PUBLICIDADE
Topo

UOL Confere

Uma iniciativa do UOL para checagem e esclarecimento de fatos


UOL Confere

Falta de oxigênio no Amazonas não durou apenas dois dias em janeiro

Juliana Arreguy e Beatriz Montesanti

Do UOL e colaboração para o UOL, em São Paulo

15/06/2021 14h42Atualizada em 15/06/2021 19h07

Não é verdade que a falta de oxigênio no Amazonas durou apenas dois dias em janeiro, como afirmou Marcellus Campêlo, ex-secretário de Saúde do estado, na CPI da Covid hoje (15). Campêlo inicialmente declarou que o problema havia ocorrido durante apenas os dias 14 e 15 de janeiro, mas depois reconheceu que a escassez do produto "no mercado" durou "pelo menos 20 dias".

O governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), admitiu em 14 de janeiro que a demanda por oxigênio nas redes pública e privada do estado havia se multiplicado por cinco desde 31 de dezembro, bem antes do mencionado pelo ex-secretário. E em 27 de janeiro, o UOL noticiou que o próprio Campêlo, ainda no cargo de secretário estadual de Saúde, reconheceu que havia risco de desabastecimento de oxigênio no Amazonas — ou seja, já bem depois das datas citadas por ele na CPI. Veja o que o UOL Confere checou:

Falta de oxigênio no AM não durou apenas dois dias

Na nossa rede pública estadual, nós temos registro de intermitência de fornecimento de oxigênio nos dias 14 e 15"
Marcellus Campêlo, ex-secretário de Saúde do Amazonas, em depoimento à CPI da Covid

Campêlo buscou restringir sua fala à rede estadual e aos dois dias citados, quando os estoques de oxigênio de fato se esgotaram. No entanto, ele omitiu que, bem antes disso, o próprio governo do Amazonas já tinha conhecimento do risco de falta de oxigênio. Além disso, a escassez do insumo durou bem mais que dois dias — o que o próprio Campêlo e o governo do estado reconheceram ainda em janeiro.

Uma nota publicada no site do governo do Amazonas em 14 de janeiro atribui ao governador Wilson Lima (PSC) a informação de que a demanda por oxigênio no estado "passou a ser cinco vezes maior nos últimos 15 dias" — ou seja, desde 31 de dezembro.

Em 27 de janeiro — 12 dias após a data final mencionada pelo ex-secretário — o UOL noticiou uma fala do próprio ex-secretário admitindo que Manaus não havia reduzido a demanda e que ela havia aumentado no interior do estado. A reportagem foi citada na CPI pelo presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM).

O alerta para o risco de falta de oxigênio veio ainda no dia 7 de janeiro pela White Martins, fornecedora de oxigênio, e o governo amazonense encaminhou o comunicado ao Ministério da Saúde — o que Campêlo inclusive relatou na CPI hoje. O documento mandado pela White Martins foi divulgado ainda em janeiro em reportagem da Agência Pública.

Também antes das datas citadas por Campêlo, no dia 10 de janeiro, o governador Wilson Lima fez um apelo ao governo federal e a outros estados para que doassem oxigênio: "Hoje, as empresas que fornecem oxigênio para o estado não conseguem suprir essa demanda".

Mais adiante no depoimento, Campêlo reconheceu que a crise de oxigênio "no mercado" durou pelo menos "20 dias" e que a população procurava oxigênio desde o começo de janeiro, mas continuou diferenciando o que chamou de "crise nas unidades de saúde por falta de oxigênio, ou intermitência no fornecimento, e no mercado local."

Ministério da Saúde soube de crise no dia 8 de janeiro

Nós encaminhamos esse ofício [comunicando a falta de oxigênio ao Ministério da Saúde]. (...) Meia-noite do dia 8, entre 7 e 8. Aqui, desculpa, senador, eu me equivoquei no horário: 23h45. (...) Do dia 7.
Marcellus Campêlo, ex-secretário de Saúde do Amazonas, em depoimento à CPI da Covid

Um relatório do Ministério da Saúde assinado pelo então ministro Eduardo Pazuello confirma que o ministério soube da "gravíssima situação dos estoques de oxigênio hospitalar em Manaus, em quantidade absolutamente insuficiente para o atendimento da demanda crescente" no dia 8 de janeiro.

