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Acusado de fala homofóbica, ministro da Educação é elogiado por Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro elogiou o ministro da Educação em conversa com apoiadores - Carolina Antunes/PR
O presidente Jair Bolsonaro elogiou o ministro da Educação em conversa com apoiadores Imagem: Carolina Antunes/PR

Luciana Amaral

Do UOL, em Brasília

29/09/2020 14h07

Acusado de ter feito uma fala homofóbica por parte de parlamentares e na mira da PGR (Procuradoria-Geral da República), o ministro da Educação, Milton Ribeiro, foi elogiado hoje de manhã pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em conversa com apoiadores na saída do Palácio da Alvorada.

Uma apoiadora se identificou como mãe e falou que em 2018 passou por um momento difícil com as filhas na escola, porque a chamada "ideologia de gênero" era "massacrante".

A expressão é utilizada para se referir a uma linha de pensamento que seria contrária à divisão da humanidade entre masculino e feminino. Nela, os gêneros são moldados de acordo com a estrutura cultural e social dos indivíduos. Essa ideologia é considerada pelos religiosos um perigo para o mundo, uma doutrina que poria em risco a concepção de família. No Brasil, o termo costuma ser visto como uma "doutrinação da esquerda" para atacar valores morais.

A mulher falou que pensou em se mudar do Brasil com a família caso Bolsonaro não vencesse a eleição no final daquele ano, mas agora diz mandar as meninas para a escola "tranquila sabendo que tinha um governo que ia zelar pelas nossas crianças".

Em resposta, Bolsonaro afirmou que o país ainda não está "livre disso, porque é uma doutrinação", embora tenha ressaltado que a "ideologia de gênero" não é mais uma orientação governamental. Em seguida, elogiou Milton Ribeiro.

"O ministro da Educação atualmente é, por coincidência, não foi escolhido porque é evangélico, mas é uma pessoa evangélica, pastor, tem um profundo conhecimento dessas questões e sabe que mudar a educação do Brasil é como você manobrar um transatlântico, vai devagarzinho", afirmou.

"Uns 30 anos de doutrinação, porque eles ficam em cima... A gente vê pessoas aí com 30, 40, 50 anos. Pô, cara, você não está vendo que não deu certo na Venezuela, não deu certo... Na Argentina está complicando a situação, não deu certo em lugar nenhum no mundo, você insiste com essa tese ainda? A gente pode não saber o caminho do sucesso, mas sabemos muito bem qual é o do fracasso", completou o presidente.

Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo publicada na semana passada, Ribeiro atribuiu a homossexualidade de jovens a "famílias desajustadas" e afirmou que a educação sexual muitas vezes é usada para incentivar discussões de gênero. Bolsonaro não citou hoje falas do ministro ao Estadão.

"Acho que o adolescente que muitas vezes opta por andar no caminho do homossexualismo (sic) tem um contexto familiar muito próximo, basta fazer uma pesquisa. São famílias desajustadas, algumas. Falta atenção do pai, falta atenção da mãe. Vejo menino de 12, 13 anos optando por ser gay, nunca esteve com uma mulher de fato, com um homem de fato e caminhar por aí. São questões de valores e princípios", falou Ribeiro ao jornal.

A declaração levou a PGR (Procuradoria-Geral da República) a pedir ao STF (Supremo Tribunal Federal) a abertura de inquérito para apurar eventual crime de preconceito contra homossexuais por parte do ministro.

"Sua Excelência, na oportunidade, fez afirmações ofensivas à dignidade do apontado grupo social", escreveu o vice-procurador-geral da República, Humberto Jacques, na peça encaminhada ao Supremo.

Parlamentares também pedem que o ministro tenha a conduta investigada. O senador Fabiano Contarato (Rede-ES) afirmou ter entrado com representação no Supremo na quinta.

"Trata-se de um ministro da Educação homofóbico, que violenta criminosamente os princípios de respeito e a igualdade entre as pessoas consagrados na Constituição Federal. Meu repúdio, como homossexual e como cidadão, é absoluto a esse ataque preconceituoso, medieval e sórdido, que exige reação imediata de todas as instituições democráticas", escreveu, em nota.

O deputado federal David Miranda (PSOL-RJ) afirmou ter entrado com representação na PGR e defendeu o impeachment do ministro por homofobia, segundo ele.

Antes de assumir o Ministério da Educação, Milton Ribeiro trabalhava na gestão da Universidade Presbiteriana Mackenzie e era integrante da Comissão de Ética Pública da Presidência da República.

Em 15 de setembro, o ministro buscou se descolar da bancada evangélica afirmando que não representa o grupo e não está no cargo para fazer "pregação".

Após a repercussão da fala, Ribeiro disse que ela foi "interpretada de modo descontextualizado" e pediu desculpas para aqueles que se sentiram ofendidos afirmando seu respeito a "todo cidadão brasileiro, qual seja sua orientação sexual, posição política ou religiosa".

Ele também apontou que os trechos foram publicados com "omissões parciais" e compartilhados nas redes sociais, o que agravou a "interpretação equivocada", além de modificar o "sentido real" do que ele quis expressar.

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