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Assim como no Congresso, Lira e Calheiros disputam verba e poder em Alagoas

Lira e Renan: rumos diferentes em Brasília e em Alagoas de olho em 2022   - Arte/UOL
Lira e Renan: rumos diferentes em Brasília e em Alagoas de olho em 2022 Imagem: Arte/UOL

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

11/07/2021 04h00

O protagonismo e as divergências no Congresso entre o senador Renan Calheiros (MDB) e o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP), vão além de Brasília e têm um pé em Alagoas, onde as famílias disputam por mais aliados, poder e até recursos públicos.

Os dois clãs rivalizam pelo protagonismo no estado --e muito do que ocorre no Congresso pode ser uma jogada de olho em 2022.

Para mim está muito claro que existe uma rivalidade política, uma disputa de espaço político dentro do estado.
Luciana Santana, cientista política da Ufal (Universidade Federal de Alagoas)

Em Brasília, Lira e Calheiros caminham em direções diametralmente opostas no que se refere ao governo federal: enquanto o senador é relator da CPI da Covid e faz diários ataques a Jair Bolsonaro (sem partido), Lira se tornou fiador da estabilidade do presidente no poder, negando o seguimento aos pedidos de impeachment —algo que só ele poderia fazer.

Renan é histórico aliado aos governos do PT e deve apoiar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2022.

Pai e filho em disputa

Se Renan e Arthur estão hoje focados em Brasília, familiares se concentram na disputa estadual.

Renan Filho (MDB) é o atual governador de Alagoas e cotado para disputar o Senado em 2022 pelo estado --a meta é ocupar a cadeira do senador Fernando Collor (PROS) e ficar ao lado do pai.

Já Arthur tem o pai, o ex-senador Biu de Lira, como prefeito da Barra de São Miguel (cidade balneário da Grande Maceió). Biu, por sinal, disputou o governo contra Renan FiIho em 2014, mas foi derrotado em primeiro turno.

Um capítulo dessa richa que envolve o pai de Arthur e o filho de Renan chegou ao STF (Supremo Tribunal Federal), há um mês, por meio de uma ação do PP contra o governo de Alagoas.

Nela, o partido pede para que os municípios da região metropolitana de Maceió tenham direito a parte dos R$ 2 bilhões que foram pagos pela BRK pela concessão do saneamento básico na região por 35 anos. Ao todo, 13 municípios passaram a ter serviços prestados pela empresa desde 1º de julho.

Biu de Lira em recente visita a Arthur na Câmara  - Divulgação - Divulgação
Biu de Lira em recente visita a Arthur na Câmara
Imagem: Divulgação

No último dia 18 de junho, o ministro Edson Fachin negou o pedido liminar do PP para que o repasse dos recursos ao estado não fosse feito. Ao mesmo tempo, solicitou informações ao governador e à Assembleia Legislativa. Depois disso, serão pedidas manifestações da AGU (Advocacia-Geral da União) e do procurador-geral da República, Augusto Aras. Só após todos serem ouvidos, Fachin dará uma decisão.

"Se houver êxito nessa proposta, você tira um poder muito grande que hoje está concentrado no governo do estado. O manejo desses recursos acaba sendo politicamente importante do ponto de vista estratégico. Há uma rivalidade, uma tentativa de ampliação de força política dentro do estado", diz Luciana Santana.

De olho em 2022

Arthur Lira visitou Renan FIlho no dia 2 de fevereiro  - Wendell Palhares/Divugação - Wendell Palhares/Divugação
Arthur Lira visitou Renan FIlho no dia 2 de fevereiro
Imagem: Wendell Palhares/Divugação

Sem deixarem claras as pretensões políticas para o próximo ano, Arthur Lira e Renan Filho acirram ainda mais o cenário.

Aliados de Arthur sinalizam para uma provável candidatura à reeleição, mas ninguém descarta um passo maior, como a candidatura a governador. "Ele hoje está muito empenhado na presidência da Câmara. Ainda é cedo, mas na hora certa vai definir", diz um político próximo, sob anonimato.

Pesa a favor da candidatura de Arthur o fato de Renan Filho já ser reeleito e não ter --pelo menos por ora-- um nome forte para sucessão.

Já Renan, o pai, não disputará eleição porque tem mandato de oito anos, iniciado em 2019. Biu de Lira também não parece querer ser candidato no próximo ano.

MDB lidera, mas PP cresce

O MDB dos Calheiros ainda tem vantagem no domínio de municípios em Alagoas, com 38 prefeituras, contra 29 vencidas pelo PP em 2020.

"O PP já vem ampliando o número de prefeituras nas últimas eleições, mas hoje o MDB ainda é o partido que tem o maior número delas e tem o governo do estado. Ou seja, tem aí uma base eleitoral mais consistente do que a do PP. Então, quer queira ou quer não, faz parte das próprias ambições políticas do grupo de Lira tentar reduzir esse poder dos Calheiros e, consequentemente, conseguir ampliar essas bases e o domínio do poder local", explica Luciana Santana.

Se por um lado Renan tem a chave do cofre estadual na mão, Lira "cresceu" com a chegada à presidência da Câmara --que lhe rendeu não só prestígio em Brasília como acelerou a liberação de verbas e compras federais.

Em Alagoas, Lira indicou, em abril, o seu primo —o ex-deputado estadual Joãozinho Pereira— para ser superintendente da Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba) em Alagoas.

Com bom trânsito em Brasília, tem aproveitado a facilidade em liberar verbas para viajar pelo estado quando não há votações em Brasília. No fim de semana passado, por exemplo, fez entregas de máquinas compradas pelo governo federal a prefeitos —ampliando o alcance do feito em suas redes sociais.

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