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15 dias

Kajuru liga mortes a Bolsonaro e vê impeachment no radar se CPI for séria

Hanrrikson de Andrade, Andreia Martins e Allan Brito

Do UOL, em Brasília e em São Paulo, e colaboração para o UOL, em São Paulo

14/04/2021 11h42Atualizada em 16/04/2021 22h04

O senador Jorge Kajuru (Cidadania-GO) afirmou hoje, em participação no UOL Entrevista, que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) corre risco de impeachment se a CPI da Covid-19 "for séria e independente". Na visão dele, o governante "cometeu vários erros", agiu com "desrespeito à imprensa" e pode ser responsabilizado por parte das mortes na pandemia.

O parlamentar entrou em rota de colisão com o presidente depois de divulgar uma conversa telefônica entre eles. Nas gravações, entre outras declarações polêmicas, Bolsonaro pressiona para que os congressistas levem adiante pedidos de impeachment contra ministros do STF (Supremo Tribunal Federal). A estratégia seria criar um clima desfavorável à instalação da CPI.

Na entrevista concedida aos jornalistas Tales Faria e Luciana Amaral, Kajuru reproduziu um relato que seria do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta a fim de explicar a razão pela qual atribuiu culpa ao presidente por uma parcela dos óbitos decorrentes da pandemia.

Segundo o senador, o presidente da Pfizer, fabricante de uma das vacinas que estão sendo utilizadas em todo o mundo, teria levado um "chá de cadeira" ao ir a Brasília para uma reunião agendada com o Ministério da Saúde. Após aguardar por horas, o compromisso teria sido cancelado sem mais explicações.

"Mandetta [que foi demitido por Bolsonaro no ano passado devido a divergências de pensamento] vai na CPI e vai contar esse fato. Quando Mandetta disser isso, será motivo para investigação profunda desse caso. Você [Bolsonaro] teve chance de comprar vacina, mas não comprou. Isso provocou mortes. Mesmo que tenha sido o ministro que não quis receber [à época, a pasta era chefiada pelo general Eduardo Pazuello], a culpa é do presidente."

Para Kajuru, além dos erros em relação às tratativas para aquisição de vacinas, o presidente também falhou em condutas equivocadas durante a pandemia.

"Basta relembrar declarações feitas, entre elas a que não compraria vacina na China, que era gripezinha, que não tomaria vacina para não virar jacaré, filho dizendo para enfiar máscara naquele lugar. Ele não respeitou a ciência. Foi uma tragédia anunciada", disse.

Apesar das críticas ao presidente, Kajuru afirmou que "ainda não houve motivo cabal" para o pedido de impeachment. "Na investigação, temos que procurar um motivo cabal. Até agora, o impeachment seria ruim para o país e seria injusto."

"A CPI da Covid-19, sendo séria e independente, isso [o impeachment] pode acontecer. Erro, ele cometeu vários. Desrespeito à imprensa... Eu falei que não se trata a imprensa assim, se trata com atitudes, fazendo trabalho correto. Imprensa não vai bater por bater. Mas dessa forma é difícil. Todo dia xingar a Folha, Globo ou toda a imprensa, foram erros que, normalmente, pela liturgia do cargo você não tem como cometer."

Atrito com Flávio Bolsonaro

Após a divulgação da conversa telefônica privada entre Kajuru e Bolsonaro, o filho mais velho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), afirmou que levaria o colega de Casa ao Conselho de Ética para que sua atitude fosse investigada. O motivo seria uma suposta quebra de decoro.

Hoje, na entrevista ao UOL, Kajuru disse "ter de rir" da iniciativa de Flávio e fez uma provocação: "Nunca fui denunciado por corrupção na minha vida".

"Polícia Federal nunca foi na minha casa. Nunca serei manchete do 'Jornal Nacional' por corrupção. Quando eu for no Conselho de Ética, ele vai para explicar corrupção e eu vou para falar de gravação, que não é crime nenhum. Advogados dizem que não cometi crime. Eu estou muito tranquilo. Presidente admitiu ontem e agora cedo."

