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1 mês

Braço direito de Pazuello diz que teria comprado Pfizer 'se pudesse'

Fábio Castanho e Hanrrikson de Andrade

Do UOL, em São Paulo e em Brasília

05/08/2021 11h29Atualizada em 05/08/2021 13h53

Apontado como homem de confiança do ex-ministro Eduardo Pazuello, o empresário, produtor rural e ex-deputado Airton Soligo, conhecido como "Airton Cascavel", disse hoje à CPI da Covid que, "se pudesse", teria levado adiante as negociações com as farmacêuticas Pfizer e Janssen, no ano passado, para compra de vacinas.

"Não fui omisso, fiz minha parte. Quando falam da vacina, eu chego a dizer o seguinte: se eu tivesse poder de decisão que as pessoas muitas dizem, eu teria comprado, mesmo não podendo comprar como a lei dizia [na época], eu teria comprado a Pfizer, a Janssen, e estaria aqui hoje respondendo porque teria comprado."

Na visão dele, que ocupou cargo de assessor especial em parte da gestão de Pazuello à frente do Ministério da Saúde, os imunizantes deveriam ter sido adquiridos à revelia de restrições burocráticas e/ou orçamentárias.

A declaração de Cascavel é um posicionamento que vai contra a postura adotada à época pelo Ministério da Saúde. A farmacêutica Pfizer, por exemplo, passou meses tentando criar um canal efetivo de diálogo com o governo Jair Bolsonaro (sem partido).

Ofertas da Pfizer para compra de vacinas foram ignoradas, segundo apuração da CPI da Covid. No mesmo período, que compreende o segundo semestre de 2020, o Executivo acelerava a defesa entusiástica do uso da cloroquina e de outros medicamentos sem eficácia no tratamento do coronavírus.

A tese de que houve omissão por parte do governo federal e erros graves na condução de políticas públicas de enfrentamento à pandemia abrange o principal escopo de investigação da Comissão Parlamentar de Inquérito, no Senado Federal.

Antes de ser nomeado assessor especial do ministro da Saúde, em junho de 2020, Cascavel atuou por vários meses sem qualquer tipo de vínculo formal. Interlocutores baseados nos estados e municípios chegaram a se referir ao empresário como "ministro de fato" durante a gestão Pazuello.

"No dia 22 de maio o Pazuello assume [interinamente o cargo] e apenas no dia 26 maio ele ratifica o convite? Nos meus documentos que entreguei faltava a desvinculação do cargo de administrador de pequena empresa que tenho, fui solicitar mudanças e cartórios estavam fechados. Isso levou mais de uma semana e é encaminhado para a Casa Civil e meu nome deve ter sofrido uma rejeição que fez com que fosse nomeado efetivamente em 24 de junho."

Cascavel é amigo pessoal do ex-ministro da Saúde e, apesar de não ocupar cargo algum na estrutura da pasta, participou de reuniões e agendas oficiais. Tais fatos foram revelados pela imprensa no ano passado e, em reação a críticas, Pazuello decidiu nomeá-lo assessor especial, cargo que ocupou de junho de 2020 a março de 2021.

Politização

No depoimento, Cascavel disse que a politização sobre as vacinas atrapalhou o enfrentamento da pandemia.

"O grande problema foi a politização, se politizou essa questão [da vacina], a questão do Butantan. Não falavam da importância da Fiocruz. E ali era interlocução política", disse.

"Se politizou de todos os lados. Não posso afirmar [de quem partiu a politização]."

A CPI da Covid foi criada no Senado após determinação do Supremo. A comissão, formada por 11 senadores (maioria é independente ou de oposição), investiga ações e omissões do governo Bolsonaro na pandemia do coronavírus e repasses federais a estados e municípios. Tem prazo inicial (prorrogável) de 90 dias. Seu relatório final será enviado ao Ministério Público para eventuais criminalizações.