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Coronavírus

Mandetta sobre saída da Saúde: 'Presidente bateu de frente com a ciência'

Presidente Jair Bolsonaro ao lado do então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, durante evento em Brasília - ADRIANO MACHADO
Presidente Jair Bolsonaro ao lado do então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, durante evento em Brasília Imagem: ADRIANO MACHADO

Do UOL, em São Paulo

26/04/2020 22h04Atualizada em 27/04/2020 00h21

Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde, falou sobre sua saída do ministério durante live organizada pelo MBL (Movimento Brasil Livre). Para ele, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) bateu de frente com os princípios do combate ao coronavírus, o que gerou atritos com Mandetta.

Segundo ele, o presidente entendeu que "as implicações econômicas seriam mais duras para as pessoas do que as implicações de saúde", daí ter tomado decisões que, a seu ver, se chocavam com a maneira como o Ministério da Saúde era conduzido.

"Nós fizemos o ministério no combate ao coronavírus: defesa intransigente da vida, do SUS e da ciência. O comportamento do presidente bateu de frente com a ciência, com o SUS e com a vida. Aí ficou impossível, porque nenhum de nós podia sair das nossas prerrogativas. Então, ele resolveu substituir o ministro, não o Mandetta. O que ele exonerou foi a ciência", disse.

"Foi uma opção de mudar o perfil, a coordenação, a maneira que estava falando. De repente, o Ministério da Saúde estava falando muito, ficamos no ar 60 dias, aí foi tudo misturando e ele resolveu ter um ministério mais coadjuvante da Casa Civil do que um ministro que estivesse verbalizando na casa das pessoas uma visão baseada nesses três princípios", acrescentou.

Segundo o ex-ministro, pesou em sua demissão a entrevista que deu em 12 de abril ao programa Fantástico, da TV Globo, em que cobrou "uma fala unificada e o fim da dubiedade" entre as orientações dos dois.

"A entrevista do Fantástico foi fruto de uma semana dura. Tínhamos reposicionado um pouco como íamos lidar, tivemos uma ida para Águas Lindas, no entorno de Brasília, em que havia sido feito um combinado, e o presidente foi abraçar gente, fez tudo que não era para fazer na frente da gente. Aí a situação ficou muito difícil", explicou.

"A imprensa vem, a gente fica com cara de quem não sabe nem o que fala, aí achei que tinha que dar uma entrevista, aí eles não gostaram do veículo, de ter sido na Globo", prosseguiu, ressaltando que Bolsonaro não chegou a lhe dizer diretamente que estava insatisfeito.

Ex-ministro está escrevendo livro

Questionado se será candidato à presidência em 2022, Mandetta se esquivou. O ex-ministro disse apenas que está cansado de ser deputado federal e que não voltará a se candidatar ao cargo.

"Eu acho que política é destino. Não existe falar que vai fazer um projeto político. As coisas são destino", afirmou.

"Isso é um troço muito doido, não saberia te dizer. Eu não desejo me candidatar a deputado federal. Já fiz, já colaborei, o espaço tem que ser aberto, me sinto representado por vários que lá chegaram, não quero, não vou. Estou reestruturando minha vida pessoal. Fui na minha terra, tinha conta atrasada", afirmou Mandetta.

O ex-ministro contou que está escrevendo um livro sobre seu período à frente do ministério da Saúde, mas não pretende fazer nada "agressivo". "Tem que colocar como foi a reação das autoridades, imprensa, cientistas. É meu dever colocar essa crônica, como foi o Congresso, recursos, tratativas e existem momentos típicos da classe política, mas nada agressivo. Uma coisa para deixar como documento", explicou.

Teste de Bolsonaro

Mandetta também foi questionado se Bolsonaro testou positivo para a covid-19, que não foi revelado pela Presidência.

"Ele nunca fez nenhuma consulta sobre saúde comigo. A segurança de todos era precária. Eu comecei a falar de coronavírus para o pessoal que organiza cerimonial. A posse da Regina Duarte não tinha álcool gel, depois teve falação, abraço, selfie. Eu falei que ia contaminar todo mundo", discursou.

O ex-ministro ainda detalhou bastidores da comitiva do presidente aos Estados Unidos, da qual mais de 20 participantes foram diagnosticados com a doença.

"Até aquela viagem para os EUA, não havia um frasco de álcool gel na antessala do presidente. Eles vinham me cumprimentar, e eu era o chato, porque falava oi de longe, para não encostar. Não dá para saber se ele [Bolsonaro] pegou [covid-19]. Ele teve uma comitiva dele. Eles estavam todos fora da casinha, não estavam entendendo. Precisou aparecer muita gente doente daquela comitiva para que começasse a ver algum tipo de preocupação biológica entre eles. Alguém viu os exames dele, mas nunca fui chamado", continuou.

Elogios a Moro e Guedes

Na parte final da entrevista, Mandetta elogiou os ministros do governo Bolsonaro ao falar da saída de Sergio Moro, que deixou o cargo de ministro da Justiça e Segurança Pública na semana passada.

"Era uma relação [entre Moro e Bolsonaro] que não vinha bem, não vinha muito legal entre os dois por ter sido do formato que foi. O ministro Moro muito preocupado com o sistema prisional com a doença. Ele muito envolvido, perguntando sempre dos riscos, chances. O ministro [Paulo] Guedes [da Economia] muito correto pela saúde, organizando recurso. Todos eles. Por parte deles, todos trabalhando para que a gente pudesse harmonizar as questões da saúde com a economia", disse Mandetta, antes de falar que não saiu do ministério da Saúde brigado com Bolsonaro.

"Quando eu vi que eles já tinham tomado a decisão de me substituir, o que fiz foi tratar o assunto com a educação que tem de berço, conversei de boa com o presidente, não saí brigado, entendo o que fez ele tomar a decisão. Ele foi eleito, tem a prerrogativa do cargo de nomear, fiz questão de ir na transição e um agradecimento a todos", finalizou.

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