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'Ainda não sinto cheiro': por que perda do olfato poderia indicar infecção por coronavírus

Novo coronavírus foi detectado pela primeira vez na China e se espalhou por todo o mundo - Getty Images
Novo coronavírus foi detectado pela primeira vez na China e se espalhou por todo o mundo Imagem: Getty Images

Luis Barrucho - @luisbarrucho - Da BBC News Brasil em Londres

01/04/2020 16h25

Número crescente de pacientes com covid-19 relata ter perdido olfato - e paladar - antes de desenvolver sintomas clássicos da doença, mas por quê?

"Comecei a perder o olfato e o paladar quatro dias depois de ter os primeiros sintomas do coronavírus, como calafrios, sudorese e dores no corpo", lembra a cantora Preta Gil à BBC News Brasil.

"Agora, já estou recuperada, mas meu olfato e meu paladar ainda não voltaram totalmente. Só consigo sentir cheiro de muito perto. Mas não sinto sabor de nada", acrescenta ela, que diz ter tido os primeiros sintomas da doença em 7 de março após se apresentar em um casamento na Bahia. Ela testou positivo para o vírus uma semana depois.

Assim como Preta, cresce o número de infectados pelo novo coronavírus que relatam uma repentina perda parcial (hiposmia) ou total (anosmia) do olfato e inclusive do paladar - às vezes até mesmo antes de desenvolver os sintomas clássicos da infecção, como febre alta, tosse seca e dificuldade para respirar.

Entre eles, alguns, como a cantora, dizem que ainda não recuperaram totalmente o olfato, mesmo depois de se já terem se curado da covid-19, doença causada pelo vírus.

Segundo uma nota recente da ENT UK, associação que representa os otorrinolaringogistas do Reino Unido, duas em cada três pessoas com coronavírus na Alemanha relataram ter perdido o olfato. Já na Coreia do Sul, 30% dos doentes relataram ter tido anosmia como seu principal sintoma.

A perda de olfato é um sintoma comum de uma gripe ou resfriado, devido, principalmente, à congestão nasal.

No entanto, nariz entupido e coriza não foram relatados como sintomas do novo coronavírus. Eles podem ocorrer, mas não são comuns.

Hiposmia e anosmia são sinais?

Esse é um debate que vem intrigando a comunidade científica de todo o mundo.

"Tipicamente, quando temos um resfriado, nosso nariz fica congestionado, e portanto não surpreende que nosso olfato seja afetado", diz Claire Hopkins, presidente da Sociedade Britânica de Rinologia, uma das co-signatárias da nota da ENT UK, ao jornal britânico The Telegraph.

"Mas o que está acontecendo é que não há nenhuma obstrução nasal, então todo mundo está surpreso", acrescenta ela.

No comunicado, a ENT UK listou que esses sintomas foram verificados em "inúmeros pacientes" que não apresentaram outros sintomas.

Segundo a entidade, houve um aumento repentino de casos de "anosmia isolada" no Reino Unido, Estados Unidos, França e no norte da Itália.

Ou seja, essas pessoas chegaram a perder o olfato, mas não tiveram outros sintomas da doença.

"Acreditamos que esses pacientes podem ser alguns dos portadores até então ocultos que facilitaram a rápida disseminação do covid-19", diz o comunicado.

"Infelizmente, esses pacientes não atendem aos critérios atuais de teste ou autoisolamento", acrescenta.

No Reino Unido, os testes vêm sendo restritos a pacientes com os sintomas mais graves da doença. Aqueles com sintomas mais leves são aconselhados a ficar em casa e se autoisolarem.

Segundo a ENT UK, a anosmia após uma infecção viral é "uma das principais causas da perda de olfato em adultos", correspondendo a aproximadamente 40% dos casos.

"Sabe-se que os vírus do resfriado comum causam perda de olfato pós-infecciosa e mais de 200 vírus diferentes causam infecções do trato respiratório superior", assinala a entidade.

"Os coronavírus descritos anteriormente são responsáveis por 10% a 15% dos casos. Portanto, talvez não seja surpresa que o novo coronavírus também cause anosmia em pacientes infectados", acrescenta.

Redução de olfato e paladar

É comum experimentarmos uma redução na capacidade de olfato e paladar logo após uma infecção viral.

