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Coronavírus

Atos de ontem impuseram 'risco à saúde pública', diz infectologista do HC

Apoiadores do presidente da República, Jair Bolsonaro, participam de ato a favor do governo, na praia de Copacabana, zona sul do Rio - Érica Martin/AM Press & Imagens/Estadão Conteúdo
Apoiadores do presidente da República, Jair Bolsonaro, participam de ato a favor do governo, na praia de Copacabana, zona sul do Rio Imagem: Érica Martin/AM Press & Imagens/Estadão Conteúdo

Lucas Borges Teixeira, Carlos Madeiro, Pauline Almeida e Breno Castro Alves

Colaboração para o UOL em Maceió, Rio e São Paulo

16/03/2020 04h01

Apesar do tom de brincadeira de parte dos bolsonaristas que foram às ruas ironizando o surto de coronavírus, os atos de ontem trouxeram risco à saúde pública, afirma Evaldo Stanislau, infectologista do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

"Uma pessoa infectada pode transmitir o vírus para duas a três pessoas. O quanto isso não dá em uma manifestação?", diz o médico ao UOL.

Ele ainda destaca o risco de "haver um super-disseminador, um paciente que, por suas características imunológicas, tem um potencial muito maior de transmissão e passa a doença até para 14 novas pessoas".

Stanislau ainda afirma que o CDC [Centro de Controle Prevenção de Doenças dos Estados Unidos], além de recomendar que não sejam feitas aglomerações, recomenda a pessoas sintomáticas não participem de qualquer ação do tipo.

"Sem nenhum tipo de juízo político, qualquer tipo de aglomeração, como esta, é totalmente inadequada do ponto de vista epidemiológico. Pela própria orientação do Ministério da Saúde, inclusive", pontua.

Em Goiás, o governador Ronaldo Caiado (DEM), que é médico e cuja trajetória política está mais próxima à direita, tentou pedir que manifestantes encerrassem a manifestação devido à pandemia. Mas foi vaiado.

Atos contrariam orientações de autoridade sanitárias

Além de Stanislau e de Caiado, autoridades sanitárias do Brasil e do mundo são contra aglomerações neste período de crescimento do coronavírus:

Doença tratada com ironia

Apesar dos alertas, no último domingo (15), em um trio elétrico na avenida Paulista, em São Paulo, um locutor discursou: "não temos medo coronavírus, nós temos medo do comuna vírus do Congresso" e do "corrupto vírus".

Ainda em São Paulo, a manifestante Ligia Grande, 64, levou um álcool em gel e defendeu que, antes do coronavírus, "precisamos nos livrar do comuna vírus."

Sua irmã Eliana Sposato, 74, e o marido, Paulo Cesar Grande, 65, a acompanhavam. Paulo Cesar lançou uma teoria conspiratória:

"Esse vírus pode muito bem ser uma ação de guerra da China. Pense a respeito: a guerra paralisa fábricas, para viagens, causa medo, tudo que estamos vendo hoje. Vejo uma ação coordenada pela China comunista para derrubar a economia do planeta".

No Rio, a aposentada Inácia da Costa, aposentada, 69, comparou a nova doença com "uma gripezinha." "Isso vai passar. A gente tem que ter energia, força, os cuidados necessários, mas nem por isso deixar de apoiar o nosso presidente."

Nordeste desdenha do vírus

No Nordeste, manifestações desdenharam e até negaram os riscos do coronavírus. Em Salvador, pela manhã, o locutor gritou ao público que "quem sobreviveu ao 'Lula vírus', ao 'Dilma vírus', vai sobreviver ao coronavírus".

O ex-governador do Piauí, ex-senador e atual prefeito de Parnaíba, o médico Mão Santa (DEM), participou hoje do ato na cidade que governa. Um dia antes, havia dito que o coronavírus é "um viruzinho boiola".

No Maranhão, um discurso feito ao público afirmou que o coronavírus "nunca matou, nem matará" ninguém no mundo.

A fala gerou revolta do secretário de Saúde do Maranhão, Carlos Eduardo Lula. Por meio de postagem no Twitter, ele disse que "a manifestação pública é um direito de todos; disseminar mentiras que trazem risco à saúde pública, não." "Tomarei providências junto às autoridades policiais. A atitude é criminosa e merece repúdio de toda a sociedade."

No Recife, um manifestante levou uma placa dizendo: "o vírus que mata brasileiros há muitos anos é a corrupção."

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