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"Bolsonaro não sabe nada de saúde", diz o ex-aliado Ronaldo Caiado

O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), rompeu com Jair Bolsonaro na manhã de ontem - Ronaldo Caiado/Facebook/Divulgação
O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), rompeu com Jair Bolsonaro na manhã de ontem Imagem: Ronaldo Caiado/Facebook/Divulgação

Eduardo Militão

Do UOL, em Brasília

26/03/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Divergência na luta contra a pandemia do novo coronavírus fez o governador de Goiás romper com Jair Bolsonaro
  • Ronaldo Caiado indicou o ministro da Saúde a Bolsonaro e critica o presidente por não seguir as recomendações do especialista
  • Para ele, o presidente da República desautoriza a ação dos governadores, que tentam controlar a doença com o isolamento social
  • Outra assunto abordado na entrevista é a crise econômica. Caiado diz que minorar danos da economia é papel de Bolsonaro

Horas depois de romper com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), afirmou que o ex-aliado "não sabe nada de saúde".

Era mais uma crítica ao pronunciamento de anteontem, no qual o presidente recomendou que a população retome a sua rotina, suspendendo a quarentena diante da pandemia do novo coronavírus e mantendo apenas os idosos e outros grupos de risco em isolamento.

Em entrevista ao UOL, governador disse que faltou humildade a Bolsonaro para se curvar às posições científicas dos profissionais do Ministério da Saúde, comandando por seu correligionário Luiz Henrique Mandetta (DEM) — indicado para o cargo por um grupo de médicos, entre os quais o próprio Caiado.

Em primeiro lugar, ele tem que ter consciência de que não sabe nada de saúde."

Segundo o médico e ex-senador, Bolsonaro não segue os conselhos de Mandetta porque, talvez, pense que "sabe tudo".

A crise econômica

O governador de Goiás pontua que os danos na economia virão com certeza. Mas afirma que a função de reduzir esses prejuízos nos empregos e nas empresas é do presidente da República.

Ele defende a liberação imediata do "coronavoucher" de R$ 200 aos trabalhadores informais, a redução de impostos e a compensação financeira aos governos estaduais, como algumas medidas para resolver esse efeito colateral do combate à pandemia da covid-19.

Caiado ironizou a si mesmo, dizendo que não foi um bom "conselheiro" para Jair Bolsonaro. "Eu não fui capaz de sensibilizar o presidente. Ele deu provavelmente mais ouvidos aos operadores de Bolsa, aos aplicadores de Bolsa, do que a mim."

Em Goiás, a quarentena segue até 4 de abril, de acordo com decretos baixados por Caiado. Escolas, comércios e até algumas indústrias, excluídas as de alimentação, não têm autorização para funcionar.

Veja mais trechos da entrevista, concedida por telefone, na noite de ontem, depois da videoconferência do Fórum dos Governadores. Pela manhã, o Caiado havia rompido com Bolsonaro.

UOL - Qual é o problema com as avaliações do presidente no coronavírus?
Ronaldo Caiado - Meu velho professor dizia que a equipe dele era uma constelação. Outro dizia que só havia uma estrela. Só ele poderia ter a verdade, só ele pode falar. O que se busca nesse momento é ouvir as pessoas que são qualificadas. Como é que o presidente da República vai opinar sobre uma matéria sobre a qual não tem conhecimento?

O presidente está ouvindo o Mandetta? Mandetta tem independência intelectual?
Total. O Mandetta é uma das pessoas mais preparadas que eu conheço na área da saúde.

Se o Mandetta tem independência intelectual, por que o presidente não o ouve?
Realmente, eu também não confessei a você que provavelmente eu não fui um bom conselheiro. Não é verdade? (risos). Às vezes a pessoa tem um outro tipo, de achar que sabe tudo, que conhece tudo, que sabe todas as coisas. É impossível um negócio desses. Como é que você vai conviver com isso? Difícil. Qual é o constrangimento?

Você não pode criar uma situação de dar espaço a uma crise de governabilidade. Eu sou governador e baixo um decreto [ordenando fechamento de escolas e comércios]. O presidente vai e desautoriza o meu decreto. Fala: 'Não, isso aí não vale nada'.

Não tem lógica. Essas coisas não podem existir. Essas coisas têm que ter hierarquia, liturgia, tem que ter todo um processo.

O presidente Bolsonaro acha que sabe tudo em saúde? É isso que o senhor quer dizer?
Em primeiro lugar, ele tem que ter consciência de que ele não sabe nada de saúde. Tá? Em segundo lugar, ele não pode tomar atitudes que desautorizem os governadores, como eu por exemplo.

