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'Volta pra senzala': as ofensas ouvidas por vereador de Curitiba

O vereador Renato Freitas (PT-PR) em protesto em igreja de Curitiba  - Reprodução
O vereador Renato Freitas (PT-PR) em protesto em igreja de Curitiba Imagem: Reprodução

Ana Maria Alcantara

Colaboração para o UOL, de Londrina (PR)

19/05/2022 04h00

O vereador de Curitiba Renato Freitas (PT), 38, coleciona episódios nos quais diz ter sido alvo de ofensas de cunho racial. O mais recente deles é apurado pela polícia: um email disparado pelo endereço do também vereador Sidnei Toaldo (Patriota) com o seguinte recado: "A Câmara de vereadores de Curitiba não é seu lugar, Renato. Volta para a senzala" e "Vamos branquear Curitiba e a região Sul, queira você ou não, seu negrinho".

Toaldo é relator de um processo de cassação contra Freitas por quebra de decoro parlamentar após o petista, segundo acusação de alguns vereadores, ter invadido uma missa durante uma manifestação (veja abaixo), em fevereiro deste ano. O protesto foi organizado pelo Coletivo Núcleo Periférico, na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos.

A cassação de Freitas tem expectativa de ser votada pelo plenário da Câmara nesta quinta-feira (19) — a casa legislativa é composta por 38 vereadores, três deles negros. O parecer pela cassação foi aprovado pelo Conselho de Ética da Câmara de Curitiba em 10 de maio.

Pouco antes da decisão do Conselho de Ética, Freitas recebeu a mensagem racista pedindo que voltasse para a senzala. O recado chegou em sua caixa de e-mail oficial da Câmara de Curitiba, originária da conta do vereador Sidnei Toaldo.

No dia seguinte ao envio do email, o advogado de Toaldo registrou um boletim de ocorrência em que não nega que a mensagem partiu da caixa do vereador, mas atribui a autoria a "uma pessoa desconhecida".

Questionado pela reportagem, o parlamentar voltou a negar ter enviado a mensagem e informa ter procurado a Corregedoria da Câmara para periciar os computadores de seu gabinete.

Além desse email, o petista diz ter sofrido outras ofensas dentro da Câmara Municipal.

Em março do ano passado, teria sido chamado de "maconheiro" pelo vereador Hernani da Silva (PSB) enquanto argumentava contra um pedido de votação em regime de urgência para um dos projetos propostos pelo prefeito Rafael Greca (União Brasil) sobre moradores em situação de rua. Procurado pela reportagem, Hernani não respondeu.

Sem citar nomes, Freitas relata ainda ter recebido de um ex-governador paranaense a oferta de R$ 5 para ele cortar o cabelo black power.

Em outra ocasião, o líder do Governo na Câmara, Pier Petruzziello (PP), teria questionado Freitas se ele ingeria bebida alcoólica dentro da Câmara e o acusou de estar bêbado em uma live. Questionado pelo UOL, Petruzziello afirmou não se lembrar de ter feito o comentário.

Caso ganhou repercussão nacional

A manifestação na qual o petista participava era contra os assassinatos de Moïse Kabagambe — espancado até a morte após cobrar o salário em um quiosque no Rio de Janeiro —, e de Durval Teófilo Filho, que perdeu a vida após um vizinho atirar nele, por achar que se tratava de um bandido.

O caso de Freitas ganhou proporção nacional após o presidente Jair Bolsonaro (PL) classificar os manifestantes de "marginais", que "não respeitam a casa de Deus" e mostram sua "face de ódio e desprezo às tradições do povo". Além disso, o ex-ministro Sergio Moro qualificou a ação como uma "absurda e revoltante invasão".

Um vídeo transmitido pela própria igreja mostra que Freitas não interrompeu a missa. O padre Luiz Haas chega a reclamar do barulho, mas só durante os recados finais, que antecede o fim da celebração. O vereador e outros manifestantes só se aproximam do altar mais de cinco minutos após o encerramento do culto, momento em que o padre, já sem a batina, acompanha o protesto.

Em nota publicada pouco depois da manifestação, a Arquidiocese de Curitiba afirmou que o ato interrompeu uma missa. O vereador Osias Moraes (Republicanos-PR) destacou que a manifestação teve "cunho político" e perturbou a fé dos frequentadores.

Consultada pelo Conselho de Ética em março, a Arquidiocese de Curitiba reafirmou em documento que o protesto "abreviou a missa", mas pediu que Freitas não tivesse o mandato cassado, mas que fosse aplicada uma "medida disciplinadora proporcional ao incidente".

"A movimentação contra o racismo é legítima, fundamenta-se no Evangelho e sempre encontrará o respaldo da Igreja. Percebe-se na militância do Vereador o anseio por justiça em favor daqueles que historicamente sofrem discriminação em nosso país. A causa é nobre e merece respeito. Todavia, não se pode negar que os fatos ocorridos apresentaram certos excessos, como o desrespeito pelo lugar sagrado. O Vereador procurou as autoridades religiosas, reconheceu o seu erro e pediu desculpas"

Iniciada no Centro Histórico de Curitiba, a passeata terminou na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de São Benedito. Construído em 1737 por escravizados, o templo foi erguido porque pessoas negras não eram aceitas em outras igrejas. Esse significado simbólico faz com que seja um destino preferencial para manifestações de cunho racial na cidade.

Formado em Direito pela UFPR (Universidade Federal do Paraná) e mestre em Direito Penal e Criminologia, Freitas foi o 18º vereador mais votado da cidade nas últimas eleições.

Conselho aprovou pedido de cassação

Depois de receber cinco representações, o Conselho de Ética da Casa instaurou processo por quebra de decoro por perturbação da prática de culto religioso, realização de ato político no local e entrada não autorizada.

Em 10 de maio, o conselho seguiu o parecer do relator do caso, Sidnei Toaldo, e aprovou a cassação de Freitas por cinco votos a dois, um pelo arquivamento e outro pela suspensão. No parecer, Toaldo negou que Freitas invadiu a igreja, mas afirmou que ele "exerceu papel de liderança no decorrer da manifestação pública, notadamente no interior da Igreja do Rosário" e teve posturas "atentatórias ao decoro parlamentar".

O vereador petista afirma que ele não desrespeitou o culto ou templo religioso. "A tentativa de cassação consiste em uma notória violência política de cunho racista", disse ao UOL.

Nesta terça-feira (17), a defesa do vereador protocolou um pedido de ação anulatória, alegando a parcialidade de alguns integrantes da Comissão, e recurso na Comissão de Constituição e Justiça.

Desconforto entre vereadores

Líder da oposição na Casa, a vereadora Professora Josete diz que percebe um desconforto de outros colegas com a presença de Freitas. "Acho que é proveniente do fato de ele ser um homem negro, da periferia, com cabelo black power. Já ouvimos comentários lá dentro da Câmara a respeito disto", diz.

Para o cientista social Djiovanni Marioto, mestre e doutorando em Ciência Política pela UFPR (Universidade Federal do Paraná), há um conjunto de fatores políticos e sociais da cidade que impacta na composição legislativa da Câmara. Um deles é o traço conservador de Curitiba, diz ele.

"Nesses espaços [de poder] você quase não vê a população negra, elas estão nos bairros mais afastados e periferias. Em conjunto a isto, a baixa quantidade de políticos negros, a falta de discussão, a falta de legislação e também esta gentrificação que ocorre em Curitiba podem ser algumas das causas do desconforto de ver representantes negros nas esferas de poder", diz.

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