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Política

FHC: Bolsonaro pensa como um militar de baixa patente que gosta de aumento

Do UOL, em São Paulo

30/11/2020 11h47Atualizada em 03/12/2020 18h10

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) disse hoje que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) não sabe se movimentar politicamente, é uma pessoa "corporativista" e tem "a visão de um militar de baixa patente que gosta de aumento de salário".

Em entrevista ao UOL, conduzida pelo colunista Tales Faria, FHC avaliou que Bolsonaro ganhou a eleição porque teve a capacidade de se comunicar com certas camadas da população.

"Acho que quando o Bolsonaro ganhou era mais fácil porque ele criticava o desastre do PT, tudo era negativo, dava a ilusão de que tinha uma visão liberal (...) Agora, você vê que não, ele é uma pessoa corporativista, tem a visão de um militar de baixa patente que gosta de aumento de salário, de governo, e não sabe se movimentar, a meu ver. Não sabe se movimentar com a ligeireza e com a verbalidade necessária para tocar em vários sentimentos", avaliou.

O ex-presidente disse ainda que o país precisa ser fiscalmente responsável e que o ministro da Economia, Paulo Guedes, "fala para o mercado financeiro", quando deveria falar para a população. "Ele não tem essa capacidade política de falar de um modo que toque nas pessoas, isso é fundamental".

Forças 'extremistas' perderam na eleição

Na avaliação de FHC, os resultados das eleições municipais demonstraram que houve "uma reafirmação da democracia" e que "as forças extremistas parecem ter perdido" —como exemplo disso, ele citou Bolsonaro e o PT.

"Vamos falar o português claro: as forças extremistas parecem ter perdido. Tanto o presidente Bolsonaro, que se manifesta muito duramente, de vez em quando, é verdade, para soluções mais de direita, quanto a presidente do PT, que nunca é extremado, mas que simboliza como se o PT fosse um partido muito radical, quando na verdade não é tanto assim", avaliou.

Questionado sobre o Centrão, apontado como o grande vitorioso do pleito, FHC disse que o presidente precisa do grupo para obter maioria no Congresso, mas que cabe ao mandatário saber manejá-lo. "Se ele entregar ao Centrão, ele es perdido também. Passa no Congresso o que ele quiser, mas depois ele perde a eleição", disse.

Elogios a Covas e ao PSDB

FHC também disse considerar bom o desempenho do PSDB nas urnas e fez elogios diretos ao tucano Bruno Covas, reeleito prefeito de São Paulo. Para ele, Covas é uma pessoa muito "afável" e que tem experiência na política.

"Para quem mora em São Paulo e para quem é do PSDB, é um bom resultado, a eleição do Covas. Isso fortalece o PSDB", disse.

Apesar de fazer elogios ao partido, FHC lembrou a necessidade de as siglas fazerem autocrítica e assumirem eventuais erros. "O PSDB tem dificuldade nesta matéria e paga preço por isso. Onde é que nós fomos realmente vitoriosos? Certamente em São Paulo. Porque o Geraldo Alckmin todos sabem que é sério. Ninguém põe duvida. O PSDB tem a tradição de ter uma certa efetividade, em São Paulo vai bem. No Rio, nunca conseguiu se firmar. No nordeste, não é nossa praça", pontuou.

Perguntado se considera Covas como um nome forte para disputar a Presidência em 2022, FHC afirmou acreditar que ainda é "muito cedo" para o prefeito, mas ressaltou que tudo dependerá de sua gestão na capital paulista. Ele destacou, então, dois nomes que acredita terem potencial para disputar a corrida pelo Planalto: os governadores tucanos João Doria, de São Paulo, e Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul.

No caso de Doria, FHC declarou ainda que ele é uma ótima liderança paulista, mas que para vencer uma eventual disputa pela Presidência o governador de São Paulo ainda precisa se "nacionalizar".

"O Brasil é muito diverso, não adianta você pensar: 'vamos pegar uma pessoa que é do meu partido e acho que pode ser candidato, o Doria'. Ele vai ter que se nacionalizar. Ele tem uma vantagem, os pais são da Bahia. Ele vai ter que 'baianizar', 'cariocar', 'gauchar', enfim, se é para expressar um sentimento nacional, você não pode ser de uma parte só, tem que atender essa diversidade do país", disse FHC.

Boulos: liderança emergente

O ex-presidente também classificou Guilherme Boulos (PSOL), adversário de Covas no segundo turno, como uma liderança emergente. "Acho que é uma liderança que está em emergência e acho bom que venham novas lideranças que contraponham contra tudo que está aí", declarou.

FHC ainda comparou Boulos ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mencionando sua dedicação às causas populares e até mesmo o seu jeito de falar.

"Ele, quando fala, me dá impressão de imitar um pouco o Lula. É o jeitão dele, só que o Lula tinha o sindicalismo por trás dele, que é uma coisa mais ampla que ocupações. Acho que o Boulos simboliza a insatisfação de muita gente com a vida na cidade grande. Vai ser uma liderança para aparecer? É possível, provável", disse.

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