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Juliana Dal Piva

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Depoimento de Mandetta na CPI seguirá roteiro de revelações de seu livro

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta - Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta Imagem: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Juliana Dal Piva

Juliana Dal Piva é formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e possui mestrado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas. Trabalhou nos jornais O Dia, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e revista Época. Obteve oito premiações de jornalismo. Entre elas, o Prêmio Líbero Badaró de jornalismo impresso em 2014 e também foi menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Em 2019, recebeu ainda o Prêmio Relatoría para la Libertad de Expresión (RELE) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, pelo trabalho "Em 28 anos, clã Bolsonaro nomeou 102 pessoas com laços familiares".

Colunista do UOL

03/05/2021 13h30

O depoimento do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta na terça-feira (4) na CPI da Pandemia terá como uma espécie de roteiro o que ele já revelou em seu livro "Um paciente chamado Brasil - os bastidores da luta contra o coronavírus". Ele será o primeiro a depor no Senado durante o período da manhã. Em seguida, à tarde, deve falar o também ex-ministro Nelson Teich.

A coluna apurou com interlocutores do ex-ministro que ele passou os últimos dias reservado porque não quer passar qualquer impressão de que possa desrespeitar a convocação feita pelos senadores para a CPI. No entanto, essas pessoas dizem que ele pode aprofundar o que relatou em seu livro, lançado no ano passado pela editora Objetiva.

O livro foi feito a partir de depoimentos de Mandetta ao jornalista Wálter Nunes e também com base em relatos que ele manteve escrevendo diariamente sobre a situação do trabalho no ministério quando atuava no combate ao novo coronavírus e a difícil relação com o presidente Jair Bolsonaro em 2020.

Quem já leu o livro sabe, por exemplo, que Mandetta contou sobre episódios e reuniões em que Bolsonaro ignorou a gravidade da situação da covid-19 e fez questão de ignorar a orientação sobre isolamento social que estava sendo seguida em todo o mundo.

Um caso ocorreu em 15 de março de 2020, quando ocorreu uma manifestação de apoiadores do presidente em franco confronto com o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, a primeira das manifestações antidemocráticas. Mandetta relata que o major Cid, assessor de Bolsonaro, afirmou que o presidente ia cumprimentar os apoiadores na frente do Palácio do Alvorada, a despeito das orientações de evitar aglomerações, e estava convocando o seu então ministro da Saúde para estar ali a seu lado.

Mandetta disse que respondeu: "Se ele decidiu, ele que arque com as consequências. Você quer que eu faça o quê? Eu sou o ministro da Saúde. Não tenho o que fazer ali".

O ex-ministro também falou sobre a ocasião em que fez uma reunião na biblioteca do Palácio da Alvorada, em 28 de março. Bolsonaro já não acreditava nas orientações do ministério e se recusava a ver uma apresentação com a projeção de casos que apontavam, naquela época, de 30 mil até 180 mil mortes caso não fossem adotadas medidas de isolamento. Hoje o país possui mais de 400 mil mortes.

Braga Netto, então ministro da Casa Civil, e Sergio Moro, à época titular da Justiça, já tinham visto, estavam assustados, e insistiram que o presidente tomasse conhecimento. Bolsonaro ouviu tudo sem grande interesse e no final, segundo Mandetta, apenas questionou: "Você vai elogiar o [governador de SP, João] Doria?".

Depois disso, Bolsonaro, porém, passou a se cercar de outras pessoas que incentivaram o discurso contra o isolamento e as teorias, sem comprovação, sobre cloroquina. Segundo Mandetta, o presidente sempre tinha caixas do medicamento em sua mesa no gabinete. No entanto, não tinha máscaras ou álcool gel. O ex-ministro relatou no livro, ainda, que Bolsonaro determinou que o Exército produzisse cloroquina porque achava que a Fiocruz era comunista e se a instituição fizesse iria "enaltecer o comunismo".