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Isa Penna: Sou uma autoridade e mesmo assim eles não me veem

A deputada estadual Isa Penna (PSOL-SP) - Divulgação
A deputada estadual Isa Penna (PSOL-SP) Imagem: Divulgação

Ana Carla Bermúdez e Carolina Marins

Do UOL, em São Paulo

18/12/2020 21h56

Um dia após sofrer um episódio de assédio no plenário da Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) a deputada Isa Penna (Psol) conta que não foi procurada ou mencionada por nenhuma autoridade. Em entrevista ao UOL, ela relembrou outros momentos de assédio que viveu em sua vida política.

Eu não fui nem digna de uma menção, de uma resposta do presidente da Alesp até agora. De uma resposta do governador. Eu sou uma autoridade, eles não me veem como autoridade. Eles não conseguem ver mulher em lugar de autoridade."
Isa Penna, deputada pelo Psol

Ontem à tarde, em meio a uma sessão na Alesp, a deputada foi apalpada pelo deputado Fernando Cury (Cidadania) na altura de seus seios. Em pronunciamento, Isa afirmou que não foi a primeira e nem a décima vez que isso lhe ocorreu, inclusive no período em que foi vereadora na Câmara Municipal de São Paulo.

Segundo ela, nem membros do partido Cidadania a procuraram para falar sobre o caso. O apoio que recebeu foi das mulheres parlamentares, em especial da bancada do Psol e do deputado Carlos Gianazzi (Psol).

"A imprensa está me ligando muito, mas até agora nenhuma autoridade achou que era um caso que merecesse um telefonema, um pronunciamento. E isso mostra pra mim o valor que a vida das mulheres tem pra esses políticos", disse ao UOL.

"Essa deve ser a trigésima vez que eu passo por um assédio de teor sexual desde que entrei na Câmara Municipal principalmente. Não é só na Alesp."

Quando foi vereadora durante 30 dias em março de 2017, Isa Penna foi xingada de "vagabunda" e "terrorista" pelo também parlamentar Camilo Cristófaro (PSB) no elevador da Câmara. O caso foi amplamente divulgado na época.

"Esse vereador me assediou e depois ficou falando de mim na tribuna durante meses. E eu era assessora na época. Não podia responder, mas tive que ouvir", disse. "São homens que são herdeiros do poder no Brasil há séculos. São homens que não foram criados com limites na vida. É a minha única explicação."

Para você ter uma ideia, na Câmara Municipal tiraram foto da minha bunda e ficaram circulando em grupo de homens. Já perguntaram o meu preço."

O deputado Fernando Cury chegou a pedir desculpas, embora não pelo ato em si e sim por Isa ter se sentido "ofendida".

"Quero dizer, de forma veemente, inclusive para todas as mulheres que estão aqui, [que] eu nunca fiz isso. Mas se a deputada Isa Penna se sentiu ofendida com o abraço que eu lhe dei, eu peço, de início, desculpa por isso. Desculpa se eu a constrangi. Desculpa se eu tentei, como faço com diversas colegas aqui, abraçar e estar próximo. Se com esse gesto eu a constrangi e ela se sentiu ofendida, peço desculpas."

Olá deputado Fernando Cury, pela primeira vez, prazer em te conhecer. Ponto. Não é a sua consciência que vai definir o que são os seus atos. As consequências que seus atos têm na vida da sociedade. O vídeo mostra uma cena de assédio. Eu espero que você evolua enquanto pessoa, mas infelizmente não tem condições de estar num parlamento.
Isa Penna em resposta ao pedido de desculpas de Fernando Cury

A deputada vê esses diversos episódios de ataque como uma investida contra a presença de mulheres na política —que vem crescendo ao longo dos anos. E que também afeta negros e transgêneros que assumiram cargos no poder legislativo nos últimos anos.

"Não é só no Parlamento. No Brasil há uma ofensiva contra uma ocupação que aconteceu nas eleições de 2020, que começou nas eleições de 2018 de mulheres jovens na política."

Fora da política ela agradeceu o apoio que vem recebendo desde ontem, em especial das mulheres. É devido a esses apoios e para evitar novos episódios com outras mulheres que Isa diz estar fazendo a coisa certa ao registrar um boletim de ocorrência sobre o caso.