Na petição apresentada ao Conselho de Ética do Senado, Flávio argumenta que a gravação feita por Kajuru foi "clandestina" e que o diálogo divulgado no vídeo se refere à CPI da Covid-19, cuja instalação compulsória no Senado fora requerida pelo próprio Kajuru.

Questionado sobre o motivo da irritação de Flávio sobre o episódio, Kajuru respondeu que foi "porque eu não gosto dele". Segundo o senador, eles nunca tiveram relação próxima, mas Flávio teria se irritado com a posição de Kajuru sobre as denúncias de corrupção contra ele, no caso das rachadinhas na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro).

"Não temos relação nenhuma. Ele, para achar que o pai tem que ser defendido dessa gravação... quero ir para o Conselho de Ética. Então, faço essa proposta, temos que ir juntos. É vingança pessoal completamente. Rancor guardado no freezer. Mas não tenho preocupação. Até porque, se me cassarem, vou embora na maior alegria e fico livre desse chiqueiro", completou.

Bolsonaro quis falar, diz Kajuru

Kajuru disse ao UOL que não pediu a Bolsonaro que falasse sobre impeachment de ministros do STF. Na versão do senador, foi o presidente que quis abordar o assunto. "A questão do STF não fui eu que perguntei. Ele que quis falar. Eu ia falar para ele parar? Não sou assessor dele."

"Você tem de fazer do limão uma limonada. Tem de peticionar o Supremo para colocar em pauta o impeachment [de ministros] também", disse Bolsonaro ao senador. "Sabe o que eu acho que vai acontecer, eles vão recuperar tudo. Não tem CPI... não tem investigação de ninguém do Supremo", disse Bolsonaro, durante a conversa. Kajuru respondeu que já tinha entrado com pedido de afastamento do ministro do STF Alexandre de Moraes, ao que Bolsonaro respondeu: "Você é dez".

Kajuru afirmou ainda que não teve o intuito de prejudicar o presidente com a gravação, mas, sim, de amenizar a relação entre ele e os senadores.

"O sujeito que falar que eu quis prejudicar é sem cérebro. Minha intenção exclusiva foi para amenizar relação do Senado com ele. Até sábado passado, ele estava chamando todos os senadores de canalhas, [dizendo] que queriam fazer CPI para prejudicar o governo. Eu falei que os senadores querem uma CPI independente e não revanchista", completou.

Saída do Cidadania

Kajuru declarou ainda que a sua saída do Cidadania "foi um divórcio tranquilo" e não teve relação com a divulgação da conversa entre ele e Bolsonaro.

"Na questão do Cidadania, não foi pelo episódio [da gravação]. O partido escreveu uma carta aberta e respeitosa. Foi um divórcio tranquilo. Roberto [Freire, presidente do partido] sabia que eu queria sair. O partido tomou uma posição que era contra prefeitos e governadores [estarem no escopo da CPI], queria só do governo federal. Eu disse não concordo e estou fora."

Kajuru reforçou que "não foi o Cidadania que pediu para eu sair". "Eu avisei, dois meses atrás, que não queria continuar no partido. Atendi exclusivamente, por respeito e admiração a dois colegas, que esperasse um pouco. Espera tem limite. Uma hora vou explodir", completou.

O congressista não confirmou para qual legenda migrará. "Vou anunciar amanhã", disse, afirmando apenas que existe uma conversa com o Podemos.

"Há seis meses estou nesse namoro com o senador Alvaro Dias (Podemos-PR), porque é o partido que tenho mais relação. Sou amigo pessoal de todos. Tenho muito respeito ao partido. Solicitei desejo de me filiar. Vamos ver se vão aceitar. Todos partidos que você vai, tem que entrar pela porta da frente", completou.

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