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Ele tinha alucinações, foi tratado por depressão, e problema era o coração

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Ettore Oliveira teve alucinações e se sentia perseguido após um problema no coração Imagem: Getty Images/iStockphoto

Larissa Leiros Baroni

Do UOL, em São Paulo

03/04/2018 04h00

Tudo começou com uma angústia, um aperto no peito e uma tristeza profunda. Sintomas que levaram o nutricionista esportivo Ettore Oliveira, 56, a ser tratado por depressão por quase um ano. Passou a ter alucinações e se sentir perseguido por todos. Foi só após uma internação no hospital que descobriu que seu problema não era psiquiátrico. Ettore sofria de uma deficiência cardíaca.

"O seu coração já não conseguia mais bombear bem o sangue para o cérebro. Por isso toda a confusão mental", conta Victorio Luglio, marido do nutricionista há 32 anos. A descoberta foi tardia. "Quando ele recebeu o diagnóstico, o problema já estava avançado. Ele não conseguia nem mais respirar direito."

Com o tratamento adequado, o nutricionista conseguiu retomar a vida com a ajuda de medicamentos. No entanto, a insuficiência cardíaca só foi resolvida com o implante de um coração artificial, após sete meses de idas e vindas ao hospital.

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Até dezembro de 2017, 255 pessoas aguardavam a doação de um coração, segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos. No ano passado, 86 dos 443 brasileiros que se candidataram a um "novo coração" morreram ainda na espera.

O coração artificial pode ser uma saída para quem aguarda o órgão para transplante, mas ainda é pouco usado no Brasil. Apenas cerca de 40 pessoas receberam o órgão mecânico no país, segundo Fábio Jatene, do Incor (Instituto do Coração).

Diante da gravidade dos fatos, era bem provável que Ettore morresse na fila de espera do transplante de coração. Optamos pelo implante."

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A máquina e o transplante

O coração artificial é um aparelho que dá assistência ao ventrículo esquerdo (responsável por bombear o sangue para todo o corpo exceto os pulmões), ao direito (responsável pelo bombeamento do sangue na circulação pulmonar) ou aos dois ventrículos de pacientes com insuficiência cardíaca.

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A doença atinge cerca de 30 mil brasileiros, segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia.

"Ao contrário do marca-passo, que mantêm a atividade rítmica do coração, esse implante atua para melhorar a força e o bombeamento do órgão", explica Juliana Giorgi, cardiologista clínica do HCor (Hospital do Coração) e do Hospital Sírio Libanês. De acordo com ela, o implante é uma alternativa ao transplante, não um substituto. "São terapias complementares."

 O coração artificial pode ser usado como uma ponte até o transplante: pacientes que não têm condições de aguardar o tempo da fila de espera por um coração novo e que recorrem temporariamente ao procedimento até que um doador seja encontrado. Ou como destino: aqueles que por razões clínicas, religiosas ou ideológicas não podem passar pelo transplante.

"É a oportunidade de prologar a expectativa de vida das pessoas impossibilitadas de receber um transplante", ressalta Giorgi. No entanto, o implante só é recomendado para pessoas a partir de 12 anos. "Isso porque o tamanho do implante não se ajusta ao tórax das crianças", explica.

A técnica é reconhecida pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), mas ainda pouco implementada no Brasil. Não há dados oficiais, mas cerca de 40 já brasileiros receberam um coração artificial. No mundo, esse número passa de 30 mil. "Uma técnica muito mais comum em países europeus e nos Estados Unidos). 

O custo do implante é um dos empecilhos para a ampliação do uso. O procedimento custa cerca de R$ 700 mil. "É coberto por alguns convênios. O SUS adotou um programa junto ao Incor para custeio de até 14 implantes por ano", afirma a cardiologista.

Como é viver com uma máquina "no lugar do coração"? $escape.getH()uolbr_geraModulos('embed-foto','/2018/coracaoartificial2-1522255479495.vm')

Em junho de 2017, o nutricionista de 56 ganhou um coração artificial. "Em uma semana, o Ettore que eu conheço começou a reaparecer, voltando a falar, a controlar os movimentos do corpo", conta Victorio. Segundo ele, o parceiro já retomou todas as suas atividades rotineiras, incluindo a musculação –um dos seus hobbies favoritos.

Não está impedido a fazer nada, exceto mergulhar em uma piscina ou no mar. Para qualquer lugar que vá, Etorre leva duas baterias, acopladas no dispositivo, que tem autonomia de 17 horas, conta o companheiro.

Há algum incômodo pela pressão do aparelho implantado no tórax. "Mas qual é o significado desses pequenos detalhes perto da alegria de estar vivo?", minimiza o marido.