E reforça que, além das mulheres, é necessário que os homens também se coloquem no combate. "Eu acho que a gente está avançando nesse sentido. Cada vez mais há homens preocupados, vejo homens de todas as idades preocupados."

Embora tema que o caso da Alesp termine sem solução —como ocorreu na Câmara— a deputada disse esperar que a pressão popular incite uma resposta assertiva dos parlamentares.

Conselho do Cidadania tem apenas uma mulher

Estava prevista na noite de hoje, uma reunião do conselho de ética nacional do Cidadania analisa o caso de Cury, porém, segundo informou o presidente do partido ao UOL, Roberto Freire, não foi possível realizá-la. Ela foi marcada para a próxima terça-feira (22).

O partido já decidiu afastar o deputado. "Agora é com o Conselho de Ética. Depois findo o trabalho será com o Diretório Nacional que julgará e aplicará a punição que lhe aprouver, dentre elas a mais dura é a expulsão", disse Freire.

O Conselho de Ética do Cidadania é formado por nove titulares e três suplentes —há apenas uma mulher entre eles. Um grupo de mulheres do Cidadania também elabora um documento para pedir celeridade na análise do caso do deputado na Comissão de Ética nacional do partido.

O deputado estadual Fernando Cury (Cidadania) - Divulgação - Divulgação
O deputado estadual Fernando Cury (Cidadania)
Imagem: Divulgação

Procurada pela reportagem, a assessoria de Cury afirmou que os esclarecimentos necessários poderiam ser encontrados na nota e no pronunciamento dele na Alesp.

Em nova nota, Cury escreve não ter sido informado oficialmente pelo partido da decisão de afastamento de suas funções diretivas no Cidadania.

"Também ressalto que não houve qualquer notificação de procedimento interno do Conselho de Ética, e por isso, tão logo seja formalmente comunicado, irei apresentar a versão dos fatos, exercendo assim meu direito de defesa", concluiu.

Vídeo da sessão gravou momento do assédio

Um vídeo público da sessão mostra o momento do assédio. As imagens mostram que a deputada conversava com o presidente Cauê Macris (PSDB), apoiada no balcão do plenário, quando Cury se aproximou por trás dela. Em seguida, ele colocou e manteve as mãos na lateral da deputada, na altura dos seios.

"Eu estava de costas, só senti a mão dele escorregar na minha lateral. No momento em que eu senti, virei e falei para ele: 'Quem você acha que você é? Você está louco? Passar a mão em mim assim?' E empurrei, tirei a mão dele", relatou Penna ontem ao UOL.

A deputada disse ainda que um grupo de deputados estava bebendo antes do início da sessão e que Cury "estava com muito bafo de uísque".

Hoje ela reafirmou ao UOL que sentiu o hálito de álcool do deputado, mas reforçou que não atribui o ato do deputado à bebida. "Não acho que seja relevante, a quantidade de embriaguez. Não quero jamais partir para esse tipo de moralismo hipócrita, porque quem faz isso, faz pior sóbrio."

Comissão na Alesp também tem apenas uma mulher

Na Alesp, Isa Penna apresentou uma denúncia formal por quebra de decoro contra Cury. Em sua composição, o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Casa, que irá analisar o caso, tem apenas uma mulher. A deputada também lançou um manifesto para pedir a cassação do mandato de Cury.

À "Folha de S. Paulo", a deputada Maria Lúcia Amary (PSDB), presidente do conselho, estimou para até março uma decisão sobre as medidas que podem ser tomadas contra o deputado.

Amary disse ainda que trabalhará para que haja isenção no processo e para que a discussão não seja polarizada para "o lado ideológico e sim pela situação em si, pelo caso em si".

"Causou bastante constrangimento, imagens foram muito fortes, não só para nós políticos, mas para nós, mulheres", disse Maria Lúcia em entrevista hoje à CNN Brasil. A deputada tucana reforçou que "a situação foi grave". "Uma atitude absolutamente inadequada, inoportuna."

Após a divulgação das imagens, o deputado estadual Fernando Cury subiu à tribuna da Alesp ontem e se disse "triste e constrangido" com a repercussão do episódio, apesar de negar que tenha cometido qualquer tentativa de assédio.

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