Segundo médicos, isso é resultado do bloqueio causado pela obstrução do nariz, do edema na membrana nasal e do excesso de secreções nasais.

No entanto, à medida que nos recuperamos e esses sintomas vão desaparecendo, a função respiratória é retomada e, como resultado, voltamos a ter olfato e paladar.

Em apenas 1% dos casos, os pacientes sofrem uma "perda permanente de olfato e paladar", dizem os médicos.

Em entrevista ao jornal britânico The Independent, Carl Philpott, diretor de assuntos médicos e pesquisa da ONG Fifth Sense, no Reino Unido, explica que a razão pela qual as pessoas podem pensar que estão perdendo o paladar é, na verdade, porque o olfato - que tem um enorme impacto na capacidade de detectar o sabor - fica prejudicado.

"A questão da perda do paladar se resume apenas a linguagem e conceito. Quando comemos, nosso paladar e olfato trabalham juntos, então, a maioria das pessoas não separa os dois mecanismos", explica.

"Todas as sensações de salgado, doce, azedo e amargo são detectadas na língua, e isso não é afetado pelo novo coronavírus", acrescenta.

Aposta

A grande aposta dos especialistas é que a covid-19 afete os nervos olfativos do nariz. Eles acreditam que o vírus cause inflamação dos nervos no nariz, impedindo-os de funcionar como deveriam.

Philpott, da Fifth Sense, explica que resfriados e vírus comuns geralmente causam congestão inicial no nariz, podendo levar à "perda de olfato pós-viral".

"Se você observar o tecido em detalhes no microscópio, verá que as terminações finas das células receptoras caem e, portanto, as células não são mais capazes de captar moléculas de odor do nariz", diz ele ao The Independent.

Ele acrescenta que a covid-19 "parece ter uma alta concentração no nariz" e afirma que, como a maioria dos relatos dá conta de que essa perda de olfato dura, em média, de sete a 14 dias, "é provável que o vírus esteja causando algum tipo de inflamação nos nervos do olfato, em vez de causar danos à estrutura dos receptores".

É o que mostra um estudo recente conduzido por pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.

Os cientistas concluíram que o novo coronavírus é capaz de atacar células-chave no nariz. O estudo, realizado a partir de genomas de humanos e camundongos, constatou que certas células na parte posterior do nariz abrigam proteínas específicas de que o vírus precisa para se replicar em nosso corpo.

Sendo assim, a infecção dessas células pode direta ou indiretamente causar uma alteração no olfato, explicaram eles.

De acordo com os autores do estudo, David Brann e Sandeep Robert Datta, do Departamento de Neurobiologia da instituição, a inflamação na cavidade nasal desencadeada pela infecção causadora da pandemia poderia prejudicar o olfato.

Mas também é possível que o vírus infecte e danifique as células na mucosa nasal necessárias para a função olfativa.

Segundo os pesquisadores, descobrir a causa da perda sensorial tem implicações importantes para embasar o diagnóstico e determinar os efeitos da doença.

"Além disso, pacientes com disfunção olfativa persistente correm risco de déficits nutricionais, de lesões devido à incapacidade de cheirar odores de 'perigo' como fumaça, gás e alimentos estragados e de desenvolver distúrbios psiquiátricos, principalmente depressão", acrescentaram.

'O que fazer'

Embora evidências apontem que a perda de olfato pode ser um sintoma do novo coronavírus, ainda não se sabe se de fato isso ocorre.

A comunidade médica tampouco sabe dizer com total certeza se essa anosmia é temporária ou permanente - muitos acreditam, no entanto, que seja apenas temporária e poderia durar de "dias a meses", dependendo do caso.

Embora não haja tratamento clínico específico caso isso ocorra, há um treinamento para recupera a função olfativa, que deve ser feito com acompanhamento médico.

Por ora, a recomendação, inclusive, da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia, é o isolamento em casa por 14 dias para quem tenha esse sintoma.

Isso é importante porque o isolamento nessa fase inicial da infecção ajuda a frear a propagação rápida do vírus.

Como o vírus pode se alojar no trato respiratório superior (laringe, faringe e traqueia), o infectado pode ficar sem sintomas por cerca de dez dias.

Sem sintomas, essa pessoa pode espalhar o vírus mais rápido, sem repouso ou isolamento.

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