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Cidade maranhense recebe maior número de cubanos do Mais Médicos

Mariana Tokarnia

Da Agência Brasil, em Chapadinha (MA)

23/09/2013 19h24

Recém-chegados no último fim de semana, os seis médicos cubanos do Mais Médicos aproveitaram o dia para conhecer os colegas com quem irão trabalhar, os postos de saúde onde atuarão e a casa em que irão morar em Chapadinha, no interior do Maranhão. A cidade foi a que mais recebeu médicos cubanos pelo programa Mais Médicos, ao todo seis profissionais.

  • Arte UOL

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Eles ainda aguardam o registro provisório, que será emitido pelo Conselho Regional de Medicina, mas a expectativa é que comecem a atender na próxima semana.

Chapadinha tem 76 mil habitantes, segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no entanto, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, a cidade atende a mais 16 municípios vizinhos, totalizando 350 mil pessoas. A cidade dispõe de um hospital e 14 postos de saúde, sendo que o corpo médico atual soma 32 profissionais, que se dividem entre a atenção básica e a especializada.

Com a chegada dos cubanos, os profissionais poderão voltar-se à atenção especializada, já que os estrangeiros se ocuparão da atenção básica. "A gente vai conseguir levar para a população a assistência médica e bloquear a ida dos pacientes para o hospital por problemas que podem ser resolvidos no posto de saúde perto da casa dele", explica o secretário de Saúde, Charles Bacelar. "Temos no hospital, um grande número de internações relacionadas à atenção básica".

Nesta segunda-feira (23), Bacelar explicou aos médicos durante uma reunião como e onde atuarão e, em seguida, cada um deles conheceu a futura sala de atendimento.

Demagogia eleitoreira

  • A questão dos médicos estrangeiros caiu na vala da irracionalidade. No meio desse fogo cruzado, com estilhaços de corporativismo, demagogia, esperteza política e agressividade contra os recém-chegados, estão os usuários do SUS.

    Insisto que sou a favor da contratação de médicos estrangeiros para as áreas desassistidas, intervenção que chega com anos de atraso. Mas devo reconhecer que a implementação apressada do programa Mais Médicos em resposta ao clamor popular, acompanhada da esperteza de jogar o povo contra a classe médica, é demagogia eleitoreira, em sua expressão mais rasa.

    Leia, na íntegra, o artigo de Drauzio Varella

O médico Juan Montero terá de dividir a sala com a enfermeira brasileira Nitheyanna dos Santos. O posto de saúde de Bairro Novo é o que está em piores condições. O teto e as paredes estão com infiltrações e na sala de atendimento, apenas uma mesa, uma cadeira quebrada e uma maca. O local atende mil famílias e a prefeitura diz que já solicitou uma reforma.

"Aqui é mais ou menos parecido com o meu país, com o meu consultório", diz Montero. A partir da semana que vem, ele pretende acompanhar as visitas dos agentes comunitários.

"Primeiro, vamos apresentar a população para ele, para poder passar confiança. Ele está chegando agora e algumas pessoas ainda estão desconfiadas", diz Nitheyanna. Ela diz que vai ajudar o futuro colega com o português: "Os pacientes têm a linguagem deles. Chegam dizendo que estão com dor na bacia, nos quartos. Tem vezes que nem a gente entende. Temos que pedir para eles mostrarem onde é a dor".

No posto, a procura por consulta é disputada. Com apenas um médico duas vezes por semana, as consultas são todas agendadas. "Já teve até briga. Chegou um senhor procurando consulta e só tinha para o fim do mês. Ele ficou bravo e voltou com uma faca. Tivemos que conversar bastante com ele para se acalmar". O médico cubano trabalhará 40 horas semanais. Com isso, os pacientes serão atendidos por ordem de chegada.

Já o posto de saúde de Areal foi recentemente reformado. Juan Carlos Rojas terá uma sala só para ele. O número de pacientes, no entanto, é maior, são 4 mil famílias cadastradas. Lá, a visita à comunidade é obrigação. Um ou dois dias da agenda do médico serão dedicadas às visitas aos pacientes acamados que não têm condições de ir ao posto e às famílias, para dar orientações.

"O atendimento domiciliar é como a gente trabalha com a prevenção. É quando conhecemos a família, a área", explica a enfermeira Cleomara Caldas.

Na cidade, a maior parte das doenças pode ser evitada com a mudança de hábitos da população, de acordo com a secretaria de Saúde. No entanto, Chapadinha não tem saneamento básico adequado, e grande parte das doenças está relacionada com a água. A Pesquisa Saneamento Básico de 2008 do IBGE mostra que 17 mil casas tem água encanada, porém nenhuma conta com tratamento de esgoto.

Após as visitas, os médicos foram encaminhados à casa em que ficarão hospedados. O local ainda está recebendo os últimos reparos. Pelas regras do Mais Médicos, o município deve arcar com a alimentação e hospedagem. A prefeitura optou por comprar os alimentos e abastecer a casa. A prefeita Maria Ducilene Cordeiro diz que estuda um valor para repassar diretamente aos profissionais, mas ainda não tem uma estimativa.

A casa tem três quartos. Um deles é ocupado por Aicza Madelaine. Dois médicos dividem um cômodo e mais três, outro. A médica diz que pode ser "complicado" conviver com cinco homens por três anos - tempo de duração do programa. Já os rapazes queixam-se do quarto compartilhado. A prefeitura informou que está preparando uma segunda casa, para melhor acomodação.

Durante a semana, os médicos devem se ocupar em conhecer a população. A orientação é que façam palestras nos postos onde irão trabalhar.

A dona de casa Maria da Silva Araújo sofre de pressão alta, por isso vai ao médico uma vez a cada três meses para pegar a receita do remédio controlado. Com a chegada dos novos médicos, espera melhora no atendimento. "Vai ser bom, os médicos daqui, maioria vem de fora, as pessoas ficam sem médico. Graças a Deus, vai ficar melhor", diz Maria, que cuida de seis netos.

Onde falta médico, faltam dentistas e enfermeiros, mostra pesquisa

A concentração de médicos nos grandes centros acompanha a de outros profissionais de saúde, como dentistas e enfermeiros, e a de unidades de saúde. Onde falta um, faltam os outros.

É o que o mostra um recorte da pesquisa Demografia Médica no Brasil, que se baseou em dados da AMS (Assistência Médico-Sanitária) do IBGE, que conta os postos de trabalho ocupados por profissionais de saúde

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