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Coronavírus interrompe tratamentos e até quimioterapia em São Paulo

Hospital Pérola Byigton, em São Paulo-SP, interrompeu quimioterapias por falta de medicamento - Divulgação
Hospital Pérola Byigton, em São Paulo-SP, interrompeu quimioterapias por falta de medicamento Imagem: Divulgação

Arthur Sandes

Do UOL, em São Paulo

27/03/2020 04h00

A pandemia do novo coronavírus (covid-19) interrompe tratamentos e tem como consequência até a paralisação de quimioterapias no estado de São Paulo. Enquanto um homem corre risco de ficar tetraplégico no litoral, uma paciente com câncer de mama teve seu tratamento adiado por falta de medicamento na capital.

"Me ligaram e falaram que eu não faria a quimioterapia porque não tinha medicação. Nem sabiam dizer quando teria", conta Edna Conceição Paiva, de 58 anos. Ela descobriu um câncer de mama em setembro, mas só pôde começar o tratamento em fevereiro, quando o tumor já havia crescido em dez vezes. "A quimio é horrível, mas é o que me mantém viva. É a minha chance de cura."

Edna tinha a terceira sessão de quimioterapia marcada para anteontem, mas foi avisada pelo Hospital Pérola Byigton de que havia um medicamento em falta, sem previsão de reposição. Depois de insistir para saber qual medicação estava esgotada, Edna Conceição ouviu da atendente que se tratava do ciclofosfamida, remédio que atua impedindo a multiplicação das células malignas do câncer.

O momento não poderia ser pior. É verdade que o tumor diminuiu em 80% com duas sessões de quimioterapia, mas na semana passada Edna colocou um clipe intratumorial para poder localizá-lo caso sumisse — é um procedimento padrão, mas que frequentemente aumenta um pouco seu tamanho. Ela contava com a quimio desta semana para evitar que o tumor retomasse o crescimento contínuo, mas não houve tratamento. Os atendentes do Hospital Pérola Byigton não sabem dizer quando a Secretaria Estadual de Saúde vai repor os estoques.

"O tumor que tenho é agressivo, já sofri muito com ele e tenho um receio muito grande de voltar a crescer. Meu medo maior é que, sem a quimioterapia, ele se espalhe. Até agora ele só teve disseminação para as axilas, mas tenho muito medo de que vá para outros lugares", relata Edna, sem perder a confiança. "Se só 60% sobrevivem a este câncer, eu faço questão de fazer parte desses 60%", diz, com a voz embargada.

Atrasos reduzem eficiência do tratamento

A suspensão de uma sessão de quimioterapia vai contra as recomendações gerais da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC). "Os atrasos que não tenham a ver com a saúde da paciente provavelmente vão reduzir a eficiência do tratamento. Há uma queda de eficiência, sim, quando o intervalo [entre as sessões] aumenta", explica o médico Bruno Pacheco, diretor da SBOC.

"O tumor triplo negativo é o câncer de mama mais agressivo que existe. Fazendo sessões a cada 21 dias, em teoria é muito importante cumprir esses 21 dias. Como ele é muito agressivo, com o atraso é maior a chance de a doença voltar, aparecer mais tarde", afirma Pacheco.

Procurada, a Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo informou que o hospital já concluiu "o processo de compra" do medicamento ciclosfamida. "Eventuais atrasos na entrega por parte dos fornecedores podem impactar no atendimento. A unidade segue cobrando celeridade na entrega por parte dos fornecedores. A paciente será orientada sobre a disponibilidade para o tratamento tão logo isso ocorra", disse a secretaria, em nota.

A logística de compra de medicamentos tem sido diretamente afetada pela pandemia, principalmente de remédios importados. O cenário preocupa a Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), que afirmou na semana passada que os hospitais estão apreensivos pela subida de preços de medicamentos e insumos, "além do longo prazo de recebimento, que gira em torno de 90 dias".

Nas últimas semanas o Hospital Pérola Byigton passou por reformulação por causa da pandemia do novo coronavírus: boa parte do centro cirúrgico e um andar inteiro do prédio foram destinados ao atendimento a pacientes com sintomas de covid-19.

Marcos pode perder todo o avanço que fez na fisioterapia

Aos 46 anos, o ambulante Marcos Martins vive um drama em casa, na cidade litorânea de Bertioga. Ele ficou paralisado do pescoço para baixo há cerca de três meses. Passou por cirurgia. Começou a fazer fisioterapia em duas clínicas e, assim, conseguiu recuperar um pouco do movimento dos braços. Agora, no entanto, as clínicas cancelaram sessões por temor de contaminação pela covid-19.

"Eu preciso fazer a fisioterapia. Tenho feito em casa, mas não é a mesma coisa, não tem a mesma atividade. Preciso me arrastar, pelo menos. Sei que não vou ser a mesma coisa, que minha invalidez é permanente, que eu não posso mais trabalhar. Mas quero pelo menos tentar ir ao banheiro sozinho. A fisioterapia é primordial nisso", diz Marcos.

Ele sofreu a lesão em novembro, quando levantou um peso maior do que sua coluna aguentava, mas só descobriu o problema no mês seguinte: compressão da medula cervical de grau cinco, o mais grave.

Para piorar, a condição financeira também atrapalha: ele e a mulher têm barraca na praia e estão sem trabalhar pela condição de Marcos e pela pandemia do novo coronavírus. "Não temos perspectiva de nada, porque somos ambulantes. Estamos sem renda nenhuma, não está entrando nada", lamenta.

Marcos fazia fisioterapia em uma clínica e no campus do Guarujá da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp). A clínica diz que as sessões foram interrompidas "por precaução, mesmo" ao coronavírus e que tem atendido apenas "os pacientes que sentem muita dor". Já a Unaerp não se pronunciou sobre a interrupção dos tratamentos, apenas afirma em seu site que suspendeu atividades "diante dos impactos da pandemia da covid-19".

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