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1 mês

Reverendo diz que foi filiado ao PSL e participou da campanha de Bolsonaro

Reverendo Amilton Gomes de Paula em depoimento à CPI da Covid - Pedro França/Agência Senado
Reverendo Amilton Gomes de Paula em depoimento à CPI da Covid Imagem: Pedro França/Agência Senado

Rayanne Albuquerque, Luciana Amaral e Hanrrikson de Andrade

Do UOL, em São Paulo e em Brasília

03/08/2021 13h23Atualizada em 03/08/2021 16h58

O reverendo Amilton Gomes de Paula afirmou à CPI da Covid ter sido filiado ao PSL e participado da campanha eleitoral de Jair Bolsonaro (atualmente sem partido) para a Presidência da República. Naquela época, o chefe do Executivo federal era filiado ao partido.

O religioso, que hoje presta depoimento diante da Comissão Parlamentar de Inquérito, é suspeito de intermediar a venda de supostas 400 milhões de doses da vacina contra a covid-19 da AstraZeneca ao Ministério da Saúde. A farmacêutica não havia autorizado a negociação e já havia avisado o governo para não contar com intermediários.

Durante a oitiva aos senadores, Amilton negou ter contatos políticos no Ministério da Saúde ou no Palácio do Planalto e disse ter tido acesso à pasta após encaminhar um e-mail com base em pesquisa na internet. O depoente não soube explicar o motivo pela qual houve tamanha celeridade na ponte entre o governo e os ofertantes de vacinas.

A recepção facilitada levantou suspeitas dos senadores, visto que muitas vezes nem os parlamentares conseguem agendamento com os ministérios tão facilmente como ocorreu com Amilton.

"Fizemos uma pesquisa pela internet e encaminhamos para o SVS (Secretaria de Vigilância em Saúde)", declarou o reverendo.

Eu não tinha contatos, os contatos que eu tinha eram sempre de forma formal, de forma eletrônica. É o que eu acreditava... A minha aproximação em conduzir o Dominghetti, em conduzir a Davati ou o Cristiano era de forma formal."
Reverendo Amilton Gomes de Paula

Há, no entanto, o registro de fotos de Amilton com o senador e filho do presidente da República, Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ).

O religioso também negou, sob juramento, ter ligação com a Casa Civil, ministros e parlamentares. Na sequência, o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), afirmou que pretende quebrar o sigilo telefônico e telemático de Amilton para verificar se ele está falando a verdade.

"Vêm prefeitos para cá, querem ir ao ministério, e a gente não consegue levar. Agora o senhor sai num uber, num táxi, chega ao ministério e é recebido no ministério? Me desculpe, Reverendo, mas não dá para acreditar nisso, não dá para acreditar nisso. É muito furada essa história", afirmou Aziz.

Na visão do senador Humberto Costa (PT-PE), Amilton esconde a forma como conseguiu chegar até o ministério por estar "protegendo alguém". Costa disse que a foto com Flávio Bolsonaro não é crime, mas afirmou que o reverendo "tem uma aproximação política com esse governo que aí está".

Fotos comprovam encontro para negociar vacinas

Fotos do encontro que o próprio reverendo Amilton publicou em março nas redes sociais comprovam que ele se reuniu no Ministério da Saúde para negociar vacinas supostamente superfaturadas com a pasta. A informação foi revelada inicialmente em reportagem da Agência Pública.

Em uma dessas imagens, Amilton está ao lado do cabo da Polícia Militar de Minas Gerais e vendedor da empresa Davati Medical Supply, Luiz Paulo Dominghetti, do então diretor do Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis, Lauricio Monteiro Cruz, e de Hardaleson Araújo de Oliveira, que atua como major da Força Aérea Brasileira.

Dominghetti relatou ter tido reunião com Lauricio ao lado de representantes da Senah na primeira vez em que esteve no ministério.

Amilton teria feito o contato político para que, ao lado de Dominghetti, conseguissem o encontro com Lauricio, segundo o policial. Como vacinas não eram a área de Lauricio, este teria dito que encaminharia os vendedores ao então secretário-executivo da pasta, Elcio Franco, responsável por essas aquisições, contou Dominghetti.

Quem é Amilton Gomes de Paula

Apontado como intermediador das supostas vendas de vacinas da AstraZeneca em que há suspeita de superfaturamento, Amilton Gomes de Paula é fundador e presidente da Senah (Secretaria Nacional de Assuntos Religiosos), entidade não governamental.

Segundo Dominghetti à CPI, foi Amilton quem o ajudou a conseguir marcar reuniões no Ministério da Saúde para apresentar a proposta de milhões de doses de vacina em fevereiro deste ano.

Além de ter participado da tentativa de venda da AstraZeneca para o governo federal, a entidade do reverendo também teria oferecido doses para algumas prefeituras e estados. No entanto, durante o depoimento à CPI, Amilton negou a informação.

Em cartas timbradas da Senah e assinadas por Amilton, a entidade costumava usar logotipos da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e da ONU (Organização das Nações Unidas), entre outras instituições.

"Tem um documento aqui que o senhor diz: 'Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários, uma organização sem fins lucrativos e de apoio humanitário com atuação em mais de 190 países, reconhecida pela Organização das Nações Unidas e pela Confederação Nacional dos Bispos do Brasil'", disse o vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

Questionado por senadores, Amilton admitiu não ter autorização oficial para tanto.

* Com a colaboração de Gabriel Toueg

A CPI da Covid foi criada no Senado após determinação do Supremo. A comissão, formada por 11 senadores (maioria é independente ou de oposição), investiga ações e omissões do governo Bolsonaro na pandemia do coronavírus e repasses federais a estados e municípios. Tem prazo inicial (prorrogável) de 90 dias. Seu relatório final será enviado ao Ministério Público para eventuais criminalizações.