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Punição de Doria a coronel vira arma de bolsonaristas para divulgar ato

João Doria (PSDB), governador de São Paulo, postou vídeo com o coronel Aleksander Lacerda em inauguração de Batalhão de Ações Especiais de Sorocaba, em dezembro de 2020 - Reprodução
João Doria (PSDB), governador de São Paulo, postou vídeo com o coronel Aleksander Lacerda em inauguração de Batalhão de Ações Especiais de Sorocaba, em dezembro de 2020 Imagem: Reprodução

Igor Mello

Do UOL, no Rio

26/08/2021 04h00

Levantamento feito pelo UOL mostra que as redes bolsonaristas estão utilizando a punição ao coronel da PM de São Paulo Aleksander Lacerda para inflamar a militância —incluindo policiais— a comparecerem à manifestação convocada pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Lacerda foi afastado do cargo de comandante do CPI-7 (Comando de Policiamento do Interior-7) pelo governador João Doria (PSDB) após o jornal O Estado de S.Paulo revelar que ele havia feito uma série de posts de caráter político-partidário —o que é ilegal para policiais da ativa. Recentemente, ele postou convocações para o ato marcado para 7 de setembro, na avenida Paulista.

Segundo cruzamento feito pelo UOL na ferramenta CrowdTangle, as discussões sobre o 7 de Setembro geraram 1,28 milhão de interações no Instagram e 963 mil no Facebook entre segunda-feira (23) e a tarde de terça-feira (24). Parte considerável dos posts repercutia a punição a Lacerda.

O discurso foi repercutido inclusive pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), terceiro filho do presidente. Uma imagem na qual Doria é chamado de "sacripanta" foi o post com mais engajamento no Instagram (com 171.950 interações até a tarde de terça) e o terceiro com mais interações no Facebook (58.938).

Os posts mais influentes sobre a manifestação foram feitos por figuras de proa do bolsonarismo —além de Eduardo Bolsonaro, o pastor Silas Malafaia, os deputados federais Cabo Junio Amaral (PSL-MG), Carla Zambelli (PSL-SP), Alê Silva (PSL-MG) e Filipe Barros (PSL-PR) fizeram posts sobre a punição ao coronel da PM-SP.

Entre as centenas de postagens, há ataques ao STF (Supremo Tribunal Federal) e ao Congresso Nacional, e também a adversários de Bolsonaro, como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Para Pablo Ortellado, professor de Gestão de Políticas Públicas da USP e estudioso do discurso político nas redes sociais, a narrativa em torno da punição a Lacerda inflama a base bolsonarista por conta da narrativa criada pelo presidente.

Nas palavras de Ortellado, Bolsonaro "se apresenta como um líder populista de mãos atadas". "Por isso esse apelo aos militares, sejam os das três Forças [Armadas] ou às PMs", diz o professor. "Obviamente a estratégia dele é forçar uma situação onde tenha um pretexto para essa intervenção dos militares."

PMs na política insuflam tropa

Além do deputado federal Cabo Junio Amaral, diversos outros políticos oriundos das PMs fizeram coro às críticas contra Doria por conta da punição ao coronel.

Alguns têm insuflado policiais da ativa a irem a protestos —que defendem o impeachment de ministros do STF e colocam em xeque a credibilidade do sistema eleitoral.

Apenas no Facebook, 36 políticos que usam patentes militares se manifestaram sobre o assunto.

Segundo Frederico de Almeida, professor do Departamento de Ciência Política da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e coordenador do Laboratório de Estudos de Política e Criminologia, a manifestação política do coronel Aleksander Lacerda —que ocupa a mais alta patente na maior corporação policial do país— representa um novo patamar na ameaça de bolsonarização das polícias.

Objetivamente, é uma situação muito grave. É uma quebra de disciplina em um contexto muito sério, com uma questão política como pano de fundo
Frederico de Almeida, professor da Unicamp

Almeida lembra que a falta de punição ao general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, por ter participado de um ato político com Bolsonaro pode ter servido de senha para que membros do oficialato das PMs também fizessem manifestações de caráter partidário.

Para o professor, os governadores e comandantes precisam ser rigorosos para evitar um clima de insubordinação generalizado.

"Podemos chegar a um ponto de não retorno. Os policiais vão voltar para o quartel? Vão deixar de se expressar publicamente se fizerem isso e nada ocorrer? Provavelmente não", analisa Almeida.

Policiais já miram candidaturas em 2022

Já Renato Sérgio de Lima, presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, diz crer que a repercussão da história é dada, em parte, por policiais que já deixaram a ativa e se alinharam ao bolsonarismo como projeto político —caso dos coronéis da PM-SP Homero Cerqueira (que foi presidente do ICMBio) e Ricardo Augusto Nascimento de Mello Araújo (atual presidente da Ceagesp), ambos já agraciados com cargos no governo Bolsonaro.

Para Lima, há uma disputa política dentro do campo bolsonarista como pano de fundo da manifestação.

"Da mesma forma que os partidos pequenos vão ter que fazer federações ou composições, essas lideranças sabem que os policiais não vão se eleger na mesma quantidade que em 2018, porque não são puxadores de voto. Aí é uma guerra dentro do próprio campo para saber quem lidera o movimento, além dos nomes que querem entrar na política, como o Mello Araújo e o Homero", lembra.

"No fundo, a gente percebe que o que está acontecendo é uma disputa por capital político."

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