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Intercept: Lava Jato usou site O Antagonista para tentar interferir no BB

Pedro Ladeira/Folhapress
Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress

Do UOL, em São Paulo

20/01/2020 12h34Atualizada em 20/01/2020 14h15

Procuradores da Lava Jato usaram o site de notícias O Antagonista para tentar interferir na escolha do presidente do Banco do Brasil no governo de Jair Bolsonaro (sem partido), segundo apontam áudios vazados do Telegram. O conteúdo das mensagens foi publicado pelo site The Intercept Brasil hoje, indicando que a força-tarefa enviou documentos ao site para tentar evitar que o ex-presidente da Petrobras Ivan Monteiro, nome mais cotado para o cargo à época, ocupasse o comando do banco.

Os áudios foram entregues de forma anônima ao Intercept, abastecendo a série de reportagens - algumas em parceria com veículos como UOL e Folha de S.Paulo, entre outros. Neles, de acordo com o Intercept, Lava Jato e O Antagonista, dos jornalistas Diogo Mainardi, Mario Sabino e Claudio Dantas, consideravam-se "parceiros", com a força-tarefa passando ao veículo informações em primeira mão.

Entre elas, Mainardi, dono e editor do site, teria atendido um pedido de Deltan Dallagnol, procurador da República e coordenador da Lava Jato, para evitar notícias sobre um escândalo de corrupção envolvendo a Mossack Fonseca, escritório de advocacia suspeito de ter empresas offshore no Panamá. Em uma mensagem a Claudio Dantas, em 30 de agosto de 2018, Dallagnol dá a entender a preferência pelo Antagonista: "Não estamos passando (informações) pra mais ninguém agora".

Sobre o Banco do Brasil, durante o governo de transição de Bolsonaro, a entidade vivia uma disputa nos bastidores: o ministro da Economia, Paulo Guedes, defendia entregar a presidência do BB para o então presidente da Petrobras, Ivan Monteiro; Onyx Lorenzoni, ex-deputado federal e atual chefe da Casa Civil do Planalto, era contrário à ideia.

Lorenzoni e Dallagnol tinham proximidade. Em 21 de novembro, em um grupo de Telegram, Dallagnol enviou uma matéria da Folha de S.Paulo que citava insatisfação de Lorenzoni com Ivan Monteiro. Ele pediu informações aos colegas para tentar descreditar Monteiro.

Athayde Ribeiro da Costa responde: "De concreto nada [de informações]: mas uns manuscritos apreendidos com [Aldemir] Bendine [ex-presidente da Petrobas] são muito suspeitos". Dallagnol diz que se "alguém puder separar seria ótimo" e uma das respostas tem um link do Antagonista. Jerusa Viecili diz: "Antagonista é mais rápido".

Em um chat privado, no mesmo dia e na madrugada seguinte, Dallagnol teria enviado documentos a Claudio Dantas, do site O Antagonista, contrários a Monteiro. Segundo o The Intercept, o site não chegou a publicar o material, já que Guedes optou por Rubens Novaes para comandar o Banco do Brasil, mas as mensagens mostram uma relação próxima entre as partes.

Mais acusações

A relação entre O Antagonista e a Lava Jato era mais antiga, de acordo com as mensagens obtidas pelo Intercept, e funcionavam para ambos os lados, segundo The Intercept. No início de 2016, uma informação de Claudio Dantas teria sido passada a Januário Paludo, procurador da força-tarefa, influenciando para que ele buscasse dados fiscais sem autorização judicial de Marlene Araújo Lula da Silva, nora do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Em um grupo de procuradores, ele pede uma pesquisa à Receita Federal sobre a "nora de Lula". Pouco depois, diz que "O Claudio Dantas que me passou a informação."

Mais tarde, a fé nas informações do site gerou um pedido formal a Sergio Moro para quebra do sigilo fiscal e bancário de Marlene. O então juiz da Lava Jato negou, alegando que não vislumbrava "causa suficiente" para a medida contra ela.

