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CPI: Senador quer convocar ex de Bolsonaro por suposta atuação com lobista

Luciana Amaral

Do UOL, em Brasília

03/09/2021 17h39Atualizada em 03/09/2021 19h07

O senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) quer convocar à CPI da Covid Ana Cristina Siqueira Valle, segunda mulher de Jair Bolsonaro (sem partido), após mensagens apontarem suposta atuação dela a pedido de um lobista que está na mira da comissão.

"Mensagens eletrônicas extraídas de aparelho celular em posse desta Comissão Parlamentar de Inquérito indicam que, a pedido do lobista Marconny Faria, a senhora Ana Cristina Siqueira Valle, ex-mulher do atual presidente da República, entrou em contato com o Palácio do Planalto para exercer influência no processo de escolha do Defensor Público-Geral Federal junto ao então ministro da Secretaria Geral da Presidência e atual ministro do TCU, Jorge Oliveira", diz trecho do requerimento de Vieira.

Segundo a assessoria do parlamentar, o requerimento já foi protocolado. Como a CPI não deve trabalhar na semana que vem devido ao feriado de 7 de setembro e às manifestações previstas, a expectativa é que o pedido seja analisado pelos membros da comissão somente a partir do dia 14 deste mês.

O senador afirma que as mensagens fazem parte de material sob sigilo enviado pelo Ministério Público Federal no Pará obtidas em investigação sobre o desvio de recursos públicos em órgão ligado à pasta da Saúde.

Marconny Faria é tido por senadores da CPI como lobista da Precisa Medicamentos, empresa que intermediou negociação da compra da vacina indiana Covaxin com o Ministério da Saúde. Após denúncias de uma série de supostas irregularidades, o contrato acabou cancelado pelo governo federal.

Para Alessandro Vieira, a "relação próxima [de Marconny] com a ex-esposa do senhor Jair Bolsonaro deve ser amplamente esclarecida, com vistas a examinar potencial atuação ilícita de ambos no contexto da pandemia".

Marcoony foi convocado pela CPI para depor esta semana. No entanto, inicialmente, apresentou atestado médico de 20 dias alegando dor pélvica para não comparecer. Após desconfianças dos senadores sobre seu real estado de saúde, o médico responsável pelo atestado cancelou o documento por notar "simulação do paciente", informou o vice-presidente da comissão, Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

Ainda assim, apesar de buscas pela Polícia Legislativa, até o momento, Marconny não foi encontrado para depor.

A ministra do STF (Supremo Tribunal Federal) Cármen Lúcia negou o pedido de condução coercitiva de Marconny feito pelo colegiado do Senado. A magistrada também vetou a retenção do passaporte e a proibição do lobista de deixar a cidade onde mora sem autorização prévia.

Cármen Lúcia classificou as solicitações feitas pela Comissão Parlamentar de Inquérito como "impertinentes".

A ministra havia concedido anteriormente um habeas corpus que autoriza Marconny a ficar em silêncio diante de questões que o possam autoincriminar na oitiva à CPI da Covid. Ao mesmo tempo, a ministra indeferiu o pedido da defesa para que o suposto lobista da Precisa Medicamentos não comparecesse para depor.

Atualmente, Ana Cristina Siqueira Valle trabalha no gabinete da deputada federal Celina Leão (PP-DF), com salário bruto de R$ 8.116,08 mais auxílio de quase R$ 1 mil.

O ex-assessor de Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) e ex-funcionário de Ana Cristina, Marcelo Luiz Nogueira dos Santos, contou que no período em que foi funcionário do filho mais velho do presidente Jair Bolsonaro na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio) era obrigado a devolver mensalmente 80% de seu salário —mecanismo conhecido como rachadinha.

De acordo com Nogueira, ele precisava entregar esses valores em dinheiro vivo nas mãos de Ana Cristina. Isso ocorreu todos os meses ao longo de mais de quatro anos, disse.

A CPI da Covid foi criada no Senado após determinação do Supremo. A comissão, formada por 11 senadores (maioria é independente ou de oposição), investiga ações e omissões do governo Bolsonaro na pandemia do coronavírus e repasses federais a estados e municípios. Tem prazo inicial (prorrogável) de 90 dias. Seu relatório final será enviado ao Ministério Público para eventuais criminalizações.