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Coronavírus

Segunda onda de covid? As cidades e regiões do Brasil que puxam o aumento da doença

Paciente internado na UTI do hospital Albert Einstein, em São Paulo - Nelson Almeida/AFP via Getty Images
Paciente internado na UTI do hospital Albert Einstein, em São Paulo Imagem: Nelson Almeida/AFP via Getty Images

19/11/2020 15h49

Enquanto cresce o debate sobre se o que ocorre no Brasil é uma segunda onda de covid-19 ou repiques de uma primeira onda que nunca acabou, o número de pacientes internados com doenças respiratórias graves cresce em regiões de 15 Estados brasileiros, incluindo 10 capitais.

Esses dados (de 8 a 14 de novembro) constam em levantamento semanal feito pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), ligada ao Ministério da Saúde, a partir de registros oficiais de casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG), incluindo a covid-19.

Esse indicador é um dos mais precisos para tentar entender situação da doença no país porque trata de pacientes graves hospitalizados e porque sofre menos distorção da falta de testes para detectar a covid-19.

Neste ano, o país já registrou 371 mil casos de doenças respiratórias graves que tinham a febre entre os sintomas. Dos casos entre eles analisados em laboratório, 98% eram covid-19 ? média anual de casos gira em torno de 40 mil.

Há relatos e dados oficiais de hospitais públicos e privados lotados em diversas regiões do país, a exemplo de São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Rio de Janeiro e São Luís.

Além disso, pesquisadores apontam que a taxa de contágio da covid-19 está acima de 1 em pelo menos 20 Estados do país. Isso significa que no Ceará, por exemplo, onde a taxa é estimada em 1,26, um grupo de 100 pessoas infectadas transmite em média a doença para 126, e estas passam o vírus adiante na mesma proporção.

Onde a covid-19 avança?

Segundo a Fiocruz, os 15 Estados com tendência moderada ou forte de alta de casos são: Acre, Alagoas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso, Paraíba, Piauí, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.

Mas é importante entender que há diversos níveis de espalhamento da doença. Por isso, a Fiocruz divide essas tendências em basicamente quatro grupos: curto prazo, longo prazo, moderada e forte.

Primeiro exemplo: uma tendência moderada de crescimento de curto prazo significa que a localidade registrou aumento de casos nas três semanas anteriores e a probabilidade dessa situação continuar assim vai de 75% a 95%. É o caso do noroeste de São Paulo, do nordeste de Goiás e do norte do Piauí, por exemplo.

Segundo exemplo: uma tendência forte de longo prazo significa que houve aumento em seis semanas anteriores e a probabilidade de a situação continuar assim passa de 95%. É o caso do Acre e de Santa Catarina praticamente inteiros, além da região do Jequitinhonha em Minas Gerais e do oeste do Rio Grande do Norte, entre outros.

Cada um desses 15 Estados tem pelo menos uma macrorregião com aumento de notificações de doenças respiratórias (e por extensão, de covid-19). Em Minas Gerais, há alta em 7 das 14 áreas do Estado. Em São Paulo, em 10 das 17. Em Santa Catarina, em 5 das 7. Na Bahia, em 1 das 9, mas esta é a mais populosa do Estado por incluir a capital Salvador.

As dez capitais com tendência de alta são: Belo Horizonte, Florianópolis, Goiânia, João Pessoa, Natal, Palmas, Rio Branco, São Luís, Vitória e região central do Distrito Federal.

É importante destacar que esses dados levam em conta a situação de 8 a 14 de novembro, e o espalhamento de uma doença tão contagiosa como essa pode mudar rapidamente.

E que esses dados mostram apenas um pedaço do retrato do que está acontecendo, não inclui as pessoas que não chegam a ser internadas, e a falta de informações confiáveis torna muito difícil entender a situação atual do país.

Um exemplo é a taxa de ocupação dos leitos que aparece em sites de governos estaduais. Alguns divulgam apenas os dados diários, então não é possível saber se aumentou ou diminuiu. Outros aumentam ou diminuem constantemente a oferta de leitos, então a taxa pode permanecer "baixa" enquanto a situação está piorando.

Por isso, a taxa mais "confiável" para entender o que está acontecendo de fato é o número de mortes por doenças respiratórias, mas há um descompasso porque geralmente leva quase um mês, em média, para alguém morrer de covid-19.

Então, se hoje é difícil enxergar o impacto da nova onda de covid-19 nas estatísticas de morte, é uma questão de tempo até isso começar a acontecer.

Até agora, o Ministério da Saúde registrou a morte de 167 mil pessoas por covid-19.

Mas especialistas da Fiocruz apontam que morreram neste ano ao menos 220 mil pessoas de doenças respiratórias graves (basicamente por covid-19). No ano passado, foram 5.324.

O que vem pela frente?

A avaliação de especialistas sobre a ocorrência de uma segunda onda de coronavírus no país, a exemplo do que acontece na Europa e nos Estados Unidos, se baseia na evolução da taxa de reprodução (Rt) do coronavírus no país, que indica que a pandemia voltou a crescer por aqui.

Essa taxa de contágio é calculada com base no aumento de novos casos e permite saber quantas pessoas são contaminadas por alguém que já está infectado.

Se o índice fica acima de 1, isso indica que a pandemia está se expandindo. Quando está abaixo, é um sinal de que a pandemia está perdendo intensidade.

De acordo com o Observatório de Síndromes Respiratórias da Universidade Federal da Paraíba, o Rt estava acima de 1 em 20 Estados (Acre, Alagoas, Amapá, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rondônia, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe e Tocantins) e no Distrito Federal.

A situação estava mais crítica no Paraná, onde a taxa era de 1,62. Já em Santa Catarina a Rt está acima de 1 há mais tempo: desde 14 de outubro.

Enquanto esse número não cair para menos de 1, a doença não vai dar folga.

E como é possível reduzir essa taxa de contágio?

Sem vacinas disponíveis ainda, centenas de especialistas afirmam que isso envolve uma série de estratégias de combate à doença, como distanciamento social, uso de máscaras e rastreamento de pessoas que tiveram contato com alguém infectado.

Mas nenhuma dessas medidas sozinha é perfeita, e algumas são de responsabilidade de cada pessoas e outras são dos governantes ou da sociedade como um todo.

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Imagem: BBC

Por isso, o virologista Ian M. Mackay, da Nova Zelândia, encontrou uma ótima analogia para ajudar as pessoas a se protegerem contra a covid-19: o queijo suíço.

"Nenhuma medida isolada de prevenção que tentamos implementar para combater a covid funciona 100%", mas, quando "começamos a juntar diferentes camadas (medidas), criamos uma barreira efetiva", disse o cientista à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

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