Tomei decisões baseadas nas regras do Ministério da Saúde e da Organização Mundial de Saúde.

Como é que alguém implanta uma quarentena... Como alguém amanhã vai dizer se essa quarentena está certa ou errada? Se o prazo é longo ou é curto? Você não discutiu comigo. Você não sabe a minha realidade hospitalar.

O Mandetta vai ficar no Ministério?
Ele deve ficar. É um ponto de equilíbrio, uma pessoa que tem se destacado com muito equilíbrio, com tranquilidade. É atravessar um momento porque você não vai agradar a todos.

O senhor falou com ele hoje [ontem]?
Liguei para ele. Ele me disse que estava entrando numa coletiva. Quero ligar para ele daqui a pouco.

E ele vai ficar no ministério ou vai sair?
Ele me disse que não vai sair.

Dentro do DEM, o senhor, Rodrigo Maia, ACM Neto e Davi Alcolumbre discutem a permanência de Mandetta no governo?
Não, porque foi uma indicação da classe médica. Nós temos o carinho, mas não foi uma indicação partidária. O nome dele foi uma indicação da classe médica nossa.

Tem gente que diz que foi indicação inclusive do senhor...
Lógico. Mandetta sempre foi uma pessoa da minha primeira linha. Sempre me dirigi a ele como uma pessoa que seria ministro da Saúde em qualquer governo. Não é levar [ao Bolsonaro]. É um movimento pelo qual nós fomos, de forma conjunta, com todas as associações médicas, para poder pedir a indicação dele para o ministério.

Há pouco, em entrevista coletiva, um técnico do Ministério da Saúde falou que escola é aglomeração. Então...
Realmente, com a quarentena você segura. Aí, daqui a pouco, você vai soltando o jovem, ele tem uma maior capacidade de resistência, se não tiver o convívio com o idoso. É um dos grupos prioritários no momento em que você sai da quarentena.

É o pessoal que você vai soltando primeiro, para testar. São os jovens na faixa escolar acima de 14 anos, para que não precise ser levado pelo pai.

Já pode se deslocar, ir para a escola e voltar. Depois, você pega as pessoas que estão abaixo de 50 anos de idade e toma uma atividade mais ao ar livre. E vai liberando, entendeu? Essa é a conduta de escape. Você vai começando a montar uma estratégia de escape da área de quarentena.

Se o discurso do presidente está errado, o que deve ser feito para minorar os efeitos na economia sem prejudicar a saúde da população?
Esse milagre aí eu não dou conta de fazer. Todos nós sabemos que vai ter consequência econômica. É uma crise, é uma pandemia.

Eu pergunto sobre minorar. O senhor hoje falou em "calibrar" e afrouxar medidas, falou em liberar pessoas com menos de 50 anos...
Minorar é função do presidente. O presidente é que minora. "Olha, nós vamos ter momentos difíceis, mas eu assumo aqui, nós vamos trabalhar em conjunto com os governadores, com toda área empresarial, servidores públicos..." Isso é minorar. Isso é função do estadista.

Agora, dizer que não não tem jeito... Como líder, eu sei a responsabilidade de tranquilizar, de exigir, de definir critério, métodos e rotinas. Eu preciso disso, disso, disso.

O que eu não posso é, no momento de instabilidade, ir à TV e dizer: "Todos os prefeitos de Goiás são responsáveis por tudo o que vai acontecer.

Ao presidente, cabe a função de minorar os problemas. Essa é a função. É aglutinar as lideranças.

Quais seriam as motivações políticas de Bolsonaro, jogando a sociedade contra os governadores?
Se eu não dei conta de argumentar com ele, como eu vou interpretar isso?

Na sexta-feira, o presidente disse aos jornalistas no Alvorada: "Vocês vão querer jogar a responsabilidade em cima de mim. A economia está parando". Não seria isso?
Essa é a carga de todos nós, governantes. Aqui em Goiás, tudo vai ser jogado nas minhas costas. E eu tenho total humildade de acolhê-las. É a função nossa. Isso aí é uma realidade. Se você está à frente do governo, você tem de responder por tudo.

Liberar o "coronavoucher", compensar o ICMS dos estados e dar isenções fiscais às empresas seriam medidas para minorar a economia?
Sem dúvida. A grande arrecadação minha não é FPE [Fundo de Participação dos Estados, que seria aumentado por proposta do governo de Bolsonaro, o que agradou governadores do Nordeste]. É ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços, tributo que cai quando as vendas das empresas são baixas, como em época de quarentena].

O FPE tem pouca importância na minha receita global, é de 12%, 15%. O ICMS é que é importante para mim.

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