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Secom faz uso político de canal oficial e acumula ataques a desafetos

À frente da Secom, Wajngarten (à esq.) fez mudanças no perfil da pasta - Reprodução
À frente da Secom, Wajngarten (à esq.) fez mudanças no perfil da pasta Imagem: Reprodução

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, em Brasília

11/09/2020 04h00

Sob comando do publicitário Fábio Wajngarten desde abril de 2019, a Secom (Secretaria de Comunicação Social) do governo federal tem acumulado polêmicas com ataques a terceiros e se envolvido em discussões políticas nas redes sociais para defender ou exaltar o bolsonarismo.

Nem mesmo depois que o órgão passou a ser subordinado ao novo ministro das Comunicações, Fábio Faria, em junho, houve alteração na forma de atuar. Faria assumiu o cargo com a missão de mudar a imagem belicista do governo.

Nesse período de pouco mais de um ano, ficaram marcados os ataques pessoais, as mensagens desrespeitosas em relação ao trabalho de jornalistas (uso de termos como "imprensa lixo" e acusações sem provas de "fake news"), entre outros episódios.

Na mais recente polêmica, no último dia 5, a Secom voltou-se contra Marcelo Adnet. O humorista havia satirizado a participação do secretário de Cultura e ex-ator da TV Globo, Mário Frias, na campanha institucional "Heróis Brasileiros":

A Secom resolveu comprar a briga, e em seu canal oficial no Twitter foi postado:

Na thread (linha de discussão) da postagem, a Secom ataca:

"Não imaginamos que honrar um morador de rua que salvou uma desconhecida ou uma professora que morreu queimada para salvar dezenas de crianças causaria reações maldosas, carregadas de desprezo por brasileiros simples, mas imensamente bondosos [...] De que adianta gritar que ama a humanidade, mas desprezar o ser humano? [...] Felizmente, estamos aqui falando de uma ínfima e desprezível minoria."

Apesar do apoio público manifestado por bolsonaristas nas redes sociais, o tuíte foi reprovado nos bastidores do governo. Há uma avaliação interna de que a mensagem postada foi um erro.

Segundo um auxiliar de Bolsonaro, o ato vai na contramão da estratégia "paz e amor" que o presidente — antes um crítico feroz da "velha política"— tem colocado em prática nos últimos meses, com uma postura menos ruidosa em relação a adversários.

O novo perfil do presidente foi desenhado a partir de uma aproximação com o centrão e do isolamento da chamada "ala ideológica", período em que Bolsonaro reduziu a carga diária de declarações controversas à imprensa na saída do Palácio da Alvorada e buscou melhorar o relacionamento com o Congresso e o STF (Supremo Tribunal Federal). Isso ocorreu depois de sucessivos atritos e ameaças de ruptura institucional.

A ideia do presidente é melhorar as suas condições de governabilidade na segunda metade do mandato e, sem se envolver em polêmicas desnecessárias, pavimentar o caminho para a reeleição em 2022.

Auxiliares consideram que já é possível perceber avanços na tentativa de impor limites de institucionalidade à comunicação do governo. Entretanto ainda existiriam "pontos fora da curva" e "exceções", a exemplo do que ocorreu com Adnet na semana passada. Por esse motivo, é estudada a possibilidade de instituir uma espécie de filtro para barrar a publicação de mensagens polêmicas. Por enquanto, trata-se apenas de uma ideia.

Politização

A resposta da Secom a Adnet repercutiu ainda no Congresso, onde o líder da oposição no Senado, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), prometeu acionar o Ministério Público Federal por crime de improbidade administrativa. Artistas e intelectuais também reclamaram da atitude da pasta e argumentaram que tal postura não seria compatível com um canal oficial do Executivo federal.

Em 41 anos, a Secom já havia passado por momentos de politização, segundo relatam funcionários mais antigos do Palácio do Planalto. Mais recentemente, nas gestões do PT, por exemplo, houve reclamações quanto ao tratamento dado a jornalistas e desavenças pontuais.

À época, porém, a repercussão se limitava muitas vezes aos bastidores de Brasília, pois as mídias sociais não eram tão presentes na rotina diária das autoridades — que hoje as adotam como parte estratégica de suas agendas políticas.

