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Coronavírus

País investiga mais de 1.200 mortes por suspeita de covid-19; SP lidera

Homem trabalha em obra de ampliação de cemitério no Rio de Janeiro - RICARDO MORAES / Reuters
Homem trabalha em obra de ampliação de cemitério no Rio de Janeiro
Imagem: RICARDO MORAES / Reuters

Alex Tajra, Luís Adorno e Felipe Pereira

Do UOL, em São Paulo

18/04/2020 04h01

Ao menos 1.214 mortes, até a última quinta (16), eram tratadas como suspeitas de infecção pelo novo coronavírus e estavam na fila de análise dos testes para detecção da covid-19 em 12 estados.

Ainda sob investigação, esses óbitos equivalem a mais da metade das 2.141 mortes contabilizadas pelo governo federal até ontem como causadas pela doença. Ou visto sob outro ângulo: sob a hipótese extrema de todos os testes represados terem resultado positivo, o número de mortes no país causadas pelo vírus subiria 57%.

Segundo Paulo Menezes, coordenador do Controle de Doenças da Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo, 30% dos exames referentes a pacientes que morreram sob suspeita confirmam a covid-19. Se essa proporção se mantiver no cenário nacional, o país pode ter mais 364 mortes causadas pela doença fora da estatística oficial — uma sombra de 17%.

Além de indicar o tamanho da subnotificação da covid-19 no país, o número — ou a ausência dele — revela a falta de coordenação nacional ao tratar de casos suspeitos. O Ministério da Saúde não informa quantos testes há no país, quantos estão na fila, nem quantos casos suspeitos há — estratégia criticada por infectologistas ouvidos pela reportagem (leia mais no fim deste texto).

Sem dados centralizados, para chegar ao número de mortes à espera de confirmação de covid-19 a reportagem procurou cada uma das Secretarias Estaduais de Saúde em busca de mortes registradas como óbitos por problemas respiratórios, e que aguardam resultados de testes para covid-19.

Até o fechamento deste texto, às 18h de ontem:

  • 5 estados não responderam (Roraima, Amapá, Maranhão, Sergipe e Pará)
  • 10 afirmaram não ter mortes sob investigação (Paraná, Santa Catarina, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Distrito Federal, Rondônia, Tocantins, Acre e Alagoas)
  • 12 responderam diretamente ou disponibilizam a fila de mortes à espera do resultado do exame

SP e RJ

O estado mais populoso e com mais casos de covid-19 é também o que lidera as mortes sob investigação: 787 casos — número que quase se iguala ao das mortes confirmadas pela doença no estado (928).

O sistema público de saúde paulista vem demonstrando sinais de sobrecarga: os leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) estão se enchendo na capital, e o governo já estuda medidas para desafogar estes hospitais.

Na sequência vem o Rio de Janeiro, que investiga 130 mortes. Lá, quase 4.000 pessoas estão contaminadas, na contagem oficial, e mais de 300 morreram. Minas Gerais, que investiga 77 óbitos, é o terceiro estado com mais mortes suspeitas.

Mas o abismo entre realidade e os números oficiais pode ser ainda maior, como apontam os registros de óbito e a falta de autópsia entre os mortos. E os números divulgados pelos governo federal são defasados: incorporam mortes ocorridas há dias, com teste confirmando a covid-19 com atraso.

Crescimento das mortes suspeitas

O número de mortes suspeitas quase triplicou em duas semanas. Em 4 de abril, levantamento da Folha mostrou que 16 estados investigavam 418 mortes. Os números são alterados diariamente por conta dos resultados de testes que são recolhidos, mas mostram a expansão da doença no país.

O estado do Ceará é representativo em relação à volatilidade destes números. As autoridades de saúde atualizam um sistema com todos os dados referentes ao coronavírus três vezes por dia. Na última atualização antes do fechamento desta reportagem, 76 mortes eram investigadas como suspeitas de coronavírus.

Na região Norte, o Amazonas é o único estado que informou a investigação de mortes suspeitas: 31 óbitos aguardam resultados de exames.

Para médicos, governo deveria contar casos suspeitos

Desde março, o ministério da Saúde não contabiliza os casos suspeitos de coronavírus no país. A pasta diz que, como há transmissão sustentada, "qualquer brasileiro pode ser um caso suspeito". Em relação às mortes suspeitas, o ministério nunca chegou a efetivamente fazer uma contabilização, postura criticada por médicos e estudiosos de gestão pública entrevistados pelo UOL.

"[O ministério] deveria anunciar [as mortes suspeitas], sem dúvida, tanto para casos novos como para o número de mortes. Alguns casos talvez não sejam de covid-19, mas também existem doentes com covid que são assintomáticos, ficam elas por elas. Os números são muito inferiores à realidade, e há uma consequência perversa", diz o médico urologista e professor da Faculdade de Medicina da USP, Miguel Srougi.

Os pacientes subestimam a doença, relaxam nas medidas de contenção e se infectam com maior frequência"
Miguel Sroug, professor da Faculdade de Medicina da USP

A professora de administração pública da FGV (Fundação Getulio Vargas), Gabriela Lotta, diz que a transparência nos dados influencia diretamente o combate à pandemia.

"Já sabemos que há uma subnotificação enorme no caso brasileiro e temos uma baixíssima taxa de testes comparando com os demais países. Seria essencial que o governo federal agregasse o máximo de dados estaduais possíveis para ter um panorama mais realista", argumenta.

"As mortes suspeitas são um indicativo importante do crescimento da pandemia e também da subnotificação, que permite inclusive fazer estimativas de mortes reais
Gabriela Lotta, professora de administração pública da FGV

Para Jean Gorinchteyn, médico infectologista do Instituto Emílio Ribas, computar as mortes suspeitas pode alterar fatores como a taxa de letalidade e ajudaria a entender o tamanho do problema que o país enfrenta.

"Esses dados são importantes para a gente poder ter ideia do que está acontecendo. Estas quase 1.200 pessoas, será que elas já foram computadas como mortes? Nossa mortalidade então é menor? Será que elas não foram computadas, portanto nossa mortalidade é maior? Todos esses dados têm que estar muito bem sequenciados", diz o médico.

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