquivou 13 dessas investigações, repetidas, desdobradas. Todas serão arquivadas pelo mesmo motivo: falta de provas, materialidade. Muitos delatores citaram meu nome porque eu era presidente do Congresso e sequer me conheciam.

Por exemplo?
Disseram fatos que podiam me envolver. "O mercado falava", "soube-se", "interpretei", "quando eu via Fulano, estava a presença intrínseca do Renan". Os casos são esses.

O ex-senador Wellington Salgado diz que o MDB fazia coisas ilegais mas socialmente aceitas. Cabe alguma autocrítica à classe política após a Lava Jato?
As pessoas se submeteram a um processo investigatório de condutas. Alguns podiam ser investigados. Outros não.

O senhor diz que Janot, Deltan e Miller "agiram corretamente" em alguns casos. Que casos são esses?
Não quero citar.

Então cabe uma autocrítica à classe política? Foi só perseguição? Ou teve alguma coisa que realmente precisava ser ajustada?
Acho que... [assessora de imprensa lembra que há alguns políticos do MDB presos hoje] Não quero tratar disso porque... Falei por ocasião da prisão do Michel [Temer, ex-presidente da República]. Foi uma coisa intempestiva [feita no tempo incorreto].

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Imagem: Eduardo Militão/UOL
Entendo. Durante todo esse processo que o senhor cita como perseguição à classe política, há alguma coisa que realmente precisava ser corrigida?
O Brasil tinha problemas com financiamento de campanhas eleitorais. Precisava ser regulamentado e não se fez. A crise foi consequência disso. Da mesma forma, não fez uma reforma política profunda, com condições de garantir igualdade de oportunidades. Os temas são debatidos. Mudanças no sistema político-eleitoral... E deu no que deu.

No frigir dos ovos, o país vai sair melhor depois de tudo isso?
Eu sou otimista. Acho que a evolução dos tempos exige a necessidade de depurações, que devem se fazer generalizadamente. Ninguém pode se colocar acima da lei. Eu mesmo, durante esse processo persecutório, me obriguei a fazer prova negativa [prova de que a pessoa é inocente] de tudo, que é a mais difícil das provas. Mas eu passei 13 anos com minhas contas abertas, meus sigilos suspensos.

Em 2007, o senhor entregou documentos ao Ministério Público e isso lhe gerou uma condenação, depois o senhor foi absolvido em segunda instância.
Eu faria o mesmo. A representação é transparência. Você não deve pretender representar ninguém se você não confere transparência ao que você faz, confere luz ao que você faz. De 2007, investigaram cinco anos antes. Abriam minhas contas, e aí constaram que não tem um centavo nas minhas contas.

O senhor pretender ser presidente do Senado de novo?
Não. Já fui quatro vezes presidente do Senado. Não cogito isso. Já dei a minha contribuição. Quero agora, na planície do plenário, colaborar com o aperfeiçoamento democrático, defesa das instituições, remodelação do país.

O presidente Bolsonaro chega até o fim do mandato?
O Brasil é acidentado institucionalmente e esses cinco meses agravam qualquer exercício, qualquer projeção. Ninguém sabe o que vai ou não acontecer. Eu gosto da normalidade, da institucionalidade, do crescimento da economia, da geração de emprego. Permanentemente, precisamos brigar contra essa paralisia que dificulta vida de todos.

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