O ministério, diz o relatório, tomou conhecimento do problema por meio de um email enviado por Petrônio Bastos, gerente executivo da White Martins na região. A mensagem de Bastos foi encaminhada primeiramente à Secretaria de Saúde do Amazonas, com o pedido de compra de volumes adicionais de oxigênio e outros fornecedores. O relatório foi revelado pela Agência Pública.

Oxigênio ficou escasso no Hospital 28 de agosto

Nós não temos registro no 28 de Agosto de ter acontecido isso [falta de oxigênio], senador."
Marcellus Campêlo, ex-secretário de Saúde do Amazonas, em depoimento à CPI da Covid

Não há confirmação de falta total de oxigênio no Hospital e Pronto-Socorro 28 de Agosto, um dos principais de Manaus. No entanto, o ex-secretário omitiu que houve relatos de que o hospital esteve à beira do colapso em janeiro, com falta de leitos e estoque escasso de oxigênio.

Em depoimento ao UOL, Júlia Marques, diretora do 28 de Agosto, relatou uma situação desesperadora. Segundo ela, no auge da crise, os médicos chegaram a colocar até três pacientes no mesmo ponto de oxigênio. A certa altura, segundo ela, para entrar no hospital era preciso levar o próprio cilindro, pois não havia mais pontos disponíveis.

Um médico que trabalha no 28 de Agosto descreveu para a Folha no dia 13 de janeiro "um cenário de guerra com soldados cansados". Também ao jornal, no dia 14, médicos relataram que o estoque de oxigênio no hospital não deveria durar até o fim daquele dia. No dia 15, o hospital desativou a triagem e deixou pacientes sem atendimento por falta de vagas.

O UOL também conversou com parentes de pacientes que passaram pela unidade de saúde. Um deles, o cantor Dani Sá, chegou a fazer uma vaquinha virtual para comprar um cilindro pelas redes sociais. Sua mãe esperava por um leito no corredor do Hospital 28 de Agosto e corriam boatos de que o oxigênio acabaria.

Em dezembro, internações já igualavam patamar da 1ª onda

Até dezembro, até o final de dezembro, os números de internações ainda não tinham chegado ao número da primeira onda. Então, somente no final de dezembro é que nós começamos a notar que havia algo diferente, alguma coisa diferente na contaminação, que estava sendo muito mais rápida.
Marcellus Campêlo, ex-secretário de Saúde do Amazonas, em depoimento à CPI da Covid

Campêlo não explicou o que classifica como "primeira onda", mas em meados de dezembro as internações diárias já estavam nos mesmos patamares de meados de abril.

Segundo dados do governo amazonense, no dia 15 de dezembro, houve 74 internações, número que seguiu crescendo dali em diante.

Na primeira onda, o estado registrou patamar parecido de hospitalizações por covid-19 em 9 de abril, com 78, e dali em diante a tendência também foi de alta.

Na última semana de dezembro, o Amazonas já registrava entre 120 e 140 internações diárias por covid-19, mesmo patamar da segunda metade de abril.

No dia 4 de janeiro, foram 241 internações, número superior ao pico da primeira onda, quando 213 pessoas foram internadas em um mesmo dia. O auge foi no dia 18 de janeiro, quando 397 pacientes que testaram positivo para covid-19 foram internados.

Internações já haviam subido 73% em dezembro

Para os senhores terem uma ideia: em dezembro tivemos 2,2 mil internações [por covid-19]; em janeiro, 7,6 mil internações."
Marcellus Campêlo, ex-secretário de Saúde do Amazonas, em depoimento à CPI da Covid

De fato, o número de internações por Covid-19 no Amazonas explodiu entre dezembro de 2020 e janeiro deste ano, mas a alta em patamares elevados já vinha de novembro.

Segundo os dados do painel da FVS (Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas), em novembro, houve 1.363 internações por covid-19.

