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Veja como Bolsonaro distorce dados de Itália e Japão para benefício próprio

Pronunciamento de Bolsonaro em rede nacional provocou uma série de críticas de especialistas em saúde pública - Reprodução/Palácio Do Planalto
Pronunciamento de Bolsonaro em rede nacional provocou uma série de críticas de especialistas em saúde pública Imagem: Reprodução/Palácio Do Planalto

Lucas Borges Teixeira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

25/03/2020 16h44

Resumo da notícia

  • O presidente Jair Bolsonaro foi irresponsável ao usar exemplos pontuais com o objetivo de moldar seu discurso, dizem especialistas em saúde pública
  • No pronunciamento, o presidente acusou a imprensa de fazer "histeria" e "espalhar sensação de pavor" ao expor o número de casos da Itália
  • Em contraponto, publicou em seu Twitter um vídeo de um brasileiro que mostra aglomerações em um parque no Japão, onde não há quarentena
  • A cultura japonesa e os climas diferentes dos três países são fatores que influenciam na propagação do novo coronavírus

Na visão de infectologistas e especialistas em saúde pública ouvidos pelo UOL, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) foi irresponsável, raso e "está na contramão do mundo" ao usar exemplos pontuais com o objetivo de moldar seu discurso, como fez no pronunciamento à nação na noite de ontem.

"Um país com grande número de idosos e um clima totalmente diferente do nosso." Essa frase pode ser atribuída tanto ao Japão quanto à Itália, países que apresentam quadros distintos em relação ao novo coronavírus (covid-19), mas foi usada por Bolsonaro somente como argumento para questionar comparações com o país europeu. Quando olha para o asiático, que não adotou quarentena, o presidente ignora as diferenças.

"Ao comparar com o Japão, ele pega os dados que lhe interessa com objetivo de questionar a quarentena, e, ao alinhar com a Itália, pega o que interessa para questionar o número de mortes. Mas não cabe, é uma avaliação rasa", declara o infectologista Mateus Westin, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

No pronunciamento, o presidente acusou a imprensa de fazer "histeria" e "espalhar sensação de pavor" ao expor o número de casos da Itália, país com maior número de mortes diárias atualmente. Em contraponto, na manhã de hoje, publicou em seu Twitter um vídeo de um brasileiro que mostra aglomerações em um parque no Japão, onde não há quarentena.

A base do argumento é que a Itália, que impôs quarentena, já passou de 70 mil infectados e tem cerca de 7 mil mortos, enquanto o Japão tem apenas cerca de 1.300 casos e menos de 50 mortes. Essa diferença, dizem os especialistas, está na cultura — algo específico do país nipônico que não pode ser aplicado nem às nações vizinhas, quanto mais ao Brasil.

Segundo Westin, a decisão japonesa foi "estudada e responsável" e cabe apenas a eles.

A forma como o japonês lida com prevenção de qualquer agravo respiratório é historicamente diferente, eles usam máscara cotidianamente quando estão com qualquer problema viral, não só com por causa da covid-19. Quando vemos isto aqui?"

O grau de interação social no país, com menos beijos e abraços, também é um fator preponderante. A forma de cumprimento no Brasil, que chega a dois beijos no rosto em algumas regiões, lembra muito mais Itália e Espanha.

"Não é síndrome de vira-lata, é uma cultura diferente. É específico deles. Não é cabível de comparação com lugar nenhum, muito menos com o Brasil", insiste o infectologista.

"Comparações estapafúrdias"

A médica sanitarista Sylvana Medeiros, ex-secretária de Saúde de Maceió, lembra que, apesar de não adotar quarentena, o Japão aplicou medidas restritivas, como fechar escolas e impedir aglomerações em locais fechados.

"Eles adotaram medidas que cabiam a eles. O presidente deveria observar como o vírus tem se comportado no mundo todo e parar de fazer comparações estapafúrdias. Ele deveria ouvir o seu ministro da Saúde [Luiz Henrique Mandetta], que, com uma equipe muito competente e comprometida, está aprendendo com as tragédias na Europa e pensando em soluções para o Brasil", critica a sanitarista.

Bolsonaro deveria pensar na realidade brasileira

Medeiros pontua que o presidente deveria focar em soluções para o Brasil e não desprezar os números da Itália, como fez no pronunciamento.

"Ele deveria olhar para o próprio umbigo. Saúde é prevenção. As medidas restritivas visam prevenir ao máximo possível que um caos venha acontecer, com explosão de casos graves, e gere um colapso dos sistemas de saúde público e privado, como aconteceu na Itália", declara a sanitarista.

Para ela, o objetivo das restrições é evitar exatamente que o país chegue ao nível italiano, de mais de 700 mortes por dia.

Lá eles começaram [a tomar medidas restritivas] tarde, e agora não há leitos para todo mundo, o sistema colapsou. Se a gente chega a esse nível, também não teremos. Quando falamos em achatar a curva, o objetivo é diminuir os casos graves para que o sistema atenda a todos."

"O mundo inteiro está na mesma linha: restringir interação e limitar o contato, alguns de forma muito mais drásticas e outros menos, mas todos estão adotando. Ponto. Essa é a forma de diminuir a velocidade da disseminação", insiste Westin.

Clima também não pode ser usado como argumento

Tanto a Itália quanto o Japão apresentam climas diferentes entre si e em relação ao brasileiro. Os países, ambos no hemisfério norte, têm invernos mais rigorosos e não estão no clima tropical. Ainda não há nenhum estudo, no entanto, que indique que o calor brasileiro impeça a proliferação da covid-19.

"Os países estão começando a experimentar esta epidemia dentro dos trópicos. O Brasil, na realidade, será o grande exemplo de como ele [o vírus] vai se desenvolver. É fato que a maioria dos vírus respiratórios se adequam melhor a temperaturas mais amenas, mas também é fato que tudo o que sabemos sobre o novo coronavírus está em construção. Se fosse só o clima, o vírus teria impactado igualmente os dois [Itália e Japão]", explica Westin.

Segundo o infectologista, pesa sobre estações mais frias o fato de as pessoas se aglomerarem mais e ficarem mais tempo em ambientes fechados. "Isso contribui muito para a disseminação do vírus. Nós estamos entrando em outono/inverno. É menos rigoroso que o europeu, mas ainda não sabemos como [a doença] se comportará aqui", finaliza o pesquisador da UFMG.

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