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Após ataque na ONU, governadores se reúnem por vacina e cutucam Bolsonaro

Governadores Helder Barbalho, Wellington Dias, João Doria, Renato Casagrande e Camilo Santana em coletiva de imprensa - Divulgação/Governo do Estado de São Paulo
Governadores Helder Barbalho, Wellington Dias, João Doria, Renato Casagrande e Camilo Santana em coletiva de imprensa Imagem: Divulgação/Governo do Estado de São Paulo

Henrique Sales Barros, Lucas Borges Teixeira e Sara Baptista

Do UOL, em São Paulo

22/09/2021 17h06

A reunião de cinco governadores hoje (22) em São Paulo, para celebrar a compra de vacinas, ganhou contorno crítico ao governo federal. Um dia após ataques do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na ONU (Organização das Nações Unidas), os líderes estaduais destacaram a importância da atuação local frente à União.

Em discurso ontem (21), Bolsonaro transferiu a responsabilidade pelas dificuldades econômicas dos brasileiros atualmente aos prefeitos e governadores, que teriam "obrigado as pessoas a ficarem em casa". A fala gerou descontentamento nos estados, inclusive entre apoiadores do presidente.

A reunião foi realizada a convite de João Doria (PSDB-SP) no Instituto Butantan para marcar o envio de 2,5 milhões de doses da CoronaVac a cinco estados. Estavam presentes quatro governadores de três regiões e diferentes partidos —inclusive dois petistas, partido já criticado pelo governador paulista. São eles: Camilo Santana (PT-CE), Wellington Dias (, PT-PI)Helder Barbalho (MDB-PA) e Renato Casagrande (PSB-ES).

Mato Grosso também realizou a compra, mas o governador Mauro Mendes (DEM) não viajou para São Paulo. Segundo o Butantan, o Pará receberá 1 milhão de doses; Espírito Santo e Mato Grosso, 500 mil doses cada; Ceará, 300 mil; e o Piauí, 200 mil.

A maioria desses estados já está na fase de vacinação de adolescentes, que só podem receber Pfizer por recomendação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), e a CoronaVac deverá ser usada em adultos que ainda não se vacinaram e na terceira dose.

Destaque para os estados com indiretas ao governo

A reunião teve um tom crítico ao governo federal. Sem citar nominalmente Bolsonaro, os governadores abordaram a necessidade de procurarem alternativas para a vacinação frente à demora de aquisição de mais vacinas pelo Ministério da Saíde.

Como aceitar como natural o Butantan, brasileiro, ter vacinas, o Brasil precisando de vacinas, e a gente não ter uma manifestação para comprar vacinas?"
Wellington Dias (PT), governador do Piauí

Após a conclusão da entrega de 100 milhões de doses de CoronaVac, na semana passada, o governo federal não manifestou mais interesse sobre novos lotes.

"Quando tivemos um momento que não seria dado esse passo [compra pelo governo federal], nós, governadores, [demos], e tenho certeza que outros estados também darão esse passo", declarou.

Segundo ele, o Piauí sofre com uma defasagem de 500 mil doses dentre as entregas do ministério. O mesmo acontece com o Pará, que diz precisar receber 1 milhão de doses, com base no cálculo populacional local.

"O Brasil deve ser liderado no campo da saúde pelo Ministério da Saúde. Nós, governadores, dialogamos durante todo esse período para garantir a chegada na ponta dos benefícios da saúde. Mas, ao mesmo tempo, tomamos a decisão política e administrativa que não devemos ficar apenas a aguardar seja o governo federal ou a iniciativa privada", declarou Barbalho.

"Nós, governadores, não descansaremos até vacinarmos toda a população de nossos estados. E é por isso que estamos aqui hoje", concordou Santana.

O UOL entrou em contato com o Ministério da Saúde e aguarda posicionamento.

Discurso de Bolsonaro desagradou até apoiadores

A reunião, marcada desde a semana passada, se dá um dia depois do discurso de Bolsonaro na ONU. Na tribuna, ele atribuiu a perda do poder aquisitivo do brasileiro aos lockdowns implementados localmente.

No Brasil, para atender aqueles mais humildes, obrigados a ficar em casa por decisão de governadores e prefeitos e que perderam sua renda, concedemos um auxílio emergencial de US$ 800 para 68 milhões de pessoas em 2020."
Presidente Jair Bolsonaro, na ONU, ontem

O presidente também defendeu o tratamento precoce, com remédios que não têm eficácia comprovada contra a covid-19, defendeu a vacinação, mas destacou que ela não é obrigatória, e criticou a exigência de passaporte sanitário.

O discurso não pegou bem nem entre os governadores que apoiam Bolsonaro. Segundo o UOL apurou, a reação no grupo de WhatsApp que os líderes estaduais participam foi instantânea, com diversas críticas ao presidente.

"Foi uma coisa que nunca vimos na história do país e da ONU um presidente subir à tribuna para falar mal do seu próprio país", afirmou Dias à imprensa após a coletiva.

Em uma tentativa de demonstrar força e poder de conciliação, Doria, presidenciável, não deixou de destacar a proeza de ter reunido forças de diferentes regiões e partidos.

Na abertura, disse que gostaria de "registrar a grandeza e o gesto desses governadores na proteção da sua população".

Entre os compradores, só não estava presente Mendes, apoiador de Bolsonaro. Doria não disse o motivo da ausência, mas afirmou que os dois deverão jantar juntos nesta semana.

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