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Agro e religião alimentam perfil bolsonarista em Anápolis, diz ex-prefeito

Antonio Gomide (PT) em frente ao painel com a foto do Parque Ambiental Ipiranga, inaugurado em sua gestão como prefeito de Anápolis; imagem fica em seu gabinete na Assembleia Legislativa de Goiás - Juliana Arreguy/UOL
Antonio Gomide (PT) em frente ao painel com a foto do Parque Ambiental Ipiranga, inaugurado em sua gestão como prefeito de Anápolis; imagem fica em seu gabinete na Assembleia Legislativa de Goiás Imagem: Juliana Arreguy/UOL

Juliana Arreguy

Do UOL, em Anápolis (GO)

06/12/2021 04h00

Terceiro maior município de Goiás, com mais de 395 mil habitantes, Anápolis é uma cidade "muito religiosa, com seus preconceitos", na visão do ex-prefeito e hoje deputado estadual, Antonio Gomide (PT). E é esse um dos fatores que, ainda segundo ele, a torna tão visada pelos políticos —incluindo o presidente Jair Bolsonaro (PL), que cumpriu agenda na cidade nesta quarta-feira (1º).

Neste ano, a agenda oficial de Bolsonaro indica que ele visitou 49 municípios brasileiros (de um total de 5.570), sendo Anápolis um deles. A cidade goiana foi destino do presidente em duas ocasiões e apresenta uma base eleitoral a ser mantida —só ali, ele teve mais de 70% dos votos no primeiro turno das eleições de 2018, e 79% no segundo turno.

"Não só em Goiás, mas também no Mato Grosso, existe um alinhamento com a agropecuária, o perfil caracterizado como bolsonarista tem uma densidade maior aqui na região", disse Antonio Gomide ao UOL.

Gomide ouviu durante muito tempo que não tinha chances nas eleições municipais: "A tônica era a mesma, de que o PT nunca governaria".

Mas o petista foi eleito em 2008 e reeleito em 2012 —nesta segunda vez, ainda no primeiro turno com 88,93% dos votos válidos. Ele se licenciou em 2014 para disputar o governo do estado e deixou a prefeitura com o vice João Gomes (então no PT).

Nas eleições municipais de 2016, Gomes foi o candidato mais votado do primeiro turno (29,92% dos votos), mas acabou derrotado por Roberto Naves (então no PTB e hoje do PP) no segundo turno, por 51,23% contra 48,77%. Desde então, o PT não conseguiu retomar a administração do município, o que Gomide credita como fruto do avanço da Operação Lava Jato.

"É um cenário que afeta todo o aspecto de uma eleição. Isso interfere na vontade de votar, as pessoas diziam que foram enganadas, que podia ter sido diferente. Isso entra muito forte na TV, nas redes sociais, onde o debate é feito de uma forma que todos estão com a razão e a verdade", avaliou. "Isso influenciou não só Goiás, Anápolis, mas diversas outras cidades e estados."

Em 2020, Gomide candidatou-se novamente à prefeitura e disputou o segundo turno contra o atual prefeito. Com 38,72% dos votos, foi derrotado —Naves foi reeleito com 61,28%. Para o deputado, foi mais um resultado na conta do antipetismo.

"O contexto importa, de como foi trabalhada a campanha, de ser contra o PT, de querer o destruir o PT, mesmo em nível nacional. Perdemos a eleição, mas fomos para o segundo turno, não é?", pontuou.

Terra de Caiado tem religião como pauta política

Anápolis nasceu da devoção à Sant'Ana e tem 47,9% de sua população declarada como católica. Apesar de os evangélicos corresponderem a 29,03%, a cidade foi apelidada de "capital evangélica", o que Gomide explica ter relação com a quantidade de novas igrejas construídas nos últimos anos.

"De noite, as reuniões não são em bares, mas sim nas igrejas. Existe um apelo por lazer. Politicamente a igreja também ocupa um espaço de quarto poder", afirmou.

Na última semana, entre os dias 25 e 26 de novembro, Anápolis sediou o 2º Congresso Brasileiro de Direito e Religião, promovido pelo IBDR (Instituto Brasileiro de Direito e Religião), formado por católicos e evangélicos.

A união dos cristãos em torno de agendas em comum caiu como uma luva na cidade que tem, por tradição, uma mistura das religiões em suas chapas eleitorais.

"A igreja é muito colocada em todas as eleições. Uma chapa tem que ter um católico e um evangélico. Se o candidato for católico, o vice tem que ser evangélico. É uma tradição, um costume", explicou Gomide.

Convidado a participar do congresso, o governador goiano Ronaldo Caiado (DEM), nascido em Anápolis, fez uma breve aparição na abertura do evento, onde teceu elogios à cidade e traçou um paralelo de sua construção com a raiz católica e a chegada de missionários evangélicos, que ergueram o primeiro hospital da região.

Caiado também aproveitou a oportunidade para elogiar o ex-ministro da Justiça e ex-advogado-geral da União (AGU) André Mendonça, indicado de Bolsonaro aprovado pelo Senado para uma vaga no STF (Supremo Tribunal Federal).

"Goiás deve muito a ele porque ele foi peça fundamental da renegociação das dívidas do estado", disse o governador.

Na avaliação de Gomide, as dívidas tornaram Caiado, antes apenas aliado, um refém do governo federal.

"O que percebemos é que ele é refém do governo federal, e não por acreditar nele. O regime de recuperação fiscal, que é a forma de renegociação da dívida do estado, depende da assinatura do Tesouro Nacional", disse.

Depois de declarar que Caiado e Bolsonaro "são uma coisa só", o ex-prefeito considerou precoce qualquer análise sobre quem será o próximo prefeito de Anápolis —incluindo ele próprio. Antes, pontuou, há outro desafio eleitoral a ser enfrentado.

"A eleição de 2024 depende do resultado da eleição de 2022."

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