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Todas as frases de Bolsonaro sobre a pandemia me assustam, diz Renan

Rafael Bragança, Wanderley Preite Sobrinho e Letícia Lázaro

Do UOL, em São Paulo, e colaboração para o UOL

03/05/2021 13h59Atualizada em 03/05/2021 15h26

Relator da CPI da Covid, o senador Renan Calheiros (MDB-AL) admitiu que reuniu 200 frases negacionistas do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante a pandemia. O parlamentar teve dificuldade em apontar uma das frases como a mais grave: "Todas me assustam", afirmou.

Em participação no UOL Entrevista de hoje, conduzido por Fabíola Cidral e Tales Faria, Renan defendeu ainda a convocação do ministro da Justiça, Anderson Torres, por suposta manipulação da Polícia Federal; negou a intenção de interrogar governadores na CPI; alfinetou a "tropa de choque" de Bolsonaro e falou sobre sua relação com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Negacionismo

De acordo com Renan, escolher frases negacionistas ditas pelo presidente foi um jeito encontrado por ele para iniciar as investigações.

"Como é que vai investigar, cumprir seu papel constitucional, se há omissão, se há responsabilidade de um governo, de um presidente da República, sem começar juntando as frases e suas manifestações públicas? Não há como começar diferente", afirmou.

Questionado sobre qual a frase que mais o assusta, Renan admitiu dificuldade em responder.

Olha, se você me perguntar mesmo isso, eu terei muita dificuldade em responder, porque na verdade todas me assustam.
Renan Calheiros, relator da CPI da Covid

Tropa de choque

O senador afirmou ainda que a tropa de choque do governo não contava com a instalação da CPI e, por isso, tentou obstruir os trabalhos, como por exemplo, tentando impedir que ele assumisse a relatoria.

"Eu acho que o governo precisa concentrar melhor suas energias", disse ele. "Colocar à disposição os atores que nós entendemos que precisam ser ouvidos."

A tropa de choque precisa compreender a limitação do seu papel. Eles não vão transformar as reuniões da CPI em reuniões de xingamento, de provocações. Nós vamos estar fixados na necessidade de apurar, de ganhar cada dia dessa investigação: são apenas 90 dias e precisamos produzir resultados, mesmo que preliminares e parciais.
Renan Calheiros, relator da CPI da Covid

Renan disse temer que tal "tropa de choque" transforme a "a CPI num biombo para defender o presidente, para isentar o presidente". "Isso não pode acontecer. Se o presidente for isentado, é a investigação que vai dizer."

"Nenhum governador" será chamado

Renan afirmou que "nenhum governador absolutamente" será chamado para depor na CPI porque é o que deseja "os que querem desviar o foco da comissão".

"E não sabemos ainda se teremos competência para isso. Isso tem de ser investigado pela Policia Federal e Ministério Público e não por uma CPI criada para apurar negligência e responsabilidade desse morticínio que apavora o Brasil", afirmou.

A investigação dos governadores foi a justificativa da oposição para tentar impedir que Renan fosse escolhido relator da CPI, já que ele é pai de Renan Filho (MDB), governador de Alagoas. Questionado se isso não o torna parcial, Renan disse que "não tenho nem porque responder esse tipo de indagação".

"Não há nenhuma investigação contra o estado de Alagoas, o mais transparente no Brasil (...). Se o desdobramento desta investigação precisar apurar Alagoas, não tenham nenhuma dúvida de que isso será feito com toda isenção como qualquer investigação requer", disse.

Quiseram fazer disso (...) um biombo para investigar estados e municípios para isentar o presidente da República, mas não é isso o que a sociedade quer que faça.
Renan Calheiros, relator da CPI da Covid

PF virou polícia política?

Além da convocação do atual e ex-ministros da Saúde, Renan defendeu interrogar o ministro da Justiça, Anderson Torres, sobre a suposta tentativa de Bolsonaro de transformar a PF (Polícia Federal) em "polícia política".

Delegado federal, Torres assumiu o cargo indicado por Bolsonaro há cerca de um mês, e sua primeira ação foi trocar o comando nacional da PF, substituindo Rolando de Souza por Paulo Maiurino —o terceiro diretor-geral da PF neste governo.

O senador Randolfe Rodrigues já declarou que pretende convocá-lo, e eu queria de antemão dizer que eu apoiarei a convocação porque não pode continuar pairando sobre a CPI nenhum tipo de ameaça. Muito menos a ameaça de que alguém pode transformar a PF em polícia política, isso é incompatível com qualquer estado democrático de direito, inclusive com o nosso.
Renan Calheiros, relator da CPI da Covid

Perguntas do governo na CPI

Renan também afirmou que a CPI vai incluir no seu plano de trabalho as 23 questões enviadas pelo próprio governo —por meio da Casa Civil— a seus ministérios como forma de se antecipar às questões da CPI sobre a condução da pandemia.

A tabela com as perguntas foi revelada na semana passada pelo colunista do UOL Rubens Valente. Renan disse que optou por incluir todas as 23 perguntas na CPI para não dar margem a críticas sobre ter poupado o governo Bolsonaro de qualquer questionamento.

Foi a única coisa que eu prestigiei do plano de trabalho [do governo], porque já que nós não íamos indicar direções, apenas configurar os limites do fato determinado, era muito importante que nós não deixássemos fora nenhuma daquelas questões que foram levantadas pelo governo, senão apareceria quem perguntasse para mim: 'olha, com relação a isso ou aquilo, o governo disse que estaria tendo que responder sobre uma indagação, e você como relator retirou do próprio plano de trabalho'.
Renan Calheiros, relator da CPI da Covid

Relação com Lula

Sondado nos bastidores para vice em uma chapa com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na campanha presidencial de 2022, Renan disse ter "com o presidente Lula uma relação normal, que continua" e que "não sou candidato a nada".

Sobre a proximidade com Lula, disse que tem "uma relação normal", "que, aliás, são as mesmas que eu tenho com os senadores, por exemplo, com alguns ministros, com alguns governadores de estado, com alguns deputados federais".

Questionado se apoiaria a eleição de Lula, afirmou que não conversou com o ex-presidente justamente por relatar a CPI.

"Eu considero, com a maior isenção, que não é importante esse meu encontro com o presidente Lula. Como também não é recomendável o meu encontro com o presidente da República. Acho que essas coisas desde logo precisam ficar esclarecidas", afirmou.

Criada no Senado após determinação do Supremo, a comissão formada por 11 senadores (maioria é independente ou de oposição) investigará ações e omissões do governo Bolsonaro na pandemia do coronavírus e repasses federais a estados e municípios. Tem prazo inicial (prorrogável) de 90 dias. Seu relatório final será enviado ao Ministério Público para eventuais criminalizações.