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Com Carlos no Planalto, Bolsonaro reduz entrevistas e privilegia religiosos

Carlos é fotografado ao lado do pai e dos ministros Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Paulo Guedes (Economia) - Reprodução/Instagram/Carlos Bolsonaro
Carlos é fotografado ao lado do pai e dos ministros Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Paulo Guedes (Economia) Imagem: Reprodução/Instagram/Carlos Bolsonaro

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, em Brasília

16/04/2020 04h01

Resumo da notícia

  • Com Wajngarten afastado, Carlos Bolsonaro capitaneia a comunicação do pai
  • Interlocutores no Planalto atribuem ao filho mudanças na estratégia midiática do presidente
  • Ele reduziu as entrevistas na porta do palácio do Alvorada
  • E passou a priorizar pronunciamentos e lives
  • Presidente também intensifica ações com evangélicos
  • Carlos Bolsonaro se filiou a partido ligado à Igreja Universal

Isolado por remar contra o consenso das autoridades sanitárias e brigar pela redução do isolamento social em meio à pandemia da covid-19, Jair Bolsonaro (sem partido) levou no fim de março um de seus filhos, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), para despachar de dentro do Palácio do Planalto.

O "zero dois" é visto pelo pai como um bom "estrategista" na comunicação e, segundo apurou o UOL, virou uma espécie de conselheiro para essa área e também voltou a liderar ofensivas nas redes sociais. Há duas semanas, o presidente vem colocando em prática uma das orientações que recebeu: ignorar a imprensa na portaria do Palácio da Alvorada.

Carlos também preencheu lacuna deixada pelo chefe da Secom (Secretaria Especial de Comunicação), Fábio Wajngarten, que teve de ficar em quarentena depois que exames apontaram que ele havia se contaminado com o novo coronavírus. Na prática, Carlos tornou-se uma espécie de "ministro da comunicação", segundo avaliaram auxiliares que vivem a rotina do Planalto.

carlos bolsonaro ao lado do pai - Foto: Reprodução/Flickr - Foto: Reprodução/Flickr
Carlos Bolsonaro traça estratégias ao lado do pai
Imagem: Foto: Reprodução/Flickr

A presença assídua do "zero dois" em Brasília foi um pedido do presidente. Na visão dele, o desempenho do vereador carioca nas mídias sociais em defesa do governo ou atacando adversários —entre os quais, a imprensa—, é um fator importante para manutenção da popularidade de Bolsonaro com a massa de seguidores fiéis.

Mas nem sempre foi assim. Ano passado, após uma série de desgastes com a ala militar do governo e com outros poderes, Carlos perdeu espaço e se recolheu. Ele chegou a ter de pedir desculpas por um post no Twitter sem autorização do pai.

Os ventos mudaram, e agora Bolsonaro sente que ter o filho por perto lhe dá confiança.

Em várias oportunidades, Bolsonaro declarou a interlocutores, em tom de gratidão, que Carlos teve participação crucial na campanha vitoriosa da eleição em 2018. Elogiosamente, o presidente costuma atribuir ao vereador a capacidade de conectar suas ideias a grupos bolsonaristas, que atuam na internet como multiplicadores ideológicos.

Um dos hábitos do presidente é acompanhar com atenção os comentários nas redes sociais. Críticas em geral costumam ser motivo de grande irritação — e a bola da vez é o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM).

Em face dos atritos com o titular da pasta da Saúde e do desgaste provocado pela bandeira anti-isolamento social, o presidente ficou incomodado com reações negativas entre os apoiadores. E também com o crescente apoio ao ministro, que deve ser demitido ainda nesta semana.

Os conselhos de 'Carluxo'

Orientado pelo filho, Bolsonaro concluiu que a melhor tática era parar de falar com a imprensa e tentar se comunicar diretamente com o que ele entende ser "o povo que o elegeu".

Desde então, o chefe do Executivo federal reduziu as declarações na portaria do Palácio Alvorada, que costumavam pautar o noticiário ao longo do dia, e passou a optar por pronunciamentos em rede nacional e visitar pessoalmente locais como farmácias, supermercados e pontos de comércio popular.

bolsonaro esfrega o nariz - Reprodução/TV Globo - Reprodução/TV Globo
Bolsonaro esfrega o nariz pouco antes de cumprimentar apoiadores durante passeio pelo DF
Imagem: Reprodução/TV Globo

Os passeios pelo Distrito Federal, que ocorreram em meio à pandemia do coronavírus, também foram interpretados como um gesto político na guerra fria com Mandetta. Ao percorrer locais públicos, Bolsonaro provocou aglomerações e contrariou diretamente as recomendações da OMS (Organização Mundial da Saúde) e do próprio Ministério da Saúde.

Um dos pronunciamentos que Bolsonaro fez em cadeia aberta de rádio e TV foi redigido, segundo reportagem do jornal "O Estado de S.Paulo", com o auxílio do filho. O discurso foi lido em 24 de março, quando Carlos já havia recobrado espaço no Planalto. Na ocasião, o mandatário comparou o coronavírus a uma "gripezinha" ou "resfriadinho" e pediu o fim do "confinamento em massa".

"No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho, como bem disse aquele conhecido médico daquela conhecida televisão", disse ele em referência ao médico Dráuzio Varella, que apresenta quadros de saúde no programa "Fantástico", exibido pela "TV Globo" às noites de domingo.

Estreitamento de laços com religiosos

Preocupado em se proteger de possíveis arranhões em sua imagem, Bolsonaro também buscou, com tutela do filho, intensificar o vínculo ao público cristão. Há duas semanas, é constante a presença cada vez mais numerosa de evangélicos e católicos na portaria da Alvorada.

Quase sempre a conversa informal com o presidente ocorre em meio a orações e louvores. Todas as interações entre o mandatário e os seus apoiadores são transmitidas ao vivo em suas redes.

Seguidores levam imagem de Nossa Senhora de Fátima para a portaria do Alvorada - Reprodução - Reprodução
Seguidores levam imagem de Nossa Senhora de Fátima para a portaria do Alvorada
Imagem: Reprodução

A estratégia coincide com a recente migração de Carlos para Republicanos-RJ, partido que é ligado à Igreja Universal e tem entre os seus quadros, por exemplo, o prefeito do Rio, Marcelo Crivella.

No último domingo de Páscoa (12), o presidente participou de uma live de celebração com pastores, padres e outros líderes religiosos.

O governo Bolsonaro teve início em 1º de janeiro de 2019, com a posse do presidente Jair Bolsonaro (então no PSL) e de seu vice-presidente, o general Hamilton Mourão (PRTB). Ao longo de seu mandato, Bolsonaro saiu do PSL e ficou sem partido. Os ministérios contam com alta participação de militares. Bolsonaro coloca seu alinhamento político à direita e entre os conservadores nos costumes.