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Com Mandetta e Teich na CPI, oposição busca erros da gestão Bolsonaro

Nelson Teich e Luiz Henrique Mandetta serão os primeiros a serem ouvidos na CPI da Covid - Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Nelson Teich e Luiz Henrique Mandetta serão os primeiros a serem ouvidos na CPI da Covid Imagem: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Luciana Amaral e Lucas Valença

Do UOL e colaboração para o UOL, em Brasília

03/05/2021 18h33Atualizada em 03/05/2021 18h33

A CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Covid no Senado começará os primeiros depoimentos nesta terça-feira (4), com as falas dos ex-ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, ambos médicos que saíram do governo Jair Bolsonaro (sem partido) após discordarem da condução do presidente perante a pandemia do coronavírus.

Justamente pelo fato de os ex-ministros terem virado críticos de ações do governo federal nos últimos meses, senadores independentes e da oposição, que são maioria na CPI, vão procurar revelar e reforçar eventuais erros da gestão de Bolsonaro por meio de suas falas ao colegiado.

Mandetta ficou no ministério de janeiro de 2019 a abril de 2020. Ele deixou a pasta após conflitos com o presidente em meio à chegada do vírus no país. Teich, seu sucessor, ficou cerca de um mês no cargo.

Os ex-representantes da pasta reprovavam a disseminação do uso de medicamentos sem eficácia comprovada para o tratamento da covid-19, como a hidroxicloroquina e a ivermectina, e as saídas de Bolsonaro com aglomerações, apesar dos pedidos de apoio ao isolamento social feitos por eles.

Depoimento de Mandetta

Por meio da fala de Mandetta, senadores críticos ao Planalto buscarão entender a estratégia adotada no início da pandemia pelo governo federal e expor ações que Bolsonaro porventura não tenha deixado o Ministério da Saúde executar. Esses senadores também vão atrás de revelar determinações do Palácio do Planalto à pasta que possam ter prejudicado o enfrentamento à pandemia no país.

O conflito maior no colegiado deverá ocorrer quando os governistas forem questioná-lo. A ideia será demonstrar que Mandetta estava ciente das medidas tomadas pelo Ministério da Saúde no início da pandemia. Portanto, na visão dos governistas, o ex-ministro não teria tanta credibilidade para criticar o governo depois de deixar a pasta.

Por outro lado, o governo pretende focar somente no tempo em que ele permaneceu à frente do ministério, para evitar que o depoimento se torne um palanque eleitoral ao ex-integrante ministerial, que não descarta se candidatar à Presidência da República em 2022.

A colunista do UOL Juliana Dal Piva mostrou que o ex-ministro também deve aprofundar à CPI o que relatou em seu livro, lançado no ano passado pela editora Objetiva, como a situação do trabalho no ministério e a difícil relação com Bolsonaro. Na obra, Mandetta afirma que o presidente ignorou a gravidade da situação da covid-19 e a orientação sobre isolamento social que estava sendo seguida em todo o mundo.

Aliados do Planalto enfrentam ainda uma situação inusitada perante o DEM, pelo fato de Mandetta ser filiado ao partido ao mesmo tempo em que o governo quer atrair a sigla para que fique ao seu lado nas eleições de 2022. Um dos principais governistas na CPI e um dos vice-líderes do governo no Congresso, o senador Marcos Rogério (RO), inclusive, é integrante da sigla.

Outros depoimentos

Quanto a Nelson Teich, parlamentares ouvidos pela reportagem avaliam que ele não costuma fazer críticas mais contundentes ao governo. Ao mesmo tempo, não está disposto a ser responsabilizado por atos com os quais discordava de Jair Bolsonaro, e que a CPI eventualmente considere como erros. Assim, acreditam que o impacto de seu depoimento está mais em aberto.

A oitiva de Mandetta está prevista para começar às 10h, e a de Teich, às 14h. Na quarta (5), o ex-ministro Eduardo Pazuello, um dos principais alvos da CPI, será questionado durante o dia todo. Na quinta (6), falarão à CPI o atual ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, e o diretor-presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Antonio Barra Torres.

A CPI da Covid foi criada no Senado após determinação do Supremo. A comissão, formada por 11 senadores (maioria é independente ou de oposição), investiga ações e omissões do governo Bolsonaro na pandemia do coronavírus e repasses federais a estados e municípios. Tem prazo inicial (prorrogável) de 90 dias. Seu relatório final será enviado ao Ministério Público para eventuais criminalizações.