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Ciro Gomes diz que Lula "devia dar um tempo" e que Huck é "estagiário"

Ciro Gomes registra seu voto na Secretaria de Saúde do Estado do Ceará, em Fortaleza - Thiago Gadelha/AFP
Ciro Gomes registra seu voto na Secretaria de Saúde do Estado do Ceará, em Fortaleza Imagem: Thiago Gadelha/AFP

Do UOL, em São Paulo

14/11/2019 09h41

Ciro Gomes falou sobre o momento político do Brasil em entrevista ao jornal El País e afirmou que está "preocupado como nunca estive na minha longa vida pública". O político afirmou que se vê como candidato à presidência novamente em 2022 e não poupou críticas à direita e à esquerda. Entre elas, detonou o "lulopetismo", Jair Bolsonaro e o bolsonarismo, afirmou que o ex-presidente Lula, agora solto, "deveria dar um tempo" e afirmou que Luciano Huck no Planalto seria como ter um "estagiário" comandando o país.

Ciro disse que "vê as coisas com a complexidade que elas têm" e que por isso a soltura do ex-presidente é um tema complexo. O ex-ministro afirmou que Lula é um velho amigo de 35 anos, mas que seu "apreço político sumiu".

"Ele solto, devia dar um tempo. Para mim, existem, neste momento, duas grandes questões. Uma é a luta contra fascismo, pela preservação do Estado de Direito e o avanço bolsonarista. Nesse sentido, a unidade das forças progressistas se unem na luta. Não tem nada que ter reunião. Cada um vai com seu rosto. No enfrentamento da Previdência, trabalhamos junto com o PT", afirmou ele, ao El País.

"Há uma tensão dentro do PT. Na medida em que Lula sai da cadeia, essa tensão fica um pouco mais clara. Lula é o dono do partido, é o caudilho. Agora solto, as pessoas cobram o custo dessas contradições. Já existe muita gente começando a pensar muito mais alto. E espero que essas pessoas façam um debate mais aberto", adicionou.

O que mais corrompe o Lula é a bajulação, falta absoluta de 'semancol', de qualquer aconselhamento ou reparo de sua circunstância, está cercado de bajuladores"

Para ele, uma das grandes questões é a polarização. Ciro questiona se existiria Bolsonaro sem o lulopetismo. "A gente não pode ser contra o Bolsonaro sem entender as causas, porque o Bolsonaro é descartável."

Petista = "bolsominion"?

Ciro é questionado se as críticas a Lula e ao petismo não atingem parte de seus eleitores em potencial, e cita que há radicalismo dos dois lados.

"Esse é um risco que tem de se correr, pois as coisas têm que ter nome. Eu não tenho nada contra o eleitor médio, militante do PT. Pouco importa que eu relativize, racionalize, o petista fanático não é racional. Ele é um bolsominion, de sinal trocado. Igualzinho, rigorosamente. Para eles, Lula pode andar pelado, bater na mãe, que eles defendem", criticou.

"Que importa que eu tenha sido aliado por 21 anos, e Lula chorando dizer que fui o amigo mais leal a ele, no escândalo do mensalão. (...) Mas eles não vão me empurrar para a direita", adicionou Ciro Gomes.

Huck estagiário, Maia e Eduardo Bolsonaro

Questionado se já conversou com Luciano Huck e se abordou a possibilidade de o apresentador da Rede Globo ser candidato à presidência da República, Ciro respondeu:

Não, eu sou contra estagiário na Presidência da República, não interessa se pela direita ou esquerda".

E acrescentou: "Presidência da República é para profissional treinado. Quando você lê pesquisas Huck sai com 12 pontos como eu, e isso para mim é uma vitória extraordinária. Apesar de tudo, o povo não conhece política. Huck é 100% preferido por 12% e rejeitado por 70%."

Sobre ter uma chapa com Rodrigo Maia como vice, afirmou que seus diálogos com o presidente da Câmara têm outros objetivos. "Obrigar Bolsonaro a se conter dentro dos limites do Estado de direito e conter danos nas agendas anti-pobre, anti-povo e anti-nacional do Governo. E devo dizer, por justiça, que ele está cumprindo um belo papel".

Questionado se Eduardo Bolsonaro pode cumprir a insiuação de que a soltura de Lula vai unir a direita, Ciro Gomes voltou a atacar veementemente o filho de Jair Bolsonaro: " Isso é wishfull thinking [devaneio] na cabeça do Eduardo Bolsonaro, que é um boçal, opinião dele e tolete de esterco é a mesma coisa."

Ciro também falou sobre a Bolívia e as lições da América Latina para o Brasil, em um ambiente de incertezas, citando que "não estamos livre das 'sargentadas'".

"A Bolívia crescia como nenhum outro país, se esforçando para preservar e agregar valor em sua base produtiva de commodities, menos o caudilhismo personalista, que é uma variável a refletir depois. Temi muito pela vida do Evo Morales. Gosto muito dele. Está em segurança. Ficou flagrante que não estamos livres das 'sargentadas' ao modo dos anos 50 e 60. Vai acontecer no Brasil? Deus sendo brasileiro já está nos protegendo. Bolsonaro, no simbólico, já são eles no poder. E eles estão fracassando. E os profissionais das Forças Armadas estão ficando muito incomodados", opinou.

E comparou Bolsonaro, em sua atuação internacional, como "um macaco na loja de louças" ao dizer que o país perdeu sua voz conciliadora no continente. "Trabalhamos muitos anos para vencer a grande desconfiança sobre nosso desempenho desde a Guerra do Paraguai. Foram décadas, século, para Bolsonaro voltar à estaca zero. Sem conversar com ninguém, Bolsonaro fala que o Brasil vai apoiar mudança de capital de Israel de Tel Aviv para Jerusalém. E depois a Alemanha, a França, se mete no processo eleitoral da Argentina, tudo de forma grosseira e tosca. Um macaco na loja de louças."

Ciro também deixou claras suas intenções para 2022, mas não se vê ao lado de Fernando Haddad. "Com esta burocracia do PT não quero nem ir pro céu". Mas acrescentou: "[O PT] é uma organização coletiva que, eu volto dizer, respeito. O que eu não respeito mais é essa burocracia do lulopetismo."

"Quero ser presidente baseado numa ideia lúcida. Costumo sair muito popular das experiências de governo que tive. Gosto de sair muito popular. Para isso, preciso que as pessoas conheçam o problema, racionalizem as soluções, e votem nas minhas ideias e não na minha personalidade. O Brasil precisa desesperadamente construir uma alternativa. Não sei se serei eu, mas vou ajudar a construí-la. Porque é necessário. Não é fácil, simples e é extremamente arriscado, mas é um dever moral que eu tenho com o meu país."

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