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Permanência do PSL no governo Witzel reflete desgaste de Flávio Bolsonaro

Flávio Bolsonaro (PSL) e Wilson Witzel (PSC) em evento de campanha eleitoral em 2018 - Reprodução
Flávio Bolsonaro (PSL) e Wilson Witzel (PSC) em evento de campanha eleitoral em 2018 Imagem: Reprodução

Pauline Almeida

Colaboração para o UOL, no Rio

25/09/2019 04h00

Uma semana após o anúncio da saída do PSL da base de apoio do governo Wilson Witzel (PSC) nada mudou. O desembarque não aconteceu —os dois secretários do partido, a deputada federal Major Fabiana, da Secretaria de Vitimização e Amparo à Pessoa com Deficiência, e Leonardo Rodrigues, da Secretaria de Ciência e Tecnologia, permanecem em seus cargos. O vice-líder do governo na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), Alexandre Knoploch (PSL), foi o único até agora a anunciar que deixaria a posição, porém, ainda não entregou uma carta oficial de desligamento.

A permanência de integrantes do PSL em cargos do primeiro escalão do governo Witzel revela que, ao menos até agora, o senador Flávio Bolsonaro, presidente estadual do PSL e filho do presidente Jair Bolsonaro, não foi atendido por seus comandados. A um ano das eleições municipais, o cenário revela desgaste de Flávio, que foi alvo de investigação por suspeita da prática de "rachadinha" em seu gabinete quando era deputado estadual no Rio --o inquérito foi suspenso temporariamente por determinação do presidente do STF, Dias Toffoli.

Flávio retornou ontem da China e vai se reunir com o líder da bancada na Alerj, Dr. Serginho, com a promessa de divulgação de uma nota oficial após o encontro. O deputado nega desobediência dos pesselistas e diz que aguarda diretrizes de Flávio.

"A Secretaria de Ciência e Tecnologia não é do PSL, é um convite pessoal ao Leo Rodrigues, portanto, é uma decisão do Leo sair ou não. A Major Fabiana, não se faz uma transição de uma secretaria em simplesmente uma semana, é importante a chegada do Flávio", argumentou Dr. Serginho ao UOL. Rodrigues é o segundo suplente de Flávio no Senado.

Na última segunda-feira (23), a secretária de Vitimização, Major Fabiana, estava ao lado de Witzel, juntamente com o deputado federal Felipe Francischini (PSL), durante coletiva de imprensa sobre a morte de Ághata Félix, morta aos 8 anos, vítima de bala perdida durante ação policial no Complexo do Alemão, na zona norte carioca.

A desobediência gerou alfinetadas via redes sociais da deputada estadual Alana Passos (PSL), bastante próxima de Jair Bolsonaro. "Não sou homem, mais [sic] estou de saco cheio de marmanjos infantis. Ordens são para ser executadas e não discutidas. Quem não gostou é só pegar a ficha e se desfiliar do partido", publicou no Twitter na última quinta-feira (19).

No dia seguinte, ela ainda mandou um recado para o deputado federal Daniel Silveira, vice-líder do PSL na Câmara, que questionou a decisão de Flávio em determinar a saída da legenda da base de apoio de Wilson Witzel, de quem é apoiador desde a campanha eleitoral. Os dois e o deputado estadual Rodrigo Amorim (PSL) estavam juntos no episódio em que foi quebrada a placa em homenagem à vereadora Marielle Franco (PSOL), assassinada em março de 2018.

"No que depender de mim, na condição de secretária geral do PSL-RJ, já mudaria logo a executiva de Petrópolis [cidade de Daniel Silveira]. Daniel, embora tenha sido militar, não aprendeu que não se questiona um líder em público", também postou Alana.

Líder de Witzel aponta efeitos nas eleições de 2020

O líder do governo na Alerj, Márcio Pacheco (PSC), disse não ver mudança "brusca" na postura dos deputados do PSL no Legislativo fluminense. Ele preferiu não polemizar sobre uma possível fragilidade de Flávio, mas colocou que entende a resistência de alguns nomes da bancada em permanecer na base de Witzel, já que a decisão traz efeitos inclusive para as próximas eleições municipais.

PSL e PSC convergem no perfil de eleitores conservadores e alianças poderiam ser firmadas, contando com o apoio de Witzel e, consequentemente, da máquina pública.

"O senador Flávio Bolsonaro é uma grande liderança nacional. Ocorre que nós estamos falando de uma bancada heterogênea. Dentro de uma bancada de 12, alguns têm a pauta da segurança pública entranhada, outros deputados dependem da base política territorial. Uma determinação partidária de cima para baixo precisa levar em conta que muitos têm voto de opinião que precisam respeitar uma base eleitoral e que precisam inclusive de um diálogo com o governo", afirmou.

Vários dos integrantes da bancada do PSL são pré-candidatos a prefeito, como Dr. Serginho, em Cabo Frio; Rodrigo Amorim, no Rio; e Filippe Poubel, em São Gonçalo. Flávio ganhou do pai a missão de organizar as candidaturas municipais para as eleições de 2020.

O líder do PSL na Alerj, Dr. Serginho, nega que o partido possa ir atrás dos mandatos de quem se recusar a acatar o desembarque. Porém, nota assinada por Flávio na última terça-feira (17), deixa essa possibilidade nas entrelinhas.

"Aqueles que quiserem permanecer devem pedir desfiliação partidária. Nossa oposição não será ao Estado do Rio, mas ao projeto político escolhido pelo governador Wilson Witzel", diz o comunicado.

Segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), ao se desfiliar, um político pode ter o mandato requisitado pelo partido. Ele só mantém o mandato e pode trocar de legenda em caso de expulsão.

A reportagem do UOL tentou contato com o senador Flávio Bolsonaro, mas sua assessoria afirmou que ele está com a agenda cheia e não poderia atender.

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