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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sérgio Reis apostou no berrante, mas ficou mais triste que o Chico Mineiro

Sergio Reis: Como o repertório musical do cantor ajuda a entender sua relação com a política  - Arte/UOL/Divulgação
Sergio Reis: Como o repertório musical do cantor ajuda a entender sua relação com a política Imagem: Arte/UOL/Divulgação

Matheus Pichonelli

Colunista do UOL

22/08/2021 04h00

O boiadeiro da música virou menino da porteira. Aos 81 anos, Sérgio Reis parecia o garoto de rosto trigueiro que corre lá pras bandas de Brasília abrindo as porteiras do gado selvagem.

Sua figura seria avistada de longe por quem viajasse pela estrada. Em 7 de setembro, dia da independência, se tudo corresse bem, Jair Bolsonaro tocaria o berrante e, quando a poeira baixasse, jogaria uma moeda para o cantor sair pulando, agradecido, pedindo que Deus acompanhasse o nosso presidente naquele sertão afora.

Neste texto, o colunista do UOL comenta a partir de trechos do repertório do cantor Sérgio Reis o envolvimento do artista com a política após aparecer em vídeo promovendo ataques ao STF (Supremo Tribunal Federal). Entenda o caso e confira as canções nos links ao longo do texto.

A visita da Polícia Federal à sua casa deixou a história real mais triste que a do Chico Mineiro.

Ninguém mandou trocar seu ranchinho amarradinho de ciopó por uma aventura nos bangalôs da cidade. Lá onde a comitiva sem esperança tocaria uma moda ligeira que já virou uma doideira. Assanha o povo e não faz ninguém dançar.

O plano era carregar as jamantas e ir até a capital mostrar a sua grande dor com a marcha do progresso. A dor, no caso, não seria cantada, mas curada tirando os ministros do STF da reta do presidente. A festa seria boa, mas antes não tivesse ido.

É provável que agora até seus parentes o estejam criticando.

Nos pronunciamentos e entrevistas para justificar os planos, Sérgio Reis tentou provar que panela velha também ferve. Não temia ser preso porque não é frouxo, nem mulher. Errou feio. Errou rude. Errou tanto que nem sendo madura e distinta dava para perdoar. Já não interessa se ele é coroa.

Em uma live, Sérgio Reis ouviu de um apoiador do presidente que poderia encostar a cabecinha naquele ombro virtual e chorar. Mostrou que seu coração não é de papel. É igualzinho ao de qualquer ministro do Supremo que quer arrancar do cargo no tapa. Sofre como ele. Por que fazer chorar assim?

Sem nenhum professor, aprendeu a lição: em tempos de redes sociais, o áudio do Zap é um berrante que chama para a briga até quem tem cavalo preto.

Pra curar despeito, não adianta meter pinga no peito para sufocar o coração.

O que cura despeito não é pinga nem goteira. É o inquérito do Alexandre de Moraes, que calou o violão e acabou com a festa antes que ela acabasse em tiroteio.

Sérgio Reis poderia estar em casa, tranquilo, com seu pedaço de couro e a companhia de filhos, netos e noras.

Na baixada não sentiria prazer maior do que ver a rolinha fazer caracol no areião e piar ao fim da tarde.

É que a vida de casado às vezes enjoa e a porta do mundo, aberta, faz a alma despertar. Era hora de pegar o laço e não se entregar.

Como na modinha com seu amigo Pirilampo da novela "O Rei do Gado", Sérgio Reis se gabou em voz alta do "purso" e da destreza pra dar pernada, fazer voar chapéu, "alevantar" e ver a turma cair. "Faço isso pra dar trabalho a polícia enquanto que a morte não lembra de mim", canta.

Por causa da fantasia, o velho Saracura agora é notícia, meme, alvo do escrutínio das autoridades e do público que não sabia de sua versão pelego grande que é pura lã de carneiro.

Sérgio Reis já não pode estar em piedade pela manhã. Como ele, seu cavalo, relinchando campo afora, certamente também chora na mais triste solidão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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