Em dezembro, foram 2.371 internações, número um pouco superior ao citado pelo ex-secretário na CPI e que representa um avanço de 73% de um mês para o outro. A quantidade de internados por covid-19 de dezembro foi a terceira maior do ano no Amazonas, abaixo apenas dos números de abril (2.853) e maio (3.962).

Em janeiro, foram 8.188 hospitalizações, cifra também superior à citada por Campêlo. O número de internações por covid-19 no primeiro mês do ano no Amazonas foi quase quatro vezes o de dezembro e o maior desde o começo da pandemia.

Amazonas recebeu e distribuiu cloroquina para covid-19

A rede estadual não faz 'atendimento precoce', não (...) orientava o uso da hidroxicloroquina ou cloroquina para atendimento [de] covid
Marcellus Campêlo, ex-secretário de Saúde do Amazonas, em depoimento à CPI da Covid

Notas divulgadas pelo governo local mostram que a cloroquina, recebida em massa do Ministério da Saúde, foi distribuída pelo estado com o intuito de ser usado no combate à covid-19. A cloroquina e a hidroxicloroquina são comprovadamente ineficazes para covid-19 e contraindicadas para a doença, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde).

No dia 4 de maio de 2020, por exemplo, a Secretaria de Segurança Pública estadual divulgou ter iniciado a distribuição de cloroquina para o tratamento de policiais que testassem positivo para a doença. No dia 7 do mesmo mês, o governador do Amazonas, Wilson Lima, esteve na Central de Medicamentos em Manaus para acompanhar a distribuição de EPIs, insumos, testes rápidos e medicamentos para serem usados no combate à covid-19. Entre eles, estavam 110 mil comprimidos de cloroquina que seriam enviados às unidades de saúde.

Em janeiro deste ano, no início da crise do oxigênio no estado, a secretária de Gestão do Trabalho e da Educação do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, conhecida como "capitã cloroquina", esteve em Manaus junto com outros representantes da pasta. Eles se reuniram com o governador e outras autoridades locais. Na ocasião, em uma declaração, ela pediu que a população seguisse adotando medidas de distanciamento social, além de busca pelo suposto "tratamento precoce" nos postos de saúde.

"Para diminuir o número de internações, é importante que a gente possa dar aos pacientes o direito de receber essas medicações comprovadas por diminuírem a taxa e o tempo de internamento e de mortes. Se nós queremos evitar o prolongamento do colapso nos sistemas, é preciso que a gente tenha como uma das estratégias a adoção do tratamento precoce, que possui mais de 150 evidências científicas", disse Mayra na ocasião.

Governador revogou restrições em dezembro

Eu falei que as aglomerações e manifestações que ocorreram contra o decreto de restrição do governador do estado foram uma clara opção da população. Eu falei: 'A sociedade optou pela contaminação quando prefere ficar nas ruas sem seguir as recomendações farmacológicas e buscando essa contaminação'. Foi o que eu falei com as aglomerações."
Marcellus Campêlo, ex-secretário de Saúde do Amazonas, em depoimento à CPI da Covid

Indagado pelo senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) se havia dito que a população "optou pela contaminação", Campêlo declarou que a afirmação se referia ao descumprimento de restrições decretadas pelo governo amazonense no fim de dezembro.

"Apesar dos alertas, dos decretos, a sociedade fez uma escolha de manter as aglomerações, participar das confraternizações, comemorar Réveillon, fazer festas clandestinas, principalmente", declarou Campêlo em entrevista ao jornal "O Globo" no dia 15 de janeiro, em meio à falta de oxigênio no Amazonas.

No entanto, as medidas foram revogadas pelo governador Wilson Lima ainda em dezembro, menos de uma semana depois de anunciadas. No mês seguinte, o Amazonas viveu a crise da falta de oxigênio. Na segunda metade de janeiro, o estado registrou os seus maiores números de mortes por covid-19 desde o começo da pandemia.

O UOL Confere é uma iniciativa do UOL para combater e esclarecer as notícias falsas na internet. Se você desconfia de uma notícia ou mensagem que recebeu, envie para uolconfere@uol.com.br.

UOL Confere