PUBLICIDADE
Topo

Política

Paz entre Maia e Guedes mostra poder do Congresso, mas não põe fim a brigas

Rodrigo Maia e Paulo Guedes chegam para o "jantar da paz" nesta segunda-feira (5) - Gabriela Biló/Estadão
Rodrigo Maia e Paulo Guedes chegam para o "jantar da paz" nesta segunda-feira (5) Imagem: Gabriela Biló/Estadão

Luciana Amaral, Hanrrikson Andrade e Guilherme Mazieiro

Do UOL, em Brasília

06/10/2020 19h48Atualizada em 06/10/2020 19h48

A paz anunciada entre o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e o ministro da Economia, Paulo Guedes, mostra o poder do Congresso Nacional, mas não põe fim a brigas entre a equipe econômica e ala de parlamentares.

O 'jantar da paz' de ontem à noite foi articulado por ministros com bom trânsito no Congresso que tentam aproximar Maia e Guedes. O objetivo é destravar o andamento de pautas de interesse do governo no Parlamento, como o novo programa social Renda Cidadã ou Renda Brasil, que substituirá o Bolsa Família e servirá de sucessor do auxílio emergencial.

O Planalto sabe que precisa do Congresso para levar adiante o programa que Bolsonaro quer para marcar sua gestão e manter sua popularidade visando uma reeleição em 2022. Se sem o apoio de Maia nada anda na Câmara, após a rejeição do mercado financeiro e do chefe da Casa aos meios de financiamento do Renda Cidadã, então, o governo teve de reforçar de vez a relação entre Executivo e Legislativo.

No Twitter, o senador Renan Calheiros (MDB-AL), também um dos articuladores do jantar, afirmou que o encontro foi bem-sucedido e se pôde acordar uma "agenda mínima" que englobe as reformas administrativa e tributária, além da "ampliação do bolsa família", que seria o novo programa social. Ele ressaltou a importância de negociações prévias com o Parlamento e disse que "só a política pode mensurar a altura do sarrafo e as fontes de recursos".

Ainda assim, os pedidos de desculpas mútuos de Maia e Guedes não significam que as brigas acabaram. Eles têm um histórico de divergências públicas. Fora isso, Guedes tem discordado do ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, e o próprio formato do novo programa social segue sem consenso.

Havia uma expectativa de que o relatório com a criação do programa fosse apresentado nesta quarta (7) pelo senador Márcio Bittar (MDB-AC), mas, sem acordo entre Congresso e equipe econômica, ficou para a semana que vem.

"Acho que vai dar acordo, porque serviram guisado de cabrito, que todo mundo gosta", brincou um líder do governo, sob reserva, quando questionado sobre a efetividade do "jantar da paz". "Foi bom, porque um pediu desculpas para o outro. Tem rumo", acrescentou.

O próprio representante do governo no Parlamento, porém, afirmou não ter como saber como fica o restante das pautas mesmo após o jantar, pois falta conversarem com os demais parlamentares.

Um senador lembra que Paulo Guedes não é bem visto por parte dos colegas na Casa, em especial após críticas feitas ao Senado por derrubar o veto do governo que impedia aumento de salários para servidores até 2021. Um convite foi feito para que o ministro fale aos senadores e até hoje está sem resposta, segundo o senador.

"Acho que o Paulo Guedes entendeu que aquele superministro não é mais um superministro. É um ministro. E ele precisa entender como funciona [o setor público]. É diferente do mundo privado. A democracia pede que a gente tenha paciência, porque o outro tem de se posicionar, tem que mudar porque não é do seu jeito, é do jeito melhor para todos", avaliou.

Outro parlamentar considera que o Congresso é o "desaguadouro" de propostas do Executivo no sentido de que o governo deixou que o Parlamento tomasse a frente da formatação efetiva do novo programa social e de que a maioria dos textos precisa ser sempre aprovada pelo Senado ou pela Câmara.

Um ministro que ajuda na articulação política e participou do jantar confirmou que as pautas prioritárias ainda serão definidas. Agora, após a suposta pacificação entre Maia e Guedes, líderes e o governo vão definir os projetos com maior viabilidade de serem votados até o final do ano, contou na condição de anonimato.

A reforma tributária é uma das pautas prioritárias para Maia. Ele tenta terminar sua gestão à frente da Câmara em janeiro do ano que vem com este tema aprovado. O governo promete ajudar na tramitação há mais de um ano, só que não enviou todas as propostas que têm sobre o assunto. Atualmente, a reforma tributária tramita em uma comissão mista e não tem relatório pronto, nem data para ser votada.

Outra pauta reivindicada por Maia era a reforma administrativa. O texto chegou em setembro deste ano ao Congresso após o governo Bolsonaro, Maia e outros líderes concordarem com algumas diretrizes.

No entanto, o tema é incômodo para grande parte dos parlamentares por envolver servidores públicos e por ser estar em período eleitoral. Há o entendimento de que a aprovação de um projeto que modifica as carreiras de servidores pode impactar no resultado eleitoral de deputados que se lançam a prefeitos, assim como de seus aliados.

Política