A principal ferramenta usada pela Secom na defesa do governo é a sua conta oficial no Twitter (@SecomVC), que foi criada em agosto de 2019 — cerca de quatro meses após Wajngarten ser nomeado chefe da pasta — e desde então ganhou cerca de 194 mil seguidores.

A "persona" da Secom no Twitter foi uma das inovações que Wajngarten implementou no comando da secretaria. A chegada do publicitário, que é tido internamente como um membro da chamada "ala ideológica" (formada por seguidores do ideólogo de direita e guru bolsonarista Olavo de Carvalho), deu nova cara à comunicação institucional, antes limitada à divulgação de ações de governo, números e políticas públicas.

Além do canal em si, a linguagem com viés emocional e a narrativa combativa fazem parte da estratégia de comunicação criada pelo secretário.

As mudanças ocorreram na transição pós-queda do general Carlos Alberto Santos Cruz da Secretaria de Governo, em junho de 2019. A gestão do militar foi alvo de fritura por parte dos olavistas justamente por causa de críticas à Secom.

Um dos principais defensores da demissão de Santos Cruz foi Carlos Bolsonaro, filho do presidente que é visto como um "conselheiro" na área de comunicação

Quase um ano depois, a Secom passou da Secretaria de Governo para o renascido Ministério das Comunicações, chefiado pelo deputado federal Fábio Faria (PSD-RN).

A recriação da pasta e a escolha do ministro selaram a aproximação de Bolsonaro com líderes do Congresso e a formação de uma nova base do Executivo.

Cineasta na mira

Antes de Adnet, o ataque mais contundente havia ocorrido contra a cineasta Petra Costa, diretora do documentário "Democracia em Vertigem", que foi indicado ao Oscar deste ano. No Twitter, a pasta afirmou que a artista, que tem opiniões contrárias às do governo, era responsável por "denegrir uma nação" com a sua obra. O filme retrata a queda da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), sob o viés de que houve um golpe.

Em um vídeo postado na rede social, a Secom afirmou que Petra "assumiu o papel de ativista anti-Brasil" e questionou declarações dela durante entrevista concedida a um canal de TV norte-americano.

Assim como no caso da resposta a Adnet, a postura da Secretaria Especial de Comunicação da Presidência foi duramente criticada à época por parlamentares e artistas.

Ameaça de processo

Também no Twitter, a Secom afirmou que o jornalista Ricardo Noblat e o chargista Renato Aroeira serão processados por cometerem suposto crime de falsa imputação contra Bolsonaro.

Noblat compartilhou uma charge de Aroeira em que o presidente aparece com um pincel e um balde de tinta preta nas mãos após pintar as pontas de uma cruz vermelha, que remete ao símbolo usado em hospitais e ambulâncias. A cruz se transforma em uma suástica, símbolo do regime nazista. A charge também mostra Bolsonaro falando "bora invadir outro", fazendo alusão para a uma declaração do presidente, que incentivou apoiadores a entrar em hospitais para verificar a ocupação de leitos.

A atitude da secretaria foi interpretada por críticos do governo como uma tentativa de intimidar o trabalho da imprensa.

Ao UOL Noblat afirmou que cabe a ele [Bolsonaro] "se defender e explicar o porquê" da publicação. "A liberdade de expressão ainda não foi revogada neste país."

Ataque como defesa

Ao se defender do teor de uma mensagem publicada pelo site "O Antagonista", a Secom afirmou que a conduta do veículo era "asquerosa".

"Asqueroso é manipular as informações, distorcer e desinformar. O Antagonista oculta a data da publicação da Secom, que é de 18/05 e não 19/05, para poder mentir, enfeitar sua narrativa e enganar o leitor", afirmou a pasta, em tuíte publicado maio deste ano.

A reação ocorreu depois que "O Antagonista" ironizou um post da Secom no qual o órgão disse que, na ocasião, o país "comemorava" a marca de 100 mil vidas salvas em meio à pandemia do coronavírus. Para o site, o texto foi "um descaso com as famílias dos brasileiros mortos pelo novo coronavírus que ultrapassa os limites do escárnio".

A reportagem do UOL enviou um pedido de posicionamento para a Secom, mas não obteve resposta.

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