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Esquerda vê 'crise civilizatória' e prega mais democracia após coronavírus

Do UOL, em São Paulo

08/04/2020 14h12

O UOL Debate desta quarta-feira reuniu Fernando Haddad (PT), Manuela d'Ávila (PCdoB), Guilherme Boulos (PSOL) e Alessandro Molon (PSB) para debater rumos da política nacional e governabilidade durante a pandemia de coronavírus. Entre temas como eleições e economia, e críticas ao presidente Jair Bolsonaro na condução do país, a preparação da sociedade para uma volta à normalidade foi colocada como momento de estabelecer maior diálogo e um questionamento de valores que contribuíram para pandemia, na avaliação dos debatedores.

Para Manuela, "o novo normal deve ser mais democrático", inclusive pensando nas eleições municipais marcadas para outubro. "De acordo com consequências e medidas do governo, teremos que adiar (as eleições) em um mês ou dois. Esperamos que o governo tome medidas que salvem a vida dos brasileiros e a gente retome as atividades o quanto antes. Se tiver que jogar para dezembro, que o façamos, o mais importante é salvar a vida das pessoas. O novo normal é com mais democracia. O pós-coronavírus não pode ser de menos participação popular, mas mais", disse a representante do PCdoB.

Boulos concordou, inclusive com a possibilidade de adiamento das eleições de 2020 "por questões de saúde pública".

"O coronavírus escancarou crise civilizatória que a gente já vivia. Se olharmos no mundo os últimos 40 anos, a hegemonia neoliberal no mundo, ideia de privatizar tudo... A pandemia nos traz à completa falência desse modelo de Estado. Gente que um mês atrás enchia a boca para falar de Estado mínimo e ria quando falávamos do SUS [Sistema Único de Saúde], isso virou quase um consenso internacional de sistema de saúde pública de cobertura universal", disse o candidato do PSOL na eleição presidencial de 2018.

"Isso deve ser um legado que deve começar pela revisão do regime fiscal. Temos que ter contratação emergencial de pessoas na área da saúde. Tem que ter revisão na Lei de Responsabilidade Fiscal e pensar em lei de responsabilidade social, que deve ser norteada por outros valores. Os valores que se semearam na nossa sociedade estão em xeque: individualismo, falta de empatia. A pandemia trouxe solidariedade como valor central e isso tem que deixar um legado para novo modelo de desenvolvimento e outras medidas em que estado seja elemento de combate à desigualdade", acrescentou.

Militarização enfraquece instituições, diz Manuela

Os políticos de esquerda criticaram a presença de tantos quadros militares na gestão de Jair Bolsonaro (sem partido).

Para Manuela D'Ávila, "a militarização da política aponta para instituições mais fracas e desrespeito à movimentação popular".

A ex-deputada também afirmou que é preciso ter atenção caso "setores militares tentem se assanhar para espaços que não são os seus".

Haddad afirmou que os militares conseguiram tanto poder no governo porque "Bolsonaro não tem condição de exercer a Presidência da República sem a tutela deles", disse.

Bolsonaro é inapto, dizem debatedores

Os debatedores foram unânimes ao apontar que o presidente da República não teria condições de conduzir o governo diante da pandemia do coronavírus. Por várias vezes, afirmaram que Bolsonaro é "inapto" para exercer o cargo.

"O presidente tem medo de a economia afundar e ele não ter números econômicos para sustentar sua reeleição. Só pensa nisso. Não pensa na saúde dos brasileiros", afirmou o deputado federal Alessandro Molon (PSB-RJ).

Haddad destacou o "ineditismo" dos embates entre Bolsonaro e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que ficou perto de ser demitido esta semana.

"Nunca vi desobediência civil de ministro para proteger o país de seu presidente. Estamos falando de uma pessoa incapaz de liderar o país nesse momento. Temos na Presidência alguém totalmente inapto."

Manuela mostrou-se preocupada com a "ausência" de ações governamentais que informem a população a respeito da necessidade de isolamento social como forma de frear a propagação do coronavírus.

"Estamos no período de ampliar as condições de isolamento e alertar a população. Não há propaganda oficial do governo sobre como proceder nesse isolamento como a população fica em casa, como higieniza os alimentos."

Por sua vez, Boulos afirmou que o presidente da República joga com "o desespero das pessoas e é um elemento propagador do vírus" por conta da "desinformação" que dissemina. "Ele é um problema de saúde pública."

Mandatos não devem ser adiados, diz Haddad

Em determinado momento do debate, quando se discutia a respeito da pertinência de adiar as eleições municipais deste ano, Haddad fez questão de se posicionar contra a prorrogação de mandatos de prefeitos e vereadores, por causa da pandemia do coronavírus.

"Prorrogar mandato é um absurdo, coisa da ditadura militar, nada a ver com regime democrático."

Para Molon, o Congresso Nacional encontrará o momento certo para debater o assunto.

"Da última vez que adiamos eleição, esperamos 25 anos para votar. Se necessário for, é preciso fazer isso com responsabilidade e impedir de se pegar carona na crise para prorrogar mandato de prefeito por dois anos."

Crédito mais fácil e defesa do emprego

Quando a pauta focou em medidas econômicas para conter a crise, Haddad defendeu que a população e o Estado tenham acesso mais fácil e barato a crédito.

"O serviço bancário no Brasil é melhor do que no primeiro mundo. Mas não tem sistema de crédito. Significa que o crédito no Brasil é difícil e caro e, nesse momento, não é possível, inclusive para o Estado brasileiro. O crédito é difícil e caro; temos que tomar medida para mudar nosso sistema de crédito", disse.

Boulos propôs que o governo brasileiro pague parte do salário dos trabalhadores formais em meio a crise do coronavírus.

"Reino Unido, Dinamarca e outros países estão pagando 90% dos salários dos setores mais afetados", explicou.

Boulos também sugeriu que o governo proíba demissões. "Tem que garantir renda para quem não tem e manter a renda de quem já tem."

Direita debate a crise nesta quinta

O UOL Debate reúne especialistas e nomes conhecidos do público para abordar uma série de temas: o impacto da desaceleração da economia sobre as pessoas e as empresas, a reação dos governos aos enormes desafios impostos pelo coronavírus, os efeitos de uma sociedade em quarentena para a saúde mental e a educação das crianças, como esportistas e artistas estão lidando com a crise e as perspectivas para seus campos de atuação, entre outros.

Amanhã, a partir das 13h, a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP), o senador Álvaro Dias (Podemos-PR), o senador Major Olimpio (PSL-SP) e o empresário João Amoêdo (Novo) analisam as últimas semanas do governo Bolsonaro, as interlocuções com as Forças Armadas e a negociação de materiais hospitalares para o combate ao coronavírus. Neste segundo encontro, a mediação ficará a cargo da colunista do UOL Thaís Oyama.

UOL Debate será transmitido na página do UOL e no canal do UOL no YouTube e também nos perfis do UOL no Twitter e no Facebook.

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