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Ex-comunista da confiança de Maia, Marcelo Ramos costura pautas do centrão

16.dez.2019 - Marcelo Ramos (PL-AM) em sessão de prisão em 2ª Instância - Estadão Conteúdo/Frederico Brasil
16.dez.2019 - Marcelo Ramos (PL-AM) em sessão de prisão em 2ª Instância Imagem: Estadão Conteúdo/Frederico Brasil

Guilherme Mazieiro

Do UOL, em Brasília

03/01/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Deputado comandou comissão da Previdência e preside a da prisão em 2ª instância
  • Novato na Câmara, ganhou confiança de Maia e atua nas pautas do centrão
  • Ex-filiado ao PCdoB, ele atuou no movimento estudantil junto com Orlando Silva
  • Aos 12 anos, perdeu o pai; já adulto, teve que lidar com a morte da filha de 3 meses

O que Brasília ensinou aos deputados novatos, em 2019, é que não só de selfie vive um parlamentar. Ao largo das redes sociais, um estreante que aprendeu essa lição é o ex-comunista e fileira do PL (Partido Liberal), Marcelo Ramos, 46. Sob a confiança de Rodrigo Maia (DEM-RJ), ganhou status de articulador, e a presidência das principais comissões da Câmara: a da Previdência e a da 2ª instância.

Na contramão do discurso bolsonarista e de "nova política", Ramos é figurinha do centrão —grupo informal formado por DEM, PP, PL, MDB, Solidariedade, PSD e Republicanos. Apesar de crítico a Jair Bolsonaro (sem partido), ajudou na aprovação da principal pauta do governo, por "compromisso com o país".

"Eu tenho uma atitude de defesa da Casa. O cara não desmoraliza o Parlamento na minha frente. Isso gera uma atitude respeitos dos colegas nesse momento de tanta desmoralização da política. Eu gosto da atividade parlamentar", disse.

Quando me elegi, uma das premissas era não ter uma mandato paroquial. Mas tentar ser uma voz do Amazonas ouvida pelo país
Marcelo Ramos (PL-AM)

O amazonense transfere para a política os hábitos que adquiriu desde pequeno no esporte: treinamentos, metas e estratégias.

"Resolvi entender o funcionamento antes de começar a atuar como deputado: quem eram as pessoas que eu precisava me relacionar, quem tomava as decisões, quais espaços precisava ter no meu partido para ser ouvido. Mas jamais poderia imaginar que aconteceria o que aconteceu no primeiro ano", relatou.

Ramos joga futebol em um time master, foi membro da equipe amazonense de vôlei e pratica iron man —modalidade que mistura corrida, natação e ciclismo.

Marcelo Ramos em prova de Iron Man, em Fortaleza, em 2015 - Reprodução/Facebook Marcelo Ramos
Marcelo Ramos em prova de Iron Man, em Fortaleza, em 2015
Imagem: Reprodução/Facebook Marcelo Ramos

Entre os nomes fortes que apostaram em Ramos há o líder do seu partido, Wellington Roberto (PL-PB), e outro quadro influente no centrão, Arthur Lira (PP-AL). O bom trânsito entre os figurões, garantiu, em abril, a presidência da comissão da Câmara que analisou a reforma da Previdência

"Com dois meses de mandato, me relacionava com os líderes da Casa. E tive confiança do meu líder, que me colocou como 1º vice-líder do PL. Tudo isso ajudou", pontuou.

Saída pelo Centrão

Em meio ao impasse de parte do centrão e da esquerda para não pautar o projeto de prisão em 2ª instância e a pressão da direita, Ramos foi a Maia fazer o que mais gosta: negociar. A moderação, diz ele, acontece para dar mais consistência ao projeto e não personificar a pauta na soltura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Com aval do presidente da Câmara, buscou um entendimento junto ao relator do projeto, Alex Manente (Cidadania-SP), e a diferentes bancadas da CCJ para que fosse apresentado um texto mais amplo. A"A proposta era que não apenas as prisões fossem alteradas, mas que o efeito também atinja outros processos das áreas cíveis e tributárias. Assim, dívidas de empresas, bancos, entre outros, poderiam ser executadas já a partir da decisão judicial em segunda instância.

Essa alternativa, junto ao bom desempenho na Previdência, foram determinantes para que Ramos assumisse a presidência desta comissão. O projeto será discutido ao longo do primeiro semestre, sem "afogadilho", garante.

A bancada lavajatista, que tenta pautar com urgência a prisão em 2ª instância, critica a ampliação da PEC. Veem na mudança uma articulação do centrão para fazer o projeto patinar.

Deputado joga futebol em times de masters em Manaus - Reprodução/Facebook Marcelo Ramos
Deputado joga futebol em times de masters em Manaus
Imagem: Reprodução/Facebook Marcelo Ramos

"Ora, se tem mais coerência nas mudanças, tem mais chances de passar, não é?", rebate Ramos.

Articulação

Ramos contou que gosta de estudar os textos legislativos e cita de cor trechos das PECs da Previdência ou da prisão em 2ª instância. O deputado vê nos estudos legislativos uma vantagem para negociar a inclusão ou retirada de trechos das propostas.

Eu sei do que estou falando. E sei entender o que os colegas ou o governo, ministros querem. Porque eu estudei o projeto que estou negociando
Marcelo Ramos (PL-AM)

Quem acompanha Ramos pelos corredores da Câmara vê o parlamentar transitar por diferentes bancadas. Desde uma conversa para contar de uma articulação da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) ao deputado Marcelo Freixo (Psol-RJ), ou com Arthur Lira sobre a pauta da semana e uma ligação do líder do governo, o senador Eduardo Gomes (MDB-TO) sobre vetos presidenciais ao seu projeto que prorrogava regime de tributação para construtoras do programa "Minha Casa, Minha Vida".

Dois deputados relataram que em uma reunião para definir o andamento da 2ª instância no Congresso, o parlamentar deu uma cutucada no ministro da Justiça, Sergio Moro, defensor da pauta.

"Na frente dos líderes da Câmara e Senado, o Marcelo deu explicações técnicas sobre equívocos que a proposta de Moro tinha sobre segunda instância. Desde o básico, que é a tramitação por PEC até as entrelinhas do que o ministro projetava. Moro só ouviu", contou um parlamentar.

A proposta de Moro, inicialmente, constava no pacote anticrime como projeto de lei. Mas os deputados entenderam que o projeto deveria tramitar por PEC (Proposta de Emenda à Constituição), mais difícil de aprovar.

Jovem comunista

O atual liberal passou a maior parte da carreira política sob as fileiras comunistas. O então estudante se filiou ao PCdoB em 1993, com 20 anos. Esteve em movimentos estudantis ao lado de Orlando Silva (PCdoB-SP), Lindbergh Farias (PT-RJ). Saiu do partido em 2010 e ingressou no também esquerdista PSB. Ali permaneceu até 2016, quando mudou a bandeira política e entrou no PL.

Na esteira da bandeira comunista, teve carreira de advogado —com passagens na área sindical. Lembrou que a experiência o ajudou a entender as nuances de negociações e ter rigor técnico em matérias legislativas.

Do passado também carrega perdas. A primeira, a morte do pai, seo Umberto. A segunda, da filha Maria Carolina, quando tinha três meses, em 2004, vítima de meningite meningocócita tipo B, uma doença grave.

"A janela encantada", do escritor amazonense Thiago de Mello - Reprodução/Facebook Marcelo Ramos
"A janela encantada", do escritor amazonense Thiago de Mello
Imagem: Reprodução/Facebook Marcelo Ramos

"Com 12 anos virei o homem da casa. E botei na minha cabeça que tinha que ser exemplo para os meus irmãos. Sempre fui o melhor aluno da sala, melhor no esporte que praticava. Isso para meus irmãos enxergarem em mim um exemplo", contou ao lembrar a morte do pai, Umberto Ramos.

Quando pequeno viu o pai infartar durante uma partida de futebol. A partir daí, conta, tomou como missão ser exemplo para os três irmãos mais novos.

"E eu consegui. Acho que cumpri a missão", analisou. Entre os méritos dos irmãos contou satisfeito da carreira de um irmão advogado, outro delegado da Polícia Federal e da irmã psicóloga.

Além da filha que partiu, Ramos tem mais os filhos Gabriel, na faculdade de Direito, Marcela e José Umberto, menores, do com a esposa atual, Juliana.

Sobre a filha falecida, traz uma tatuagem do poema "A janela encantada", do escritor amazonense Thiago de Mello, o qual recita de cor em seu gabinete:

"A vida sempre foi boa comigo. Quando soube que o meu coração estava carregado de sombras, e que ele só se alimentava de luz, fez abrir no meu peito uma janela encantada, para que por ela possam entrar o esplendor do orvalho, o fulgor das estrelas, e o irresistível arco-íris do amor", declamou.

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