No ano anterior, em dezembro de 2015, O Antagonista publicou quatro notas que colocavam empresas offshore no rol de suspeitos da Lava Jato. Horas depois, Diogo Mainardi recebeu mensagens de Dallagnol pelo Telegram. O coordenador da Lava Jato pedia para que o site interrompesse a publicação das notícias sobre offshores "em benefício do interesse social da investigação". Além disso, acenava com a promessa de informações exclusivas no futuro.

" Oi Diogo, como vai? Antes de tudo, desejo um excelente fim e começo de ano a você e família. Parabéns pelos furos do duplex e da Mosack. O colega que atua nisso na nossa FT [força-tarefa] é o Januario Paludo. Ele me pediu para entrar em contato com você e lhe pedir, por um bem maior do resultado do caso e em benefício do interesse social da investigação, que suspenda informações sobre a Mosack, pois veremos em janeiro o que dá para fazer em relação a isso. Compreendemos o lado jornalístico da divulgação, e Januario lhe fornecerá, assim que possível, informações sobre esse assunto de modo prioritário se você puder segurar essas informações, como uma forma de agradecer sua contribuição com o caso. Segue o telefone dele. Fique à vontade para contatá-lo diretamente", diz a mensagem.

Mais tarde, Mainardi responde: "Caro Dallagnol, como você sabe, só quero ajudar as investigações, por isso mesmo pedi ao meu pessoal para segurar todas as notícias sobre a Mossack."

O Antagonista voltou a publicar sobre a Mossack Fonseca apenas em 26 de janeiro de 2016, na 22ª fase da Lava Jato - que mirava o escritório e o apartamento vizinho ao tríplex de Lula.

Outro momento em que é citado um comprometimento em relação a dar "furos de reportagem" ao O Antagonista ocorreu em agosto de 2018, quando o procurador Roberson Pozzobon repassou ao grupo de Telegram Filhos do Januario 2 - com todos os integrantes da força-tarefa - pedido encaminhado pela assessoria de imprensa do MPF. Nele, um repórter do El País pedia um comentário sobre declaração do advogado Rodrigo Tacla Duran, réu na Lava Jato, sobre um suposto desinteresse da força-tarefa em ouvir a versão dele.

Apesar de haver uma resposta pronta para o El País, com a Lava Jato alegando que o advogado havia sido intimado pela justiça espanhola, a pedido das autoridades brasileiras, e preferiu ficar em silêncio na audiência, o site de Mainardi teria sido colocado à frente, mesmo sem ter feito pedidos sobre o tema.

"Acho que tem que juntar em autos públicos. Já. Passar pro Antagonista. Já também. E só em seguida passar pro El País. Não daria o furo pra eles", dizem mensagens de Dallagnol. O coordenador afirma que o El País "tem visão de esquerda" e que "uma reportagem na Espanha pela metade e mal intencionada pode ser pior que esse excesso de dedos."

Dallagnol então passou os autos para Dantas, que responde: "Beleza. Amanhã de manhã dou [a notícia]". A informação foi publicada com status de exclusiva por O Antagonista.

O que dizem os citados?

Ao Intercept, a Lava Jato afirmou que "não há qualquer favorecimento ou privilégio no fornecimento de informações" e que "as mensagens que são atribuídas à força-tarefa têm sido usadas de modo descontextualizado ou deturpado, para fazer acusações que não correspondem à realidade".

Ao UOL, Claudio Dantas afirmou que "O Antagonista não comenta violação do sigilo de fonte jornalística, que é uma garantia constitucional, em especial de site que defende criminosos condenados".

Em seu perfil no Twitter, Diogo Mainardi escreveu: "Só agora a bandidagem descobriu que eu apoio a Lava Jato?", sem citar a reportagem de The Intercept de forma direta.

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