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Alvo de novo diretor, PF do Rio tem casos sensíveis a Bolsonaro

PF no Rio: investigações como as do porteiro, Hélio Lopes e Ronnie Lessa passaram pela unidade - Gabriel Sabóia/UOL
PF no Rio: investigações como as do porteiro, Hélio Lopes e Ronnie Lessa passaram pela unidade Imagem: Gabriel Sabóia/UOL

Eduardo Militão

Do UOL, em Brasília

05/05/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Bolsonaro tentou em 2019 emplacar nome na PF do Rio em 2019, mas na época não conseguiu
  • Ao deixar governo, Moro revelou que presidente queria nova troca na unidade fluminense
  • Logo após assumir cargo, novo diretor da corporação inicia mudanças no estado
  • PF do Rio investiga casos de interesse do presidente

O novo diretor-geral da Polícia Federal, Rolando Alexandre de Souza, prepara mudanças na superintendência do Rio de Janeiro, onde correm investigações sensíveis para o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Ontem, ele começou a planejar alterações na equipe e a contatar pessoas para montar seu time.

Poucas horas após ser empossado, o novo chefe da PF convidou o superintendente do Rio de Janeiro, Carlos Alexandre Oliveira, para assumir a direção executiva da corporação, na sede do órgão em Brasília — fazendo dele seu número dois. Efetivada a mudança, se concretizará a troca de comando da unidade fluminense, como era desejo de Bolsonaro, segundo acusou o ex-ministro Sergio Moro (Justiça) ao deixar o governo.

A crise entre Bolsonaro, o ex-juiz da Lava Jato e o Supremo Tribunal Federal (STF), que suspendeu a nomeação de Alexandre Ramagem, acabou levando Rolando Alexandre ao comando da PF. Bem-visto dentro da corporação, o delegado tem conhecimentos sobre combate a corrupção, desvio de dinheiro, mercado de capitais, fundos de pensão e bancos de dados.

Porém, a forma como chegou ao posto e a rápida troca de cadeiras que causará mudanças no Rio de Janeiro acenderam o sinal amarelo entre delegados, peritos e agentes ouvidos pela reportagem, que veem com desconfiança a mudança.

O motivo é que Moro deixou o governo justamente acusando Bolsonaro de tentar interferir na PF e promover a substituição de superintendentes do Rio, de Pernambuco e de outros estados — a regional da polícia no Rio foi justamente o primeiro caso de intervenção do presidente, ainda em 2019, na crise que resultou na saída do ex-juiz e do antigo diretor-geral da corporação, Maurício Valeixo.

Procurados pelo UOL, a Polícia Federal, a Secretaria de Comunicação do Palácio do Planalto e advogados de Bolsonaro não se manifestaram.

Novo nome para o Rio ainda é mistério

Com a provável saída de Carlos Henrique, alguns nomes já são cotados dentro da polícia. O chefe da PF em Minas Gerais, Cairo Duarte, poderia ocupar a vaga. Mas espera-se que também ganhe um posto na direção da corporação em Brasília, pois tem experiência no comando de setores voltados ao combate ao crime organizado.

Outra possibilidade para o Rio é Alexandre Saraiva, que tentou ser colocado lá por Bolsonaro em 2019, mas foi barrado por Sergio Moro e Maurício Valeixo.

Casos que interessam Bolsonaro no Rio

No Rio de Janeiro, a PF abriu um inquérito relacionado ao porteiro do condomínio de Bolsonaro. Um livro da portaria mostra que um suspeito de participar do homicídio da vereadora Marielle Franco (PSOL), em 2018, entrou no local com autorização da casa do próprio presidente da República.

Ao explicar a anotação à Polícia Civil do Rio, o porteiro confirmou que "seu Jair" autorizou a entrada para a pessoa, que se dirigiu à casa do sargento da Polícia Militar Ronnie Lessa. No entanto, na data dos fatos, Bolsonaro estava em Brasília. E áudios periciados pela Polícia Civil mostraram, depois, que a voz que atendeu a ligação era de outra pessoa, e não do presidente.

