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Senadores investem em relatos e oposição estuda meios para "humanizar" CPI

Luciana Amaral

Do UOL, em Brasília

16/06/2021 04h00

Senadores da CPI da Covid têm investido em relatos por meio de vídeos e áudios para reforçar o drama vivido pela população brasileira em meio à pandemia do novo coronavírus e questionar depoentes sobre suas responsabilidades na tragédia que já matou mais de 488 mil pessoas no país.

Foi o que aconteceu ontem, durante o depoimento do ex-secretário estadual de Saúde do Amazonas Marcellus Campêlo. O estado enfrentou um colapso hospitalar em janeiro com a falta de oxigênio para pacientes em meio ao agravamento da pandemia com nova variante do coronavírus.

O líder do MDB no Senado, eleito pelo Amazonas, Eduardo Braga, mostrou vídeo de pessoas relatando a dificuldade em comprar cilindros de oxigênio hospitalar em 26 de janeiro. Isso porque Campêlo minimizou a gravidade da crise no estado e afirmou que, na rede pública, a "intermitência de oxigênio" durou apenas dois dias: 14 e 15 de janeiro, o que não é verdade, conforme mostrou o UOL.

A declaração do ex-secretário irritou os senadores da comissão.

"Tem um vídeo aqui com datas, se me permitir. Porque eu não aguento mais: o Pazuello veio aqui e mentiu; o Elcio veio aqui e mentiu; agora vem o secretário mentir também — enquanto isso os nossos irmãos amazonenses morrendo por falta de oxigênio", pediu Braga ao presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), que liberou a veiculação.

"Então, eu peço à Mesa que mostre o vídeo, porque lá tem datas, tem datas. Não foram dois dias, pelo depoimento das pessoas. Não é possível. Toda vez é isto: "Ah, porque o estoque...". Estoque? Veja o depoimento das pessoas. Veja o que as pessoas dizem", completou.

Marcellus tentou justificar: "Uma coisa é faltar na rede de saúde, no hospital, outra coisa é o paciente que está tratando em casa porque não tem vaga no hospital tentar comprar o cilindro no mercado e ele não existir no mercado da cidade. Então, fila de compra etc..."

A declaração do ex-secretário causou revolta nos senadores. Campêlo foi criticado tanto por governistas quanto por oposicionistas.

Na audiência, Omar transmitiu áudio atribuído a uma mulher que, chorando, conta sobre o sofrimento de pacientes internados sem oxigênio e o desespero de profissionais de saúde.

Já o vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), optou por levar vídeo mostrando fila de carros de pessoas atrás de cilindros de oxigênio referente a 13 de janeiro, segundo o senador.

Ele ainda transmitiu vídeo com imagens atribuídas ao dia seguinte retratando a situação na porta de um hospital do Amazonas no ápice da crise.

Alguns senadores da oposição estudam chamar gestores de hospitais, responsáveis por funerárias e outras pessoas que possam relatar dificuldades enfrentadas na pandemia na busca de "humanizar" a Comissão Parlamentar de Inquérito, relataram parlamentares do grupo.

A intenção desses senadores é reforçar o impacto que eventuais omissões e erros na condução da gestão da pandemia pelo governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tiveram no dia a dia da população e, "sair da Esplanada, senão parece que é tudo só problema de gabinete", nas palavras de um senador entusiasta da ideia.

Há o receio, porém, de críticas a uma suposta exploração excessiva dos casos com uso político e a um desvirtuamento do objetivo da CPI — de investigar eventuais omissões e irregularidades. Nem todos os senadores e assessores do grupo concordam com a medida. Portanto, nenhum martelo foi batido.

A CPI da Covid foi criada no Senado após determinação do Supremo. A comissão, formada por 11 senadores (maioria é independente ou de oposição), investiga ações e omissões do governo Bolsonaro na pandemia do coronavírus e repasses federais a estados e municípios. Tem prazo inicial (prorrogável) de 90 dias. Seu relatório final será enviado ao Ministério Público para eventuais criminalizações.