A PF abriu um inquérito em relacionado a essas divergências. Após uma terceira versão, o porteiro disse que ficou nervoso e por isso citou Bolsonaro. O Ministério Público havia pedido a quebra dos sigilos do porteiro ao Tribunal Regional Federal da 2ª Região para saber se ele havia sido pressionado a dar o depoimento a fim de prejudicar ou proteger pessoas - ele mora numa área controlada por milícias. Com a terceira versã no depoimento, porém, a Procuradoria desistiu do recurso.

Ao se defender das acusações de Moro, em 24 de abril, Bolsonaro mencionou investigações criminais em que ele divergia da orientação da Polícia Federal e do ministro da Justiça. O caso do porteiro era um deles

Isso é interferir na Polícia Federal? Será que pedir à Policia Federal, quase implorar, via ministros, que fosse apurado o caso Marielle, no caso porteiro da minha casa 58, na avenida Lúcio Costa, 3.100?"
Jair Bolsonaro, em 24 de abril

PF do Rio apurou homônimo de amigo do presidente

No dia em que se defendeu das acusações contra Moro, Bolsonaro estava ao lado de ministros, de um dos filhos e de de dois deputados. Um deles era Hélio Lopes (PSL-RJ), seu amigo que acabou aparecendo em uma apuração da PF no Rio, ainda que de maneira inavertida.

Um despacho em um inquérito sobre crimes previdenciários mencionou um possível envolvimento do deputado bolsonarista. Até o momento, porém, tudo leva a crer que se tratava de um homônimo. Essa investigação irritou o presidente e custou a cabeça do ex-chefe da PF no Rio, Ricardo Saadi, na avaliação de fontes policiais.

Presidente mencionou depoimento sobre namoro

Em 18 de fevereiro, Bolsonaro ofereceu aos jornalistas um depoimento que afirma possuir do sargento Ronnie Lessa relacionado a supostos relacionamento amorosos de seu filho Jair Renan. O presidente disse à época que o testemunho demonstraria que seu filho não namorou uma filha de Lessa —- que seria o destino do visitante que entrou no condomínio segundo o relato do porteiro.

O UOL solicita cópia desse depoimento há três meses, mas Bolsonaro, seus advogados e a Presidência não o forneceram.

Quando foi se defender das acusações de Sergio Moro, em 24 de abril, o presidente voltou a mencionar esse depoimento e falou da necessidade de mudar a chefia da PF no Rio. Segundo ele, havia intenção de ligá-lo a Lessa a partir desse relacionamento amoroso.

Filho do presidente foi alvo de inquérito sobre lavagem

Filho mais velho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ) foi alvo de um inquérito da PF no Rio para investigar se praticou lavagem de dinheiro oriundo de esquema de "rachadinha" na Assembleia Legislativa do Rio. O caso acabou arquivado neste ano.

No entanto, outras suspeitas de lavagem, derivadas dos mesmos fatos, são apuradas pelo Ministério Público Estadual do Rio e pela Polícia Civil. Uma empresa de Flávio Bolsonaro foi alvo de busca e apreensão em dezembro. Flávio Bolsonaro nega as acusações.

Disputa com Witzel também interessa ao presidente, diz investigador

Sob anonimato, um investigador que conhece os casos relacionados à família Bolsonaro afirma que ter o controle da PF no Rio é importante para o presidente por causa de sua disputa política com o governador Wilson Witzel (PSC). A política de segurança pública é uma das bandeiras do governador.

Por isso, aponta esse investigador, ter a Polícia Federal como uma fonte de informações de inteligência é importante para o presidente da República se preparar para atuar contra um adversário político e quem estiver ao lado dele. A PF também poderia servir de contraponto à Polícia Civil, subordinada diretamente a Witzel.

Apesar das pressões, esse investigador tem dúvidas se a interferência na PF terá o efeito planejado em Brasília por causa da cultura interna da corporação sobre o que é possível e o que não é possível fazer.

Outro agente da corporação lembra que qualquer tentativa de interferir em casos ou retardar apurações acaba ficando registrada em documentos. Isso impediria, ou intimidaria, ações e omissões realizadas à